A baiana Maria Bethânia deu seus
primeiros passos profissionais ao substituir Nara Leão no show Opinião,
em 1965. De lá para cá, lançou 38 álbuns e 3 DVDs, todos marcados pela
extrema qualidade.
Em 18 de junho,
Bethânia fez 60 anos. Para marcar a data, a Universal Music
relança, em edições remasterizadas digitalmente, 22 discos que ela gravou
na companhia entre 1967 e 1995. Ficaram de fora os álbuns Os Doces
Bárbaros (gravado ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal
Costa), a trilha sonora do filme Quando o Carnaval Chegar (com
Chico Buarque e Nara Leão) e a edição em espanhol de As Canções Que
Você Fez Pra Mim, só com criações de Roberto e Erasmo Carlos (o disco
em espanhol chegou a ser lançado no Brasil).
O meticuloso trabalho de reedição teve
coordenação do jornalista e pesquisador Rodrigo Faour, que escreveu para
cada disco um texto, situando-o historicamente. Os CDs trazem as capas e
encartes originais. Trata-se de obra de fôlego, feita por um profissional
que realmente entende do riscado e não inventa informações.
Vale lembrar que Maria Bethânia passou
também pela EMI e BMG (hoje Sony BMG) e atualmente está na Biscoito Fino,
com a qual mantém um selo, o Quitanda, por onde vem lançando seus CDs e
DVDs e também projetos especiais.
Aqui, uma análise dos títulos mais
significativos da discografia de Bethânia na Universal Music:
EDU E BETHÂNIA
Elenco, 1967
Este
disco feito ao lado de Edu Lobo para a Elenco, gravadora criada
pelo produtor Aloysio de Oliveira, foi o segundo trabalho de estúdio de
Bethânia. Ela e Edu estavam iniciando carreira, embora o cantor e
compositor já fosse um vitorioso em festivais (dois anos antes ganhara o
da Excelsior com Arrastão, parceria com Vinícius, e naquele 1967
venceria o da Record com Ponteio, dele e Capinam). É um álbum que
mescla canções de cunho político-social – uma necessidade à época, visto
que o Brasil se encontrava em plena ditadura militar e havia muito a ser
dito pelos artistas, por mais arriscado que fosse – e temas românticos.
Estão aqui maravilhas como Pra Dizer Adeus (Edu Lobo/Vinícius de
Moraes), Sinherê (Edu/Gianfrancesco Guarnieri) e Cirandeiro
(Edu/Capinam), as três cantadas em dueto. Bethânia interpreta sozinha
Borandá (Edu Lobo) e Só Me Fez Bem (Edu/Vinícius de Moraes).
ROSA DOS VENTOS
Philips, 1971
Depois
de três discos na Odeon, Maria Bethânia foi contratada pela Philips,
onde estreou em 1971 com o antológico Rosa dos Ventos. Gravado ao
vivo no Teatro da Praia (RJ), selava a parceria entre a cantora e o
diretor teatral Fauzi Arap. A partir dali, ela sempre incluiria textos em
seus shows, que passariam a ser impregnados de recursos cênicos. Pela
primeira vez uma cantora popular declamava versos de Fernando Pessoa num
palco. Entre as canções, Minha História (versão de Chico Buarque
para Gesubambino, de Lucio Dalla), El Dia Que Me Quieras
(Carlos Gardel/Alfredo Le Pera), Rosa dos Ventos (Chico Buarque),
O Mar (Dorival Caymmi) e Não Identificado (Caetano Veloso),
alem de sambas-de-roda do baiano Batatinha e textos de Pessoa e Clarice
Lispector.
A TUA PRESENÇA...
Philips, 1971
Primeiro
disco de estúdio de Bethânia na Philips, A Tua Presença...
mostrava o gosto da cantora por sambas-canção, expresso nas belas
releituras de Folha Morta (Ari Barroso), Se Eu Morresse Amanhã
de Manhã (Antonio Maria) e Olhe o Tempo Passando (Dolores
Duran). Transgressora e inovadora, a intérprete trazia uma versão mais
agressiva e próxima do rock para Jesus Cristo (Roberto Carlos/
Erasmo Carlos), falava da opressão no
samba-rock Mano Caetano (dueto com o autor, Jorge Ben), cantava
Caetano (A Tua Presença, Morena e Janelas Abertas no. 2,
mandadas por ele de Londres, onde se encontrava exilado) e se dava ao luxo
de interpretar um standard americano, What’s New (Hagart/Burke).
DRAMA – ANJO EXTERMINADO
Philips, 1972
Produzido por Caetano Veloso, então
recém-chegado do exílio em Londres, este disco mostrou uma Bethânia ainda
mais contestadora, como atestava a faixa de abertura, Ponto, tema
do folclore baiano que falava abertamente das agruras do trabalhador.
Entre as canções, duas que se tornariam clássicos do repertório da
intérprete: Esse Cara (Chico Buarque) e Estácio Holly Estácio
(Luiz Melodia). Um dos melhores trabalhos de Maria Bethânia. Curiosidade:
‘drama’, em grego, significa ‘ação’.
DRAMA – 3º ATO
Philips, 1973
Quarto
disco ao vivo em oito anos de carreira – ela nunca escondeu seu gosto por
registros no palco –, Drama – 3º Ato também foi gravado no Teatro
da Praia (RJ). O show desta vez foi dirigido por Antonio Bivar e Isabel
Câmara e trazia, apesar dos pesados anos de chumbo que o país enfrentava,
uma atmosfera mais leve e romântica, com canções como Nada Além
(Custódio Mesquita/Mário Lago), Rasquei a Minha Fantasia (Lamartine
Babo), Soneto (Chico Buarque), Como Vai Você (Antonio
Marcos/Mário Marcos), Esse Cara (Caetano Veloso), Preciso
Aprender a Só Ser (Gilberto Gil) e Volta Por Cima (Paulo
Vanzolini), e textos de Fernando Pessoa, Luiz Carlos Lacerda, Antonio
Bivar e Isabel Câmara.
A CENA MUDA
Philips, 1974
A
Cena Muda, gravado ao vivo no
Teatro Casa Grande (RJ), era o registro do show homônimo, que marcara a
retomada da parceria de Bethânia com Fauzi Arap. Extremamente complexo e
denso, trazia elementos místicos num sincretismo entre Índia e Bahia. No
repertório, canções fortes como Sinal Fechado (Paulinho da Viola),
Cala a Boca, Bárbara (Chico Buarque/Ruy Guerra), Galope
(Gonzaguinha), Demoníaca (Sueli Costa/Vitor Martins), A Coroa do
Rei (Haroldo Lobo/David Nasser), Disseram Que Voltei Americanizada
(Vicente Paiva/Luiz Peixoto) e Não Tem Tradução (Noel Rosa).
Contestador e instigante.
PÁSSARO PROIBIDO
Philips, 1976
Com
este disco, Maria Bethânia rompeu uma importante barreira e derrubou um
preconceito. Passou a ser executadas nas rádios AM e perdeu a incômoda
pecha de ‘cantora das elites’, tornando-se ‘acessível’ ao grande público
graças a uma ostensiva campanha de mídia. Mesclando clássicos e canções
inéditas, o álbum teve dois grandes sucessos populares: Olhos nos Olhos,
de Chico Buarque, e a pungente Balada do Lado Sem Luz (Gilberto
Gil). Fechando o repertório, Pássaro Proibido na voz de Caetano
Veloso.
ÁLIBI
Philips, 1978
Este
álbum é um marco na indústria fonográfica brasileira. Pela primeira vez,
uma cantora vendeu mais de um milhão de cópias de um único disco. Sucesso
estrondoso também nas rádios, trazia canções que até hoje freqüentam a
programação das rádios especializadas, casos de Álibi (Djavan),
Ronda (de Paulo Vanzolini, gravada originalmente por Inezita Barroso e
regravada também por Márcia), Negue (samba-canção de Adelino
Moreira e do radialista Enzo de Almeida Passos imortalizado por Nelson
Gonçalves), Explode Coração (Gonzaguinha), De Todas As Maneiras
(Chico Buarque), Sonho Meu (Dona Ivone Lara/Délcio Carvalho), dueto
com Gal Costa, e O Meu Amor (Chico Buarque), da Ópera do Malandro,
interpretada por Bethânia e Alcione. Um dos discos mais importantes da
história da MPB.
MEL
Philips, 1979
Na
esteira do sucesso de Álibi, este disco também foi um grande êxito
de vendas e execução nas rádios. Extremamente bem produzido, trazia
repertório de qualidade, com canções que se tornaram clássicos como Mel
(Caetano Veloso/Wally Salomão), Ela e Eu (Caetano), Cheiro de
Amor (Duda/Jota/Ribeiro/Paulo Sérgio Valle), Da Cor Brasileira
(Joyce/Ana Terra), Loucura (Lupicínio Rodrigues) e principalmente
Grito de Alerta (Gonzaguinha). Outro álbum imprescindível em
qualquer acervo.
AS CANÇÕES QUE VOCÊ FEZ PRA MIM
Mercury. 1993
Já
consolidada como intérprete efetivamente popular, Maria Bethânia gravou em
1993 um requintado álbum só com canções de Roberto e Erasmo Carlos. O
disco vendeu mais de um milhão de cópias e trazia no repertório
deslumbrantes releituras para As Canções Que Você Fez Pra Mim,
Olha, Fera Ferida, Detalhes, Emoções e Eu
Preciso de Você, entre outros clássicos do Rei e do Tremendão. O disco
teve uma versão em espanhol que chegou a ser lançada no Brasil.
Completam a coleção os seguintes CDs:
Chico Buarque e Maria Bethânia Ao Vivo (1975), Pássaro da Manhã
(1977), Maria Bethânia e Caetano Veloso Ao Vivo (1978), Talismã
(1980), Alteza (1981), Nossos Momentos (1982), Ciclo
(1983), A Beira e o Mar (1985), Memória da Pele (1989),
Maria Bethânia – 25 Anos (1990), Olho D’Água (1992) e Maria
Bethânia Ao Vivo (1995). Todos os discos são vendidos separadamente.
TONINHO
SPESSOTO é jornalista, radialista e produtor musical