Em lançamentos admiráveis, o leitor vai descobrir
os segredos dos Profetas da Chuva e dos versejadores do Nordeste
Jotabê Medeiros
Roland Barthes, em sua famosa aula inaugural no
Collège de France, arriscou uma pequena fórmula sobre como viver bem a vida:
"Um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível."
Aquilo a que o renomado pensador francês parece ter chegado com grande
esforço do intelecto, parece ser uma lição de há muito sabida nos confins do
Brasil. Longe desse escriba querer opor o saber científico ao popular, ou a
investigação rigorosa à sabedoria da prática, e vice-versa, essas baboseiras
que ou alimentam ingênuos ou dão de comer a fascistas.
Mas é moleza descobrir aquele sentido da vida descrito por Barthes em três
lançamentos improváveis do mercado literário: Profetas da Chuva, organizado
por Karla Martins (Editora Tempo D'Imagem, 227 págs.); Patativa do Assaré,
seleção de Cláudio Portella (Global, 384 págs.); e Usina Brasileira -
Centenário de Chico Antonio - Caderno de Cocos, organizado por João Natal
(Editora da UFRN, 73 págs.).
"Inquanto o Brasi de Cima/Fala de transformação/Industra, matéra
prima/Descobertas e invenção/No Brasi de Baxo isiste/O drama penoso e
triste/Da negra necissidade;/É uma coisa sem jeito/E o povo não tem
direito/Nem de dizê a verdade".
A poesia dançante do cearense Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do
Assaré (1909-2002), é saber, sabor, sabedoria, suavidade. Autor popular com
quatro títulos universitários Honoris Causa, ele teve parte de sua obra
preservada apenas na própria memória. Tradição oral, feita de improviso e
observação, sempre a assombrar eruditos. "Como é que se explica que um
sujeito sem letras, sem informações e sugestões de uma cultura de mídia,
guiado apenas por uma coisa misteriosa da sensibilidade, use as palavras de
forma literária? É inexplicável", disse de Patativa o crítico José Ramos
Tinhorão.
Cláudio Portella, que organizou a poesia de Patativa, o situa, num arroubo,
ao lado de Dante, Homero e Camões. Para Gilmar de Carvalho, Patativa
atualiza uma tradição que vem de Homero, Tirésias e o Cego Aderaldo. "Não
busca o verso fácil, a oratória piegas, mas o verso duro, que se enche de
ternura pela sua imensa compaixão e pelo sentimento de pertencimento à
categoria dos agricultores."
Valendo-se da grande vantagem de seu conhecimento prático, o "poeta
agricultor", feito formiga da roça dentro do mandiocal, vai e vem com sua
poesia em torno de temas muito próximos, com crítica social, comportamental,
política. "Dibaxo de sete capa/Com a cara do seu fio/Discubri o trocadio/Vi
que os reloge e os ané, a pursêra, o cordão de ôro/E todo aquele tesôro/Quem
deu foi o coroné."
Patativa não é o único de uma linhagem. Muito pelo contrário. Lá em dezembro
de 1928, o viajante Mário de Andrade encantou-se com um cantador de cocos do
Rio Grande do Norte, de 27 anos, chamado Francisco Antunes Moreira, ou
simplesmente Chico Antônio. Eis como ele descreveu o encontro em O Turista
Aprendiz:
"Estou divinizado por uma das comoções mais formidáveis da minha vida. Não
sabe que vale uma dúzia de Carusos. Vem da terra, canta por cantar, por uma
cachaça, por coisa nenhuma, e passa uma noite cantando sem parada. Que
artista. A voz dele é quente e duma simpatia incomparável".
A voz e os improvisos de Chico Antônio, para Mário, ganhavam cor e pareciam
"recolher a quentura e o ouro do sol". A Universidade Federal do Rio Grande
do Norte deu um largo passo no sentido de democratizar aquele deslumbramento
de Mário ao lançar o livrinho com as notações musicais e as letras dos cocos
de Chico, coalhados de uma novilíngua cintilante.
"Eu sô marujo, eu também sô canuêro, eu sô mestre barcacêro, da ribêra do
Pilá/ande ligêro/Arrepare, cavalêro/eu sô um bicho ligêro/Na pancada do
ganzá!", diz a letra de Dois Tatú. Ou então, em Boi Tungão: "Adeus sala!
Adeus cadera! Adeus piano de tocá! Adeus tinta de iscrevê! Adeus papel de
assentá!"
"O coco não aprendi a cantar com ninguém, fui puxando da cabeça, do juízo.
Eu tinha 12 anos", contava Chico Antônio. "Eu nasci com esse dote, a minha
vontade é me desmanchar todinho quando pego num ganzá."
Outro trabalho admirável, pelo que revela dessa natureza da sabedoria
popular, é Profetas da Chuva, resultado da tese de doutoramento de Karla
Patricia Holanda Martins, no ano 2000. Adivinhos da chuva e das secas, os
profetas do sertão orientam estratégias agrícolas e táticas de sobrevivência
a partir de observações simples: o movimento dos bichos, dos insetos, a cor
das plantas, o calor da terra, o cheiro do ar.
Eles deixam boquiabertos jornalistas e observadores do mundo todo. "Eu dei
entrevista pro Canadá. Ela encheu a página do caderno", gabou-se Joaquim
Muqueca. "Às vezes o cabra diz: 'como é que você entende?'. Meu amigo, ver é
uma coisa, conhecer é outra", disse o profeta da chuva Chico Leiteiro.
Mas é nos perfis deles, na sua visão do mundo e na avaliação de sua história
e de sua rotina que consiste a força desses relatos contidos no livro de
Karla Martins. O homem sábio é bondoso, disse Jorge Luis Borges. Francisco
Mariano, de Quixeramobim, é o resumo disso: "E quando tenho, eu dou, e não
dou com pena; o camarada pode chegar na minha casa e dizer que tá com
precisão; o que eu tiver, eu reparto."
E nós aqui condenados à moça do tempo da TV de cabelo chapinha e tailleur.