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10/06/2008
Cacá Diegues, autor de "Bye, Bye, Brasil", retoma o "filme-de-estrada urbano" e a reflexão sobre o país em "O Maior Amor do Mundo'
SILVANA ARANTES Com um diagnóstico que lhe confere poucos meses de vida, ele chega ao Rio de Janeiro para receber um prêmio, mas dá pouca importância a isso e a tudo mais. Até que o reencontro com o pai desperta em Antônio a vontade de buscar a mãe biológica, que ele nunca conheceu. O desejo da volta à origem levará até o universo da favela esse protagonista de "O Maior Amor do Mundo", novo filme de Cacá Diegues, que estréia em todo o país nesta quinta. Sucessor de "Deus É Brasileiro" (2003), que é ambientado na margem esquerda do rio São Francisco, "O Maior Amor do Mundo" também leva seu diretor de volta ao ambiente com o qual seu cinema mais se identifica -o da periferia urbana. No entanto, neste seu 17º longa é outra a visada de Diegues, 66, para as margens -da sociedade brasileira e de suas grandes cidades. Pelas lentes do diretor, a periferia nunca esteve tão abatida pela sujeira, pela miséria e pela sujeição à violência, embora Diegues discorde de que é desencanto e pessimismo o que se depreende de seu olhar. "A simplificação muitas vezes cria estereótipos e impede que a gente veja a complexidade da situação real. Nosso dever de artistas, de cineastas, não é simplificar as coisas. É complicá-las", afirma o diretor. A "complicação" pertinente a "O Maior Amor do Mundo", na avaliação de Diegues, corresponde a defender duas coisas distintas, simultaneamente. "Ao mesmo tempo em que estamos dizendo [com o filme]: "Olha a situação de miséria assombrosa em que essas pessoas vivem no seu cotidiano", também dizemos: "Olha como existem virtudes e qualidades que você pode encontrar aí'". Para ressaltar a primeira parte da equação, Diegues, que abraçou a MPB no cinema, desta vez lança mão também do rap na trilha sonora do filme. "O rap é a manifestação mais contundente da cultura brasileira do século 21 em relação a essas questões sociais. Ele provoca uma forma de reflexão sobre o que acontece no Brasil muito mais profunda do que toda a tradição da canção de protesto que tivemos no século passado", afirma. E não que Diegues julgue frágil a tradição da canção de protesto. Ao contrário. "Mas o rap é muito mais radical e vai muito mais fundo. Com uma diferença, agora eles são porta-vozes deles mesmos. O rap é feito por quem vive aquela experiência, não por quem vê aquela experiência", aponta. Está claro que, se a população miserável do Brasil povoa o novo longa de Diegues, o diretor não pretende com isso ser o porta-voz de uma classe que não é a sua. "Não é um filme autobiográfico, mas é geracional. Trata dessas reminiscências, das coisas que vi acontecer." Uma das memórias pessoais que o diretor empresta ao seu protagonista está no início do filme, quando Antônio ainda é criança e, ao lado do pai, vê o Brasil ser derrotado pelo Uruguai, no Maracanã, em 1950. "Aos dez anos, eu estava chorando porque o Brasil perdeu a Copa do Mundo. Vi meu pai chorar porque o Brasil perdeu." Além de representar uma dolorosa memória infantil, a referência ao futebol se articula com outra reflexão do diretor, mais ampla e lateral ao filme. "Este país tem uma coisa muito estranha. A cultura dos vencidos sempre representou o país dos vencedores. O Brasil era identificado sempre pelo Carnaval, pelo samba, pelo futebol. Quer dizer, os vencidos socialmente é que fizeram uma cultura que representou o Brasil não só para nós mesmos, mas mundialmente", afirma. Se "O Maior Amor do Mundo" ocupa desde já o lugar da diferença no conjunto da obra de Diegues, falta definir qual será seu impacto no público. O diretor, habituado a grandes platéias, confessa estar "ansioso pelo resultado", mas se recusa a tomar a popularidade como signo do êxito. "Não faço filme para o meu próprio gosto. Um filme só se completa quando o outro vê. Não precisa ser 1 milhão de espectadores. Essa codificação, em moda no Brasil, é absurda. Não estou condenado a fazer público de 1 milhão." A reticência é justificada num autor que abriu mão de reconhecíveis elementos de apelo popular e escolheu "complicar" sua trama, na tentativa de demonstrar que, "num estado social de esgarçamento das relações a um ponto de extrema miséria, a ética é outra". Se o resultado parece desesperançado ao espectador, não é o que Diegues pretendia. "Reconheço que "O Maior Amor do Mundo" não está muito no "mainstream" do cinema brasileiro. Não está nem na ponta das comédias românticas de grande sucesso nem na outra ponta, dos filmes pessimistas. É o que eu posso fazer." [+] crítica CÁSSIO STARLING CARLOS Cineasta irregular, Diegues sabe que seus melhores momentos são alcançados quando ele se entrega à contemplação de universos estranhos entre si. Na memória de seu trajeto, "Bye, Bye, Brasil", "Chuvas de Verão" e "Orfeu" se tornaram ápices porque são filmes em que a poesia se constrói como descobertas, em que os personagens nos servem de guias para descidas aos infernos, onde a beleza surge quando menos se espera. Em vez de uma contemplação ingênua (a pureza da pobreza) ou de um discurso pseudo-engajado (o abismo entre ricos e pobres), Diegues toma em "O Maior Amor do Mundo" um atalho mais estimulante. A miséria, outro absoluto que tanto obseda o cinema brasileiro, retorna aqui como relativo. Não se trata de acentuar contrastes entre o astrofísico e o soldado-mirim do tráfico, entre o Brasil modelo-exportação e o país da delicadeza perdida, mas de reuni-los num mesmo movimento, da câmera e do drama, restaurar uma continuidade como a que existe nas cenas do filme. "O Maior Amor do Mundo" poderia ser interpretado como um filme psicanalítico ou sociológico. Mas no filme predomina mesmo é a crença no cinema como forma superior de revelações. E isso Diegues alcança sem precisar retomar a estética da fome ou espetacularizar os efeitos da miséria. Aqui, basta a câmera cruzar uma personagem anônima que esmola um "fica comigo!" para o espectador sentir nas vísceras os sentidos da palavra abandono. O MAIOR AMOR DO MUNDO Diretor ganha retrospectiva em São Paulo DA REPORTAGEM LOCAL Antes do lançamento nacional de "O Maior Amor do Mundo", marcado para esta quinta, o diretor Cacá Diegues debate seu filme com o crítico Sérgio Rizzo, da Folha, após sessão de pré-estréia, nesta quarta, às 20h, na Sala Cinemateca (SP). A pré-estréia do longa integra retrospectiva da obra de Diegues, que a Sala Cinemateca abriga de hoje a domingo. Não à toa, a curadoria de Bernardo Vorobow escalou para imediatamente antes de "O Maior Amor do Mundo" o filme "A Grande Cidade" (1966). A proximidade entre os dois títulos é observada pelo próprio diretor. "Esse [novo] filme é parente íntimo de "A Grande Cidade", dessa idéia de filme-de-estrada urbano. Antônio [José Wilker, protagonista de "O Maior Amor do Mundo'] é a Luzia [Anecy Rocha, protagonista de "A Grande Cidade']", afirma o cineasta, anotando também uma diferença: "Luzia vem do Nordeste, e Antônio, de Harvard. É a evolução do tempo, a globalização". Além dos longas, "Carlos Diegues: Retrospectiva" exibirá também os curtas do diretor, incluindo "Escola de Samba Alegria de Viver", que integra o longa de autoria coletiva "Cinco Vezes Favela". A mostra na Cinemateca é uma promoção da Folha, Cinnamon Comunicação e Columbia Pictures. Amanhã, o Cinemark Iguatemi exibe "O Maior Amor do Mundo" em pré-estréia, às 20h40. Viva o povo brasileiro na obra de Cacá Diegues Cinemateca faz retrospectiva do diretor à espera do novo longa, que estréia quinta Luiz Carlos Merten
Há, na obra de Cacá Diegues, o momento em que
Jeanne Moreau cavalga no lombo de Eliezer Gomes. Joanna Francesa,
representando o colonizador, oprime Ganga Zumba, o colonizado. Mas ele vai
reagir. A obra de Diegues é a que mais celebra, no Brasil, a negritude. Os
afrodescendentes, no cinema do diretor de 66 anos nascido em Alagoas (onde
filmou Joanna Francesa), proclamam sempre que a felicidade do negro é uma
felicidade guerreira.
SERVIÇO (© Agência Estado)
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