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Hello, Brasil

10/06/2008

Flavio Florido/Folha Imagem

José Wilker é o astrofísico Antônio, que encontra o garoto Mosca (Sérgio Malheiros) na favela, em "O Maior Amor do Mundo'

Cacá Diegues, autor de "Bye, Bye, Brasil", retoma o "filme-de-estrada urbano" e a reflexão sobre o país em "O Maior Amor do Mundo'

SILVANA ARANTES
DA REPORTAGEM LOCAL

Antônio (José Wilker), astrofísico brasileiro que fez fama e fortuna nos Estados Unidos, volta ao país americanizado.

Com um diagnóstico que lhe confere poucos meses de vida, ele chega ao Rio de Janeiro para receber um prêmio, mas dá pouca importância a isso e a tudo mais. Até que o reencontro com o pai desperta em Antônio a vontade de buscar a mãe biológica, que ele nunca conheceu.

O desejo da volta à origem levará até o universo da favela esse protagonista de "O Maior Amor do Mundo", novo filme de Cacá Diegues, que estréia em todo o país nesta quinta.

Sucessor de "Deus É Brasileiro" (2003), que é ambientado na margem esquerda do rio São Francisco, "O Maior Amor do Mundo" também leva seu diretor de volta ao ambiente com o qual seu cinema mais se identifica -o da periferia urbana.

No entanto, neste seu 17º longa é outra a visada de Diegues, 66, para as margens -da sociedade brasileira e de suas grandes cidades.

Pelas lentes do diretor, a periferia nunca esteve tão abatida pela sujeira, pela miséria e pela sujeição à violência, embora Diegues discorde de que é desencanto e pessimismo o que se depreende de seu olhar.

"A simplificação muitas vezes cria estereótipos e impede que a gente veja a complexidade da situação real. Nosso dever de artistas, de cineastas, não é simplificar as coisas. É complicá-las", afirma o diretor.

A "complicação" pertinente a "O Maior Amor do Mundo", na avaliação de Diegues, corresponde a defender duas coisas distintas, simultaneamente. "Ao mesmo tempo em que estamos dizendo [com o filme]: "Olha a situação de miséria assombrosa em que essas pessoas vivem no seu cotidiano", também dizemos: "Olha como existem virtudes e qualidades que você pode encontrar aí'".

Para ressaltar a primeira parte da equação, Diegues, que abraçou a MPB no cinema, desta vez lança mão também do rap na trilha sonora do filme.

"O rap é a manifestação mais contundente da cultura brasileira do século 21 em relação a essas questões sociais. Ele provoca uma forma de reflexão sobre o que acontece no Brasil muito mais profunda do que toda a tradição da canção de protesto que tivemos no século passado", afirma.

E não que Diegues julgue frágil a tradição da canção de protesto. Ao contrário. "Mas o rap é muito mais radical e vai muito mais fundo. Com uma diferença, agora eles são porta-vozes deles mesmos. O rap é feito por quem vive aquela experiência, não por quem vê aquela experiência", aponta.

Está claro que, se a população miserável do Brasil povoa o novo longa de Diegues, o diretor não pretende com isso ser o porta-voz de uma classe que não é a sua. "Não é um filme autobiográfico, mas é geracional. Trata dessas reminiscências, das coisas que vi acontecer."

Uma das memórias pessoais que o diretor empresta ao seu protagonista está no início do filme, quando Antônio ainda é criança e, ao lado do pai, vê o Brasil ser derrotado pelo Uruguai, no Maracanã, em 1950.

"Aos dez anos, eu estava chorando porque o Brasil perdeu a Copa do Mundo. Vi meu pai chorar porque o Brasil perdeu."

Além de representar uma dolorosa memória infantil, a referência ao futebol se articula com outra reflexão do diretor, mais ampla e lateral ao filme.

"Este país tem uma coisa muito estranha. A cultura dos vencidos sempre representou o país dos vencedores. O Brasil era identificado sempre pelo Carnaval, pelo samba, pelo futebol. Quer dizer, os vencidos socialmente é que fizeram uma cultura que representou o Brasil não só para nós mesmos, mas mundialmente", afirma.

Se "O Maior Amor do Mundo" ocupa desde já o lugar da diferença no conjunto da obra de Diegues, falta definir qual será seu impacto no público.

O diretor, habituado a grandes platéias, confessa estar "ansioso pelo resultado", mas se recusa a tomar a popularidade como signo do êxito. "Não faço filme para o meu próprio gosto. Um filme só se completa quando o outro vê. Não precisa ser 1 milhão de espectadores. Essa codificação, em moda no Brasil, é absurda. Não estou condenado a fazer público de 1 milhão."

A reticência é justificada num autor que abriu mão de reconhecíveis elementos de apelo popular e escolheu "complicar" sua trama, na tentativa de demonstrar que, "num estado social de esgarçamento das relações a um ponto de extrema miséria, a ética é outra".

Se o resultado parece desesperançado ao espectador, não é o que Diegues pretendia. "Reconheço que "O Maior Amor do Mundo" não está muito no "mainstream" do cinema brasileiro. Não está nem na ponta das comédias românticas de grande sucesso nem na outra ponta, dos filmes pessimistas. É o que eu posso fazer."

(© Folha de S. Paulo)


[+] crítica

Descida ao inferno resgata poesia perdida

CÁSSIO STARLING CARLOS
CRÍTICO DA FOLHA

Quando, na primeira cena de "O Maior Amor do Mundo", a câmera desce do céu estrelado para um lixão à beira de um rio da Baixada Fluminense lotado de dejetos, é todo um programa poético que se abre aos nossos olhos. Do cosmos ao caos, trata-se de um movimento que determina de ponta a ponta o que veremos através do percurso de Antônio, personagem central do filme de Cacá Diegues.

Cineasta irregular, Diegues sabe que seus melhores momentos são alcançados quando ele se entrega à contemplação de universos estranhos entre si. Na memória de seu trajeto, "Bye, Bye, Brasil", "Chuvas de Verão" e "Orfeu" se tornaram ápices porque são filmes em que a poesia se constrói como descobertas, em que os personagens nos servem de guias para descidas aos infernos, onde a beleza surge quando menos se espera. Em vez de uma contemplação ingênua (a pureza da pobreza) ou de um discurso pseudo-engajado (o abismo entre ricos e pobres), Diegues toma em "O Maior Amor do Mundo" um atalho mais estimulante.

A miséria, outro absoluto que tanto obseda o cinema brasileiro, retorna aqui como relativo. Não se trata de acentuar contrastes entre o astrofísico e o soldado-mirim do tráfico, entre o Brasil modelo-exportação e o país da delicadeza perdida, mas de reuni-los num mesmo movimento, da câmera e do drama, restaurar uma continuidade como a que existe nas cenas do filme. "O Maior Amor do Mundo" poderia ser interpretado como um filme psicanalítico ou sociológico.

Mas no filme predomina mesmo é a crença no cinema como forma superior de revelações. E isso Diegues alcança sem precisar retomar a estética da fome ou espetacularizar os efeitos da miséria. Aqui, basta a câmera cruzar uma personagem anônima que esmola um "fica comigo!" para o espectador sentir nas vísceras os sentidos da palavra abandono.

O MAIOR AMOR DO MUNDO    

(© Folha de S. Paulo)


Diretor ganha retrospectiva em São Paulo

DA REPORTAGEM LOCAL

Antes do lançamento nacional de "O Maior Amor do Mundo", marcado para esta quinta, o diretor Cacá Diegues debate seu filme com o crítico Sérgio Rizzo, da Folha, após sessão de pré-estréia, nesta quarta, às 20h, na Sala Cinemateca (SP).

A pré-estréia do longa integra retrospectiva da obra de Diegues, que a Sala Cinemateca abriga de hoje a domingo.

Não à toa, a curadoria de Bernardo Vorobow escalou para imediatamente antes de "O Maior Amor do Mundo" o filme "A Grande Cidade" (1966).

A proximidade entre os dois títulos é observada pelo próprio diretor. "Esse [novo] filme é parente íntimo de "A Grande Cidade", dessa idéia de filme-de-estrada urbano.

Antônio [José Wilker, protagonista de "O Maior Amor do Mundo'] é a Luzia [Anecy Rocha, protagonista de "A Grande Cidade']", afirma o cineasta, anotando também uma diferença: "Luzia vem do Nordeste, e Antônio, de Harvard. É a evolução do tempo, a globalização".

Além dos longas, "Carlos Diegues: Retrospectiva" exibirá também os curtas do diretor, incluindo "Escola de Samba Alegria de Viver", que integra o longa de autoria coletiva "Cinco Vezes Favela". A mostra na Cinemateca é uma promoção da Folha, Cinnamon Comunicação e Columbia Pictures. Amanhã, o Cinemark Iguatemi exibe "O Maior Amor do Mundo" em pré-estréia, às 20h40.

(© Folha de S. Paulo)


Viva o povo brasileiro na obra de Cacá Diegues

Cinemateca faz retrospectiva do diretor à espera do novo longa, que estréia quinta

Luiz Carlos Merten

Há, na obra de Cacá Diegues, o momento em que Jeanne Moreau cavalga no lombo de Eliezer Gomes. Joanna Francesa, representando o colonizador, oprime Ganga Zumba, o colonizado. Mas ele vai reagir. A obra de Diegues é a que mais celebra, no Brasil, a negritude. Os afrodescendentes, no cinema do diretor de 66 anos nascido em Alagoas (onde filmou Joanna Francesa), proclamam sempre que a felicidade do negro é uma felicidade guerreira.

Desde seu primeiro longa, Ganga Zumba, em 1964, e depois através de Xica da Silva, Quilombo e Orfeu, Diegues tem discutido a problemática do negro na sociedade brasileira. É uma das vertentes da sua obra. Outra, que vem desde A Grande Cidade, de 1965, expressa o intimismo do cineasta e prossegue, com Chuvas de Verão e Um Trem para as Estrelas, até O Maior Amor do Mundo, o novo longa de Diegues, que estréia na quinta-feira. Uma terceira vertente celebra o carnaval. Tem origem no curta Escola de Samba Alegria de Viver, de 1961, e originou Quando o Carnaval Chegar, Xica da Silva e Orfeu.

O carnaval de Cacá Diegues é muitas vezes triste, mas fundado na firme convicção de que 'dias melhores virão' (título de outro de seus filmes). As vertentes se cruzam. O tema de Orfeu é recorrente na obra do autor. E, se ele teve a sua fase alegórica e tropicalista (Os Herdeiros), também fez do seu adeus a um Brasil arcaico que cede espaço à modernidade (By-Bye Brasil)um filme singularmente rico - e musical. A música é sempre importante no cinema de Diegues. Volta a sê-lo no belo O Maior Amor do Mundo, síntese de Orfeu e Chuvas de Verão. O maior amor é pela vida.

É tempo de celebrar a obra de Cacá Diegues, que tem origem no Cinema Novo. A Cinemateca inicia hoje uma retrospectiva que tem curadoria de Bernardo Vorobow e produção da Cinnamon e da Luz Mágica. Na quarta, haverá um debate com o diretor, mediado pelo jornalista Sérgio Rizzo. Diegues é autor de uma obra coerente e articulada. Ele gosta de dizer que não revê os próprios filmes, porque sempre tem vontade de mudar alguma coisa. Mas também tem o maior orgulho do que fez, no momento e nas condições de que dispunha. Revisitar seus filmes é reencontrar a magia do cinema e a diversidade do próprio povo brasileiro.

SERVIÇO
Retrospectiva Cacá Diegues. Hoje, 15h45, VIII Bienal de São Paulo, Oito Universitários, Cinema Íris, Reveillon 2000, Carnaval 500 anos, Escola de Samba Alegria de Viver; 17h45, Ganga Zumba. Sala Cinemateca (100 lug.). Lgo. Sen. Raul Cardoso, 207, 5084-2177. R$ 8. Até 10/9

(© Agência Estado)

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