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Mestres do mundo no sertão cearense

11/06/2008

 

Homens e mulheres do povo, portadores ativos das tradições, verdadeiros guardiões do saber coletivo, reúnem-se no Ceará num espaço de troca de experiências e aproximação com a juventude

O rio Jaguaribe é conhecido como o maior rio seco do mundo. Isso não quer dizer que ele não possua águas. Possui. Só que elas correm apenas no tempo das chuvas. No restante do ano, ele é apenas um caminho arenoso. Seguindo o curso desse rio, os colonizadores entraram Ceará adentro, chegando ao sertão. Que sertão? O estado do Ceará é quase todo um deserto, uma ferradura que se abre para o mar, formada por três maciços de serras – chapadas do Araripe, do Apodi e de Ibiapaba – e no meio da ferradura, o sertão, que não possui a exuberância molhada dos Gerais de Guimarães Rosa, mas impressiona pela vastidão, pelo silêncio, pela solenidade das pedras.

As pastagens do alto, médio e baixo Jaguaribe alimentaram rebanhos de gado, tornando o Ceará um grande produtor e exportador de carnes. Foi o ciclo do couro, de prosperidade econômica e cultural. Criou-se uma épica sertaneja, registrada na literatura oral, na cantoria dos bardos violeiros, nos cordéis, nos autos populares, e em romances cantados nas feiras. O sertão com sua mitologia própria, alimentada pelas guerras entre famílias poderosas, ávidas por mais terras, lembra um cenário bíblico, e uma Grécia do período heróico. As gestas dos cavaleiros encourados, dos cangaceiros e bandos ciganos foram mais tarde substituídas pelos dramas sociais do romance de 30 e do cinema novo.

Felizmente as secas repetidas e o descaso político não esgotam o veio d'água da cultura popular, surgida em meio às agruras nordestinas. Nascida de uma primeira fricção entre ibéricos, índios e negros, ela mostra a força de nossa herança antropofágica, assimila, rumina e aprimora as culturas a que tem acesso, numa permanente mobilidade. Promover a educação e a cultura é a única saída para os países em desenvolvimento, o caminho para se reverter a desigualdade social. Não são necessários rios de dinheiro gastos de uma única vez, mas investimentos contínuos, uma política educacional que não dependa de humores e favores. O fluxo educativo não pode lembrar as águas do Jaguaribe que enchem e secam à mercê do clima. Tanto o rio, como a educação, necessitam ser perenizados.

Há dois anos se realiza no Ceará o Encontro Mestres do Mundo, reunindo homens e mulheres do povo, que não possuem o saber acadêmico, mas são pessoas de notório saber. Chamados também de patrimônio imaterial, termo em moda na sociologia e na antropologia, segundo o coordenador do encontro, Oswald Barroso, “o Mestre é um portador ativo da tradição, que guarda a memória de um saber coletivo, mas não se restringe a repeti-la. Ele inova e desenvolve a herança a ele repassada. Portanto, não se trata apenas de um guardião, ou de um preservador da cultura, mas de um criador e inovador. Nele se condensam saberes, alguns milenares, trabalhados pela coletividade através dos séculos e renovados constantemente por outros Mestres como ele”.

A proposta do II Encontro Mestres do Mundo é de aproximar mestres das mãos (bordadeiras, ceramistas, xilogravadores etc.), mestres do corpo (de bumba-meu-boi, reisado, maneiro-pau, congada etc.), mestres do sagrado (penitentes, rezadeiras, profetas da chuva etc.), mestres dos sabores, da oralidade e da música para troca e repasse de conhecimentos, sobretudo aos mais jovens. Se os jovens não se reconhecerem na cultura que os mais velhos guardaram e reinventaram, tudo estará perdido.

A Orquestra Carnaubeira, de Russas, formada por meninos e meninas com idade próxima aos 14 anos, é a prova de que as lições dos mestres foram bem-aprendidas. O grupo comove platéias com um instrumental de flautas, percussão, guitarra e baixo elétrico, executando composições próprias, que dialogam com a música armorial de Antonio Madureira, com a banda cabaçal dos Irmãos Aniceto, com reisados e maracatus. Fica evidente nossa vocação antropofágica, nossa capacidade de incorporar sons e tendências musicais, da tradição à vanguarda. Os espasmos do guitarrista e do baixista lembram os de um roqueiro. Nada mal que eles se imaginem metaleiros, zabumbeiros, ou pifeiros. A cultura é dinâmica, um bem coletivo que pode ser usado por qualquer um, da maneira que bem-quiser.

Os brinquedos de tradição popular não discriminam idade. Num mesmo auto, cantam e dançam velhos, homens maduros, jovens e crianças. Nunca vi um adolescente em crise de identidade porque representa uma Catirina, travestido em mulher. Num Reisado, todas as hierarquias sociais estão representadas, e o menino que começa brincando com oito anos, no rabo da fila a que chamam de contra-coice, pode ascender um dia ao lugar de Mestre, ou Mateus ou Rei. Essa ascensão é puramente didática, depende do talento e do empenho em apreender. Quando pediram ao Mestre Aldenir que referisse à personagem mais importante do Reisado, ele citou várias. O folguedo possui a generosidade de colocar as pessoas no mesmo nível de importância. Dentro dos grupos de brincantes perpassam a ética e o afeto, bens de grande valia nas sociedades tradicionais, tão ausentes nas sociedades contemporâneas. Daí a importância de encontros como esse, reafirmando valores esquecidos, pondo jovens e velhos numa mesma roda de corpo, cantando, dançando, falando e ouvindo.

Mestre Sebastião Chicute, Mestre Miguel da Banda Cabaçal, Mestre Antonio Pinto Rabequeiro, Mestre Piauí do Boi de Reisado, Mestre Zé Pedro do Reisado de Couro, Mestre Gilberto Calungueiro do Teatro de Bonecos, Mestre Raimundo Aniceto, Mestre João Mocó do Bumba-meu-boi, Mestra Margarida Guerreiro, todos foram diplomados mestres, com direito à comenda e salário vitalício. Importância pequena, mas significativa. Reconhecimento público pelos serviços prestados à cultura do Ceará. Todos eles poderiam estar dentro das universidades repassando conhecimentos. Mas as universidades ainda não legitimaram esses saberes, porque eles não são acadêmicos. Não faz mal, porque fora desses espaços, universidades livres se arregimentam a cada dia, em torno de maracatus, e bois, e reisados, e seus velhos Mestres. Basta ter olhos para ver. E pernas para andar por dentro de canaviais, pontas de ruas de cidades do interior, periferias de cidades grandes. Onde existe um Mestre, forma-se uma roda de aprendizes.

Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Publicou os livros de contos As Noites e os Dias, Faca e O Livro dos Homens.

(© Continente Multicultural)

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