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11/06/2008
Foto:
Jarbas Jr./JC Imagem

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O
sociólogo Gilberto Freyre |
Tempo Morto,
memórias de mocidade do escritor, é na verdade a saudade de um tempo ainda
vivido
Lilia Moritz Schwarcz
“A verdade é que esse diário foi mantido durante
anos como um documento estritamente íntimo, por ninguém lido ou conhecido.
Relendo o que escrevi há anos, não deparo com nenhum autoelogio
ostensivamente deselegante, nem com excesso de complacência para com a minha
própria pessoa.” É dessa maneira que Gilberto Freyre, antes de iniciar
propriamente o seu diário do período que vai de 1915 a 1930 - anos de
infância e primeira mocidade -, define a si e a seu depoimento.
Editado pela primeira vez em 1975, Tempo Morto, agora relançado pela Global
Editora (378 páginas, R$ 55) é, não obstante, um exemplo em tudo diverso ao
que seu autor anuncia. Em primeiro lugar, longe de ser um diário infantil ou
ingênuo, o livro foi evidentemente escrito e reescrito como uma
autobiografia disfarçada. Tanto que nele reconhecemos algumas “pistas”
cuidadosamente deixadas por Freyre, que viria a ser, a partir da década de
quarenta, um famoso intérprete do Brasil. Nas páginas do diário vemos como,
já na infância, o autor manifestaria interesse pelo popular. Por outro lado,
ainda na juventude selecionaria a figura emblemática de Franz Boas como seu
mentor intelectual, assim como declararia sua vocação prematura para a
antropologia. Tudo parece premeditado, como uma história que se sabe de
antemão o final.
O diário também não é exatamente um diário. Afinal, Gilberto Freyre sempre
foi um autor de si próprio, um animador da sua própria figura. A cada nova
edição de seus livros e a cada crítica que recebia, o autor se esmerava em
responder a tudo e a todos. É por isso que soa estranho Freyre conservar
esse “documento íntimo” de sua pessoa tão pública.
Diários são mesmo peças literárias paradoxais. Muitas vezes, de tão privados
que são, geram grandes constrangimentos, sobretudo quando publicados de
forma desavisada. Esse é o caso do antropólogo polonês Bronislaw Malinowski,
cujo diário foi editado sem autorização pela viúva, logo após sua morte. O
resultado foi desastroso, uma vez que, no lugar do etnógrafo romântico -
sempre bem disposto ao lado dos nativos -, emergiu a imagem de um
profissional bastante impaciente diante das populações que estudou.
Diferente é o caso dos diários que nascem públicos, como os dos governantes.
D. Pedro II, por exemplo, manteve um diário que era uma verdadeira peça de
Estado. O máximo de intimidade que pode ser encontrado nessas páginas é
saber se choveu ou fez sol, ou quantos degraus o soberano subiu em
determinado dia. Enfim, nada mais tedioso para quem está à cata dos
escândalos da vida cotidiana.
Mais estranho ainda seria não encontrar privacidade nas páginas de Freyre.
Justo ele, um aficionado dos documentos escritos em primeira pessoa - como
cartas, diários, autobiografias, memórias -, não deixaria passar a
oportunidade de falar sobre si mesmo e de elevar sua própria pessoa. Em
certo momento da narrativa, em 1917, ainda com 16 anos de idade, Freyre
confessa ter escrito parte da tese de seu pai e acrescenta: “Meu trecho não
está mau... tem movimento, flexibilidade e mais plasticidade.” Sempre
colocando na boca dos outros o autoelogio, afirma que seu mestre americano,
Armstrong, o chamava de genius, e que certa feita reclamou que ele estudava
demais - “por dez alunos até”. Em 1822, quando já deixara os Estados Unidos,
refere-se a uma carta que teria sido endereçada a seu irmão Ulisses e que
serve de “testemunho” de sua performance na América: “We hate to see
Gilberto leave. He is a wonder and I believe he will do something
worth-while. A wonder, a genius.”
O diário é, assim, só pretensamente um exercício de “tempo morto”. Como uma
memória reconstruída, ele é na verdade todo feito de “agoras” e de sinais do
porvir. Outro exemplo: em 1924 o futuro antropólogo fala de sua real
vocação, afirmando que escreveria “um livro sobre o que tem sido nos vários
Brasis a meninice dos vários tipos regionais brasileiros que formam o
Brasil”. Aí está um pretexto para abrir a janela e reconhecer não só o
impagável estilo literário de Freyre, como suas belas anotações, que farão
sucesso em Casa Grande Senzala, de 1933.
A pimenta da sexualidade está por toda parte: no menino que não se
masturbava mas que com o tempo fará da prática um estilo; na iniciação com
uma vaca quase mulher; na mania de felação das americanas; nas casas de
moças em Recife e na preferência pelas mulatas de corpos esculturais.
Também a família compõe parte importante desse diário pouco íntimo. A mãe
que de bonita torna-se quase feia (aos olhos do menino que cresce); o pai
bem formado; o irmão que experimenta tudo à sua frente- todos pedaços de uma
biografia marcada por uma ordem patriarcal nordestina.
O diário também permite acompanhar a formação desse personagem, dado a
muitos saberes. Freyre deixa conhecer seus autores prediletos na literatura
e na filosofia, assim como descreve sua formação em Colúmbia, seu
encantamento por Nova York e suas viagens, que incluem os Estados Unidos, a
França, a Alemanha, a Inglaterra e Portugal.
No exterior ou no Brasil, Freyre destaca “as coisas brasileiras” que fizeram
seu sucesso no estrangeiro - como o fato de ser um homem exótico e tropical
- e marcaram sua formação por aqui. Com seu humor contumaz, o antropólogo
desfaz das manias de “doutorico” dos brasileiros ou brinca com o caso do
inglês que morreu de bicho-do-pé, esclarecendo que “brasileiro é que não
morre de bicho-do-pé”.
Na base da intimidade, comenta sobre seus contatos com os modernistas, ainda
em Paris, e sobre o desconforto que sentiu diante da atuação desses senhores
no Rio e em São Paulo, em 1922, considerados por ele um pouco “artificiais”
e dados “a assimilar facilmente o vanguardismo europeu”. Graça Aranha,
escreve ele, “ainda não se apresenta enxuto, mas muito impregnado”. Seu
amigo Vicente do Rego Monteiro é que seria o único “genuinamente moderno,
sem deixar de ser brasileiro”.
Freyre, por sinal, começava, nesse contexto, a formar seu grupo. Já no
Recife, e de bicicleta, fazia seu “field-work de estudante de Boas” e
dedicava-se às “coisas nossas”. Também em 1924 se vincularia ao Centro
Regionalista do Nordeste e fundaria com os colegas de Recife um outro
modernismo; menos influenciado, vangloriava-se Freyre, pelas vogas do
exterior. Mas no diário tudo parece confissão de intimidade, naturalizada
pelo tempo.
Como quem comenta um livro ou uma paisagem, Freyre desdenha de alguns grupos
para se filiar a outros. Rui Barbosa padeceria de “uma enorme falta de
identificação com o Brasil básico, essencial e popular”. Já Joaquim Nabuco
seria o intelectual, “o homem público, identificado com o elemento popular e
ao mesmo tradicional”.
O final do diário, pretensamente uma interrupção qualquer, é marcado por um
momento quase ritual ; o exílio de Freyre em 1930. Por sinal, a partir desse
ano o texto segue em ritmo acelerado. Em primeiro lugar, Freyre faz
“romance” do rapto de uma jovem “ainda quase menina” (Maria Cavalcanti de
Albuquerque de Mello Menezes) por seu irmão (Ulisses de Mello Freyre); os
dois eram meios-primos. Freyre descreve a mãe desolada, o pai nem tanto e
lamenta a falta de confidência desse irmão, que sempre fora um parceiro de
aventuras.
Por outro lado, como antropólogo que é, recupera o lado endogâmico da
família, assim como releva a diferença de idade dos cônjuges: “Por que não?
Há quase sempre, na mulher, alguma coisa de incestuosamente filial no seu
amor por um homem, e no amor de homem por mulher, alguma coisa de
incestuosamente paterno.”
Mas nem tudo pode ser reincorporado ao rígido circuito da aristocracia
recifense. Em 1930 a casa dos Freyre é saqueada, tornando-se incerto o
destino de papéis, livros e relíquias da família. Por fim viria o exílio:
“Hoje, dia chuvoso, véspera de Natal, só me ocorrem palavras
sentimentalonas. ‘Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá...’”. Freyre
pega carona no poema natal para reclamar que “nem as aves gorjeiam como lá,
nem as pessoas falam ou as flores cheiram. Nada é como lá”. São outras as
terras do exilado brasileiro, e o escritor faz de seu diário um relato
saudosista, assim como termina desesperançado e “morrendo dentro do tempo”.
Tempo morto e outros tempos é feito para legar seu autor à posteridade: uma
belíssima peça de literatura sob a forma de pretenso diário. Um passado que
nunca esteve tão presente e previsível. Como diz Freyre, o diário é peça de
uma saudade sem prazo fixo. Nesse documento, o passado aparece tocado pela
toada feita de lembranças: a saudade de um tempo ainda vivido. Por isso
mesmo, pouco importa tentar distinguir fato e ficção. Passado e presente
aparecem indiscriminados na pena desse grande personagem da nossa
intelectualidade, que sempre foi um exímio inventor de si próprio e de um
certo Brasil.
(SERVIÇO)Lilia Moritz Schwarcz é
professora do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros
livros, de As Barbas do Imperador
(©
Agência Estado)
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