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Cícero Dias em definitivo

11/06/2008

Cícero Dias


Catálogo Cícero Dias – Oito décadas de pintura faz jus à exposição e à valorização crescente do pintor pernambucano


MARCELO PEREIRA

Uma obra que honra o talento de Cícero Dias, pelo primor das reproduções de obras do artista, por aliar análise aguda e didatismo, pelos poemas a ele dedicados – por Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Mário de Andrade, Murilo Mendes, João Cabral e Aristides Soares –, e pelo capricho de sua edição, na cronologia, fac-símiles e impressão, o catálogo Cícero Dias - Oito décadas de pintura foi lançado por ocasião da mais abrangente e completa exposição já realizada sobre o pintor pernambucano, em cartaz no Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba, até o dia 19 de setembro.

Lá estão cerca de 200 obras em exposição, que abrangem todas as fases do artista desde as primeiras pinturas realizadas no Engenho Jundiá, em Escada, onde nasceu, até os trabalhos mais recentes. A mostra ocupa uma área de 1.600 metros quadrados –- são raros os museus que têm este espaço à disposição na América Latina. Estão em exposição desde As primeiras notas, quadro pintado pelo artista, aos 14 anos, em 1921, até as pinturas mais recentes, realizadas em Paris, onde viveu desde 1937. Muitas são inéditas. Algumas, obras-primas, como os painéis Eu vi o mundo... Ele começava no Recife e em memória de Frei Caneca (emprestado pela Casa da Cultura de Pernambuco), os painéis das paredes da sala de jantar da casa do artista, removidos e levados para Curitiba, e até uma plotagem com 15 metros de diâmetro do piso da Rosa-dos-ventos, da Praça do Marco Zero.

O catálogo reúne ensaios curtos de apreciação do talento de Cícero Dias, escritos à época de suas principais exposições por Charles Estienne (Paris, 1949), Philippe Dagen (Galerie Marwan Hoss, Paris, 1994), Pierre Descargues, León Degard, R. V. Gindertael e Pierre Restany, além dos brasileiros Sérgio Milliet, Antônio Bento, Mário Pedrosa e, notadamente, Mário Hélio, que se transformou em um quase-biógrafo e é um dos mais profundos conhecedores da obra do pintor.

A Mário Hélio coube a tarefa de se debruçar sobre as várias fases do artista - dos primeiros desenhos às aquarelas eróticas e oníricas, e às paisagens do Recife, Olinda e Rio de Janeiro, das paisagens e cenas domésticas da Zona da Mata, da forma vegetal, da abstração, das entropias e da figuração lírica e geométrica. O jornalista-ensaísta leva o leitor pelas mãos, percorrendo os vários caminhos do artista ao longo de nove décadas.

“Passo a passo, a crítica e o mercado descobrem, ou redescobrem, conhecendo melhor, reconhecendo o conjunto da produção de Cícero Dias, a riqueza na diversidade. O vigor e o colorido das abstrações, a elegância e beleza decorativa das cenas líricas da sua nova figuração mostram um Cícero Dias maduro, de posse do melhor da sua técnica de desenho e pintor. O desenho, este sim, mostrou-se como um momento auge na juventude boêmia em Pernambuco e no Rio de Janeiro”, escreve Mário Hélio.

Artista situado no mesmo patamar de valorização de Portinari, Guignard e Tarsila do Amaral, Cícero Dias tem uma valorização crescente a cada dia, como atesta o marchand Waldir Simões de Assis Filho, representante no Brasil das herdeiras do pintor – a esposa Reymonde Dias e a filha Sylvia. “A obra de Cícero Dias é hoje muito bem cotada. Ele tem reconhecimento nacional e conquista mercado internacional. Esta semana houve um leilão de duas obras suas que extrapolou o seu valor de cotação”, diz Simões de Assis.

“Cícero Dias tem uma obra complexa e muito criativa, com vários segmentos. Ele foi um artista que não teve medo de ousar e buscar novos caminhos para sua pintura”, continua o marchand, que se aproximou do pintor em Paris, há 20 anos, quando propôs uma exposição na sua galeria, realizada em 1990. Simões de Assis Filho participa esta semana do Salão Paulista de Arte com quatro obras do pintor.

(© JC Online)


Tempo de despertar para Cícero

Centenário do artista ocorre daqui a seis meses, mas as ações para celebração da data estão em banho-maria. Resta curtir o catálogo

Baile no Campo, Cícero Dias No dia 5 de março de 2007, Pernambuco deve curvar-se em reverência a um de seus maiores artistas – o pintor modernista Cícero Dias, pela passagem de seu centenário. Há seis meses e meio da data festiva, há um estranho mutismo nos meios culturais, nada praticamente se sabe a respeito de como será festejada a efeméride. O certo é que os pernambucanos partem tarde, pois para montar Cícero Dias – oito décadas de pinturas, a maior e mais abrangente exposição já feita sobre o artista, o Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba (PR) e o Comitê Cícero Dias investiram um ano em planejamento, elaboração de projeto e captação de recursos (públicos e privados). Ou seja, os curitibanos vêem hoje o que os conterrâneos de Cícero já sabem que não verão tal e qual e que, de certa forma, pode ser conferido no catálogo da mostra Cícero Dias – oito décadas de pinturas.

O marchand Waldir Simões de Assis Filho, que desde 1986 representa os direitos de Cícero Dias e suas herdeiras no Brasil, além de integrar o Comitê Cícero Dias, disse, em entrevista por telefone, que “não foi concretizada nenhuma negociação ainda” por qualquer instituição sobre a possibilidade de montar no Recife uma exposição semelhante, da obra do pintor.

“Será necessário elaborar um novo projeto, a ser submetido ao comitê. Tudo isso gera um custo muito elevado e muito trabalho. Há muitas obras particulares e de museus para se pedir por empréstimo e o seguro é caro”, diz o marchand, que assina o projeto, a curadoria e a coordenação da mostra em Curitiba e do catálogo, além de ter realizado a mostra Cícero Dias modernista, exibida na Fundação Armando Álvares Penteado, de São Paulo, e no Ano do Brasil na França, em 2005. A atual mostra em exibição em Curitiba já despertou atenção de vários museus. A França e o Japão desejam fazer intercâmbio. São apenas desejos.

No transcurso do aniversário do pintor este ano, o então governador Jarbas Vasconcelos publicou ato criando uma comissão para organizar os eventos comemorativos ao centenário do pintor, por iniciativa da Fundação Gilberto Freyre (FGF). A comissão contribui mais com sugestões do que com ações. e tem entre seus integrantes o secretário de Educação e Cultura, Mozart Neves, o presidente da Fundarpe, Bruno Lisboa, e o presidente da FGF, Gilberto Freyre Neto.

“A fundação tomou a iniciativa de fazer sugestões por causa da amizade profundíssima entre Gilberto e Cícero”, diz Gilberto Neto. “Pernambuco não tem condições de receber a exposição em cartaz no Museu Oscar Niemeyer”, reconhece o presidente da FGF, que esteve em Curitiba com Bruno Lisboa com o objetivo de estabelecer um canal de negociação com Simões de Assis Filho. “É um custo tão alto que não me atrevo a revelar”, diz. “Mas a intenção é trazer parte dela ao Recife”. Gilberto Neto “mais do que festas” defende “a realização de ações estruturadoras”.

No rol de sugestões propostas pela comissão estão o lançamento de selo e moeda comemorativa, a proposta de restauro da casa-grande do Engenho Jundiá, onde o pintor nasceu, em Escada, para a instalação de um centro cultural e a criação de um outro espaço no centro da cidade, que já tem a promessa de doação de uma coleção de 20 litogravuras dos anos 20 e 30 pela família do artista. Estão previstas também algumas exposições. “Não há definição de data nem de amplitude, ainda, mas com certeza haverá uma grande mostra de Cícero Dias”. A vinda do ateliê do artista de Paris para Pernambuco, porém, ainda não está certa. “A família exige algumas garantias que estão sendo pendentes”, diz Gilberto Neto.

Por causa do período eleitoral, as negociações para realização das iniciativas estão em banho-maria. “É difícil conciliar agendas neste período, apesar da boa receptividade que a comissão tem encontrado. A legislação também interfere no financiamento público”, justifica. Enquanto as ações do centenário não vingam, resta aos pernambucanos o prazer da leitura do catálogo da exposição do Museu Oscar Niemeyer.

Catálogo brochura – Preço: R$ 100. Museu Oscar Niemeyer – www.museuoscarniemeyer.org.br. Catálogo capa dura – Preço: R$ 200 – Simões Barbosa Galeria de Arte - Alameda D. Pedro II, 155. CEP 80.420-060. Fone 0xx41 3232-2315. e-mail: galeria@simoesdeassis.com.br.

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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