Homens e mulheres do povo, portadores ativos das
tradições, verdadeiros guardiões do saber coletivo, reúnem-se no Ceará num
espaço de troca de experiências e aproximação com a juventude
O rio Jaguaribe é conhecido como o maior rio seco do mundo.
Isso não quer dizer que ele não possua águas. Possui. Só que elas correm
apenas no tempo das chuvas. No restante do ano, ele é apenas um caminho
arenoso. Seguindo o curso desse rio, os colonizadores entraram Ceará
adentro, chegando ao sertão. Que sertão? O estado do Ceará é quase todo um
deserto, uma ferradura que se abre para o mar, formada por três maciços de
serras – chapadas do Araripe, do Apodi e de Ibiapaba – e no meio da
ferradura, o sertão, que não possui a exuberância molhada dos Gerais de
Guimarães Rosa, mas impressiona pela vastidão, pelo silêncio, pela
solenidade das pedras.
As pastagens do alto, médio e baixo Jaguaribe alimentaram rebanhos de gado,
tornando o Ceará um grande produtor e exportador de carnes. Foi o ciclo do
couro, de prosperidade econômica e cultural. Criou-se uma épica sertaneja,
registrada na literatura oral, na cantoria dos bardos violeiros, nos
cordéis, nos autos populares, e em romances cantados nas feiras. O sertão
com sua mitologia própria, alimentada pelas guerras entre famílias
poderosas, ávidas por mais terras, lembra um cenário bíblico, e uma Grécia
do período heróico. As gestas dos cavaleiros encourados, dos cangaceiros e
bandos ciganos foram mais tarde substituídas pelos dramas sociais do romance
de 30 e do cinema novo.
Felizmente as secas repetidas e o descaso político não esgotam o veio d'água
da cultura popular, surgida em meio às agruras nordestinas. Nascida de uma
primeira fricção entre ibéricos, índios e negros, ela mostra a força de
nossa herança antropofágica, assimila, rumina e aprimora as culturas a que
tem acesso, numa permanente mobilidade. Promover a educação e a cultura é a
única saída para os países em desenvolvimento, o caminho para se reverter a
desigualdade social. Não são necessários rios de dinheiro gastos de uma
única vez, mas investimentos contínuos, uma política educacional que não
dependa de humores e favores. O fluxo educativo não pode lembrar as águas do
Jaguaribe que enchem e secam à mercê do clima. Tanto o rio, como a educação,
necessitam ser perenizados.
Há dois anos se realiza no Ceará o Encontro Mestres do Mundo, reunindo
homens e mulheres do povo, que não possuem o saber acadêmico, mas são
pessoas de notório saber. Chamados também de patrimônio imaterial, termo em
moda na sociologia e na antropologia, segundo o coordenador do encontro,
Oswald Barroso, “o Mestre é um portador ativo da tradição, que guarda a
memória de um saber coletivo, mas não se restringe a repeti-la. Ele inova e
desenvolve a herança a ele repassada. Portanto, não se trata apenas de um
guardião, ou de um preservador da cultura, mas de um criador e inovador.
Nele se condensam saberes, alguns milenares, trabalhados pela coletividade
através dos séculos e renovados constantemente por outros Mestres como ele”.
A proposta do II Encontro Mestres do Mundo é de aproximar mestres das mãos
(bordadeiras, ceramistas, xilogravadores etc.), mestres do corpo (de
bumba-meu-boi, reisado, maneiro-pau, congada etc.), mestres do sagrado
(penitentes, rezadeiras, profetas da chuva etc.), mestres dos sabores, da
oralidade e da música para troca e repasse de conhecimentos, sobretudo aos
mais jovens. Se os jovens não se reconhecerem na cultura que os mais velhos
guardaram e reinventaram, tudo estará perdido.
A Orquestra Carnaubeira, de Russas, formada por meninos e meninas com idade
próxima aos 14 anos, é a prova de que as lições dos mestres foram
bem-aprendidas. O grupo comove platéias com um instrumental de flautas,
percussão, guitarra e baixo elétrico, executando composições próprias, que
dialogam com a música armorial de Antonio Madureira, com a banda cabaçal dos
Irmãos Aniceto, com reisados e maracatus. Fica evidente nossa vocação
antropofágica, nossa capacidade de incorporar sons e tendências musicais, da
tradição à vanguarda. Os espasmos do guitarrista e do baixista lembram os de
um roqueiro. Nada mal que eles se imaginem metaleiros, zabumbeiros, ou
pifeiros. A cultura é dinâmica, um bem coletivo que pode ser usado por
qualquer um, da maneira que bem-quiser.
Os brinquedos de tradição popular não discriminam idade. Num mesmo auto,
cantam e dançam velhos, homens maduros, jovens e crianças. Nunca vi um
adolescente em crise de identidade porque representa uma Catirina,
travestido em mulher. Num Reisado, todas as hierarquias sociais estão
representadas, e o menino que começa brincando com oito anos, no rabo da
fila a que chamam de contra-coice, pode ascender um dia ao lugar de Mestre,
ou Mateus ou Rei. Essa ascensão é puramente didática, depende do talento e
do empenho em apreender. Quando pediram ao Mestre Aldenir que referisse à
personagem mais importante do Reisado, ele citou várias. O folguedo possui a
generosidade de colocar as pessoas no mesmo nível de importância. Dentro dos
grupos de brincantes perpassam a ética e o afeto, bens de grande valia nas
sociedades tradicionais, tão ausentes nas sociedades contemporâneas. Daí a
importância de encontros como esse, reafirmando valores esquecidos, pondo
jovens e velhos numa mesma roda de corpo, cantando, dançando, falando e
ouvindo.
Mestre Sebastião Chicute, Mestre Miguel da Banda Cabaçal, Mestre Antonio
Pinto Rabequeiro, Mestre Piauí do Boi de Reisado, Mestre Zé Pedro do Reisado
de Couro, Mestre Gilberto Calungueiro do Teatro de Bonecos, Mestre Raimundo
Aniceto, Mestre João Mocó do Bumba-meu-boi, Mestra Margarida Guerreiro,
todos foram diplomados mestres, com direito à comenda e salário vitalício.
Importância pequena, mas significativa. Reconhecimento público pelos
serviços prestados à cultura do Ceará. Todos eles poderiam estar dentro das
universidades repassando conhecimentos. Mas as universidades ainda não
legitimaram esses saberes, porque eles não são acadêmicos. Não faz mal,
porque fora desses espaços, universidades livres se arregimentam a cada dia,
em torno de maracatus, e bois, e reisados, e seus velhos Mestres. Basta ter
olhos para ver. E pernas para andar por dentro de canaviais, pontas de ruas
de cidades do interior, periferias de cidades grandes. Onde existe um
Mestre, forma-se uma roda de aprendizes.