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Patativa, Chico e os artistas do povo

11/06/2008

Patativa do Assaré, seleção de Cláudio Portella

Em lançamentos admiráveis, o leitor vai descobrir os segredos dos Profetas da Chuva e dos versejadores do Nordeste

Jotabê Medeiros

Roland Barthes, em sua famosa aula inaugural no Collège de France, arriscou uma pequena fórmula sobre como viver bem a vida: "Um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível."

Aquilo a que o renomado pensador francês parece ter chegado com grande esforço do intelecto, parece ser uma lição de há muito sabida nos confins do Brasil. Longe desse escriba querer opor o saber científico ao popular, ou a investigação rigorosa à sabedoria da prática, e vice-versa, essas baboseiras que ou alimentam ingênuos ou dão de comer a fascistas.

Mas é moleza descobrir aquele sentido da vida descrito por Barthes em três lançamentos improváveis do mercado literário: Profetas da Chuva, organizado por Karla Martins (Editora Tempo D'Imagem, 227 págs.); Patativa do Assaré, seleção de Cláudio Portella (Global, 384 págs.); e Usina Brasileira - Centenário de Chico Antonio - Caderno de Cocos, organizado por João Natal (Editora da UFRN, 73 págs.).

"Inquanto o Brasi de Cima/Fala de transformação/Industra, matéra prima/Descobertas e invenção/No Brasi de Baxo isiste/O drama penoso e triste/Da negra necissidade;/É uma coisa sem jeito/E o povo não tem direito/Nem de dizê a verdade".

A poesia dançante do cearense Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré (1909-2002), é saber, sabor, sabedoria, suavidade. Autor popular com quatro títulos universitários Honoris Causa, ele teve parte de sua obra preservada apenas na própria memória. Tradição oral, feita de improviso e observação, sempre a assombrar eruditos. "Como é que se explica que um sujeito sem letras, sem informações e sugestões de uma cultura de mídia, guiado apenas por uma coisa misteriosa da sensibilidade, use as palavras de forma literária? É inexplicável", disse de Patativa o crítico José Ramos Tinhorão.

Cláudio Portella, que organizou a poesia de Patativa, o situa, num arroubo, ao lado de Dante, Homero e Camões. Para Gilmar de Carvalho, Patativa atualiza uma tradição que vem de Homero, Tirésias e o Cego Aderaldo. "Não busca o verso fácil, a oratória piegas, mas o verso duro, que se enche de ternura pela sua imensa compaixão e pelo sentimento de pertencimento à categoria dos agricultores."

Valendo-se da grande vantagem de seu conhecimento prático, o "poeta agricultor", feito formiga da roça dentro do mandiocal, vai e vem com sua poesia em torno de temas muito próximos, com crítica social, comportamental, política. "Dibaxo de sete capa/Com a cara do seu fio/Discubri o trocadio/Vi que os reloge e os ané, a pursêra, o cordão de ôro/E todo aquele tesôro/Quem deu foi o coroné."

Patativa não é o único de uma linhagem. Muito pelo contrário. Lá em dezembro de 1928, o viajante Mário de Andrade encantou-se com um cantador de cocos do Rio Grande do Norte, de 27 anos, chamado Francisco Antunes Moreira, ou simplesmente Chico Antônio. Eis como ele descreveu o encontro em O Turista Aprendiz:

"Estou divinizado por uma das comoções mais formidáveis da minha vida. Não sabe que vale uma dúzia de Carusos. Vem da terra, canta por cantar, por uma cachaça, por coisa nenhuma, e passa uma noite cantando sem parada. Que artista. A voz dele é quente e duma simpatia incomparável".

A voz e os improvisos de Chico Antônio, para Mário, ganhavam cor e pareciam "recolher a quentura e o ouro do sol". A Universidade Federal do Rio Grande do Norte deu um largo passo no sentido de democratizar aquele deslumbramento de Mário ao lançar o livrinho com as notações musicais e as letras dos cocos de Chico, coalhados de uma novilíngua cintilante.

"Eu sô marujo, eu também sô canuêro, eu sô mestre barcacêro, da ribêra do Pilá/ande ligêro/Arrepare, cavalêro/eu sô um bicho ligêro/Na pancada do ganzá!", diz a letra de Dois Tatú. Ou então, em Boi Tungão: "Adeus sala! Adeus cadera! Adeus piano de tocá! Adeus tinta de iscrevê! Adeus papel de assentá!"

"O coco não aprendi a cantar com ninguém, fui puxando da cabeça, do juízo. Eu tinha 12 anos", contava Chico Antônio. "Eu nasci com esse dote, a minha vontade é me desmanchar todinho quando pego num ganzá."

Outro trabalho admirável, pelo que revela dessa natureza da sabedoria popular, é Profetas da Chuva, resultado da tese de doutoramento de Karla Patricia Holanda Martins, no ano 2000. Adivinhos da chuva e das secas, os profetas do sertão orientam estratégias agrícolas e táticas de sobrevivência a partir de observações simples: o movimento dos bichos, dos insetos, a cor das plantas, o calor da terra, o cheiro do ar.

Eles deixam boquiabertos jornalistas e observadores do mundo todo. "Eu dei entrevista pro Canadá. Ela encheu a página do caderno", gabou-se Joaquim Muqueca. "Às vezes o cabra diz: 'como é que você entende?'. Meu amigo, ver é uma coisa, conhecer é outra", disse o profeta da chuva Chico Leiteiro.

Mas é nos perfis deles, na sua visão do mundo e na avaliação de sua história e de sua rotina que consiste a força desses relatos contidos no livro de Karla Martins. O homem sábio é bondoso, disse Jorge Luis Borges. Francisco Mariano, de Quixeramobim, é o resumo disso: "E quando tenho, eu dou, e não dou com pena; o camarada pode chegar na minha casa e dizer que tá com precisão; o que eu tiver, eu reparto."

E nós aqui condenados à moça do tempo da TV de cabelo chapinha e tailleur.

(© Agência Estado)

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