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11/06/2008
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Gero
Camilo, na peça
Cleide
Eló e as Pêras |
Gero Camilo é ator, poeta e
dramaturgo. Escreveu e atuou no espetáculo A Procissão, no qual concorreu
como melhor ator e melhor Música ao Prêmio Shell em abril de 2003. Escreveu
e dirigiu o monólogo Café com Torradas, entre outras peças.
Em 2002, no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, lançou o seu
livro A Macaúba da Terra, composto por contos e peças curtas, denominados
Bastianas e EntreAtos. No cinema atuou em Chamas da Vingança (Man on Fire)
com Denzel Washington e direção de Tony Scott, Carandiru, de Hector Babenco,
Narradores de Javé, de Eliane Caffé, Cidade de Deus, de Fernando Meireles,
entre outros.
Gero está em cartaz no teatro do Sesc Paulista (Av.
Paulista, 119) com o espetáculo Cleide Eló e as Pêras, com direção de
Gustavo Machado.
Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Marat Descartes, Paula Cohen, Gustavo Machado, Tatiana Thomé, Nilton Bicudo,
Luis Miranda, Fabiana Guglimeche, Caco Ciocler, Rodrigo Lopez, Emilio
Orchiollo, Luciana Carnielle, Cristiano Karnas, Eugênio La Salvia, Cezar
Gouveia, Luis Mármora, Georgete Fadel, Cia. São Jorge de Variedades… têm
muitos, muitos outros…
Qual o diretor de teatro cujo trabalho admira em especial?
Cristiane Paoli-Quito. Uma grande mestra. Atual diretora da Escola de Artes
Dramáticas da USP e da Cia. Nova Dança 4.
Dê um exemplo de criador teatral (intérprete, diretor ou dramaturgo)
muito bom, mas injustiçado.
Tem muitos. Com certeza o funil do mercado capitalista deixa quase todos os
bons de fora. Queria aproveitar o ensejo para pedir por gentileza ao jornal
que volte, Pelo Amor Ao Teatro, a botar a divulgação dos espetáculos da
cidade, não só no guia que sai uma vez na semana, mas de segunda a domingo,
tal qual faz com o cinema, e fazia antes em respeito ao teatro. É tão triste
quando eu tenho um espetáculo na quarta-feira, e ao acordar e ler o MEU
jornal, ele não diz que eu estou em cartaz na cidade! (talvez esse possa ser
um bom exemplo de criador teatral injustiçado)
Cite uma montagem teatral que tenha frustrado suas melhores expectativas.
Não faria isso fora de uma mesa de bar. Não é gentil.
E uma criação teatral surpreendente: boa e pela qual você não dava nada.
Isso não chega a ser um elogio. Talvez também precisássemos de uma mesa de
bar.
A cena brasileira tem algumas montagens teatrais antológicas. Cite
algumas que tenham sido marcantes em sua vida.
Romeu e Julieta do Grupo Galpão. O Hamlet do Teatro Oficina Uzina Uzona. O
Homem Com a Flor na Boca do Cacá Carvalho, O Apocalipse e O Livro de Jó do
Teatro da Vertigem. Van Gogue e Oscar Walde do Elias Andreato. Bastianas e O
Credor da Fazenda Nacional da Cia. São Jorge de Variedades, Arena Conta
Danton da Cia Livre, e, é claro, Denise Stoklos, vida e obra!
Que montagem lhe fez mal, de tão perturbadora?
Apocalipse, do Teatro da Vertigem. O mal necessário.
E que espetáculo teatral mais o fez pensar?
Estela do Patrocínio de Georgette Fadel. Os solos do Cacá Carvalho me põem
num estado raro de frescor d'alma. O Vau da Sarapalha do Luiz Carlos
Vasconcelos, o Elias Andreato… tem tantos e tanta gente…
Comédia é um gênero menor? Se a resposta for negativa cite uma peça maior
do gênero. Se for positiva, diga porquê.
Não! Pagarás Com Tua Alma de Gustavo Machado.
Cite uma peça difícil, mas boa
As que precisam de legenda.
Uma montagem que imagina ter sido muito boa e você não viu.
A Gota D’Água com a Georgette Fadel, mas parece que eles vão voltar em
cartaz daqui a duas semanas.
Um espetáculo difícil, mas inesquecível.
BR3 do Teatro da Vertigem.
Que peça (s) escrita (s) nos últimos dez anos mereceria, para você, um
lugar na história do teatro brasileiro.
Novas Diretrizes em Tempos de Paz de Bosco Brasil.
Qual texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você
recomendaria encenações constantes?
As peças do Qorpo Santo.
Que peças (ou autores) de peças (brasileiros ou estrangeiros) sempre
presentes nos cânones não mereceriam seu voto? E um sempre ausente no qual
você votaria?
Acho que precisamos do Qorpo Santo.
Que montagem (ou ator, autor, diretor) festejado pela crítica você
detestou?
Costumo ler críticas só quando me interessa saber mais do que eu imagino que
o meu primeiro contato ao vivo com a obra necessite saber. Nesse caso
considero mais as opiniões dos amigos, o velho bar. Lá sim, odiamos e amamos
ardentemente cada uma das caras do teatro que se faz em São Paulo, dos
velhos pajés aos novos pés de chinelo, mas isso nós afogamos na cachaça, e
perdoamos pelo dia de amanhã, porque o teatro faz parte do mistério e não do
critério.
E de que montagem (ator, diretor, autor) demolida por críticos você
gostou?
Imagino que várias!
Que virtude mais preza no bom teatro?
Sua integridade ao tempo em que ele é proclamado, por mais clássica que seja
sua dramaturgia.
E o que mais o incomoda no mau teatro?
Sua falta de propósito. Sua rendição ao mercado. Sua fraqueza de conteúdo.
Seu dinheiro fácil.
Gero Camilo, ator, poeta e dramaturgo
(©
Agência Estado)
Estréia no Sesc Paulista o espetáculo Cleide Eló e as Pêras
Ernesto, o personagem principal da peça de Gustavo
Machado, foi criado e é interpretado por Gero Camilo, também autor do
texto
Beth Néspoli
SÃO PAULO - Numa sala situada no oitavo andar de um
prédio da Avenida Paulista o janelão de vidro oferece, de graça, a noite
de mil luzes da metrópole paulistana como cenografia para o espetáculo
Cleide Eló e as Pêras, que estréia nesta quinta-feira no Sesc da
Paulista. Postado entre esse cenário grandioso e o espectador está
Ernesto, personagem criado e interpretado por Gero Camilo, também autor do
texto.
Se causa impacto o contraste entre a arquitetura de escala gigantesca e
a miudeza do homem/ator que conta sua história, o mesmo contraponto se
repete poeticamente na cena: Ernesto, um humilde e anônimo vigia de uma
fabriqueta do interior, vive uma paixão libertária, arrebatadora e
profundamente transformadora por uma mulher chamada Cleide. Paula Cohen
entra em cena pouco depois para contar de sua paixão - cruel, sofrida,
arrasadora - por um homem chamado Eló. Ela e Gero se unem na cena final e
o leitor finalmente acaba por entender o título do espetáculo, tão
estranho ao primeiro olhar.
Cleide Eló e as Pêras tem direção de Gustavo Machado e textos de
Gero Camilo, mais uma vez retirados do livro A Macaúba da Terra,
como nos espetáculos como Aldeotas e As Bastianas. Quem viu
e se encantou com Aldeotas pode esperar semelhanças. "Há sim uma
aproximação pela poesia e, mais que tudo, pela essencialidade", diz Gero.
A nudez do palco, o ator no centro da narrativa. "Mas são outras as
paisagens."
Amizade e memórias de infância eram matéria-prima do trabalho anterior.
Desta vez, o ator explora a fúria da paixão. São dois solos. No primeiro,
Ernesto faz uma narração poética de sua relação com Cleide, num tempo
passado, numa muito pequena cidade do interior. "Nesse caso, a cenografia
sugere que ele já andou muito pelo mundo atrás da Cleide." A cidade natal
ficou pequena demais para esse homem engrandecido pelo desejo. "A paixão
quer sempre novos lugares, vive sob essa condição, sob o desejo insaciável
de explorar novos territórios. Isso é bom e mau. Ela bagunça o território,
mas obriga a gente a recomeçar."
Por outro lado, é difícil lidar com o contraponto entre o eterno
movimento da paixão e o desejo humano de estabilização. "A gente não sabe
lidar bem com isso. Eu já me vi apaixonado e sem capacidade de dar bola
dentro, atropelando totalmente o meu processo de sedução." É mais ou menos
isso o que acontece com Isadora, a personagem vivida por Paula, que tenta
a todo custo reter Eló, o que acaba em tragédia. "Ernesto conta sua
história como se estivesse entre amigos; Isadora parece estar diante de um
júri."
"Eló é homem livre demais, capaz de transitar entre mendigos e
granfinos, de ficar uma semana sem aparecer e, na volta, achar que deve
ser recebido por ela naturalmente. Ela vai engolindo, fazendo silêncios."
E numa relação afetiva desencontrada silêncios podem ser muito perigosos.
"Eu identifico aqui e ali alguma atitude minha em todos esses
personagens."
Cleide Eló e as Pêras. 80 min. 12 anos. Unidade Provisória Sesc
Avenida Paulista - Espaço Oitavo Andar (50 lug.). Av. Paulista, 119,
3179-3700. 5.ªa dom., 21 h. R$ 15. Até 20/8
(©
Agência Estado, 27.07.2006)
Com relação a este tema, saiba mais
(arquivo NordesteWeb)
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