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10/06/2008
A ópera, espetáculo que estréia em novembro, tem texto baseado em livro inédito do dramaturgo pernambucano Newton Moreno, que aborda a homossexualidade sem filtros FABIANA MORAES Celebrado pela crítica do Sudeste como um dos mais inventivos dramaturgos na nova geração teatral, o pernambucano Newton Moreno, vencedor de um Prêmio Shell e do prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), terá um texto de sua autoria pela primeira vez montado na cidade. A ópera, espetáculo que tem estréia prevista para 2 de novembro no Hermilo Borba Filho, é baseado no livro homônimo de Moreno, ainda inédito (leia trechos ao lado, com exclusividade). Como em peças anteriores, como as aclamadas Agreste e Dentro, a temática homoerótica é mais uma vez abordada: os quatro textos que baseiam a peça, escolhidos pelo diretor Marcondes Lima, tratam de amores quase sempre difíceis, dolorosos, mas, na outra ponta da linha, imersos em um humor que também acaba machucando um pouquinho. Newton não tem medo de ser rotulado como um autor de temáticas recorrentes – no caso, o homossexualismo e o regionalismo presente na citada Agreste e Assombrações do Recife Velho (atualmente em cartaz no Sesc Santana, em São Paulo). “A escrita para mim é algo muito recente, um campo de experimentação em aberto. Há sim um diálogo com o Recife, com a memória, mas acho que é o discurso amoroso que se sobressai no que faço”, diz o dramaturgo. A própria idéia de Ópera confirma essa realidade: em cena, histórias como a de um adolescente que deseja ser mulher e comemora um câncer de mama como um prêmio, um cachorro gay que modifica a rotina familiar, o amor entre um cantor de ópera e um michê. Extremos e situações risíveis que colocam em xeque preconceitos e causam certo e necessário desconforto. Ainda assim, todas verdadeiras histórias de amor. No livro, que deverá ser lançado no mesmo período de estréia da peça, Moreno realizou uma espécie de compilação de diversos contos que escreveu ao longo de sua vida em São Paulo, onde está há 16 anos. “Fui reunindo esses escritos buscando sempre uma coerência, um norte, e não me resumi apenas à temática homo”, conta ele, que virá ao Recife na segunda semana de setembro para acompanhar os trabalhos que o elenco vem realizando sobre seu texto. Esse processo de adaptação está sendo feito de forma interessantíssima pelo grupo: depois de escolher os quatro contos a serem adaptados - Cão, O troféu, Culpa e A ópera – o diretor Marcondes Lima reuniu os atores Arilson Lopes, Fábio Caio, Ivo Barreto e André Brasileiro. Juntos, todos trabalham sobre os textos inéditos, que atualmente estão em construção (e é justamente para alinhavar esse trabalho que o dramaturgo vem até Recife). Esta é a segunda vez que Lima está encenando um texto contemporâneo de um pernambucano. Em 2004, ele adaptou Angu de sangue, baseado no texto de Marcelino Freire, espetáculo premiado duas vezes pela Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco como melhor direção e melhor espetáculo nesse mesmo ano. A continuidade desse trabalho tem um motivo: o diretor tem como objetivo realizar uma trilogia que vai se completar com uma encenação pós A ópera. “A idéia do próximo projeto é unir Marcelino e Newton, trabalhando a similaridade existente entre os dois”, diz Lima, que tem como uma das concepções-base do espetáculo o teatro de variedades. É a partir desse contexto que A ópera também vai homenagear um dos grupos cênicos mais polêmicos (e reverenciados) do Estado, o Vivencial Diversiones, até hoje lembrado por sua estética na qual o mundo gay era sempre um desbunde. “Eles desenvolveram, nos anos 70, uma linguagem ímpar, particular, extremamente subversiva”, diz Marcondes Lima. Nova peça de Moreno fora de festival Assombrações do Recife velho, em cartaz em SP, não entra na grade do Festival de Teatro do Recife, mas dramaturgo tenta trazê-laAtualmente em cartaz no Sesc Santana (até o dia 10 de setembro), Assombrações do Recife velho, peça de Newton Moreno baseada no livro de Gilberto Freyre, recebeu elogios efusivos da crítica especializada em São Paulo, que se impressionou com a qualidade da encenação. A montagem recebeu três indicações para o Prêmio Shell 2005 (direção, iluminação e trilha sonora) e ganhou o prêmio Qualidade Brasil categoria comédia em direção, espetáculo e ator (Fernando Neves). Apesar do sucesso, o espetáculo não está na grade do próximo Festival de Teatro do Recife. “Tentei levar a peça, mas já soube que, infelizmente, ela não foi selecionada”, lamenta Newton, que está em franca campanha para trazer a trupe Os Fofos Encenam, da qual faz parte, para a sua terra natal. “Estamos procurando outras maneiras de encenar essa adaptação de Gilberto Freyre no Recife, mas estamos encontrando algumas dificuldades”, diz. Além de alinhavar o texto que Marcondes Lima e o elenco de A ópera estão adaptando, o dramaturgo também vai aproveitar a viagem para o Recife para tentar encontrar apoio local para trazer Assombrações, um projeto que começou quando Moreno visitou pela primeira vez a Fundação Gilberto Freyre. “Fiquei impressionado com aquele lugar.” Além dos textos do famoso livro do sociólogo, ele incluiu na peça outras histórias de assombração que ganharam popularidade após a publicação de Freyre. “É uma livre adaptação do livro, onde mortos e vivos se encontram na Rua do Encantamento. Tem a velha branca e o bode vermelho, o morto carregando o vivo, o Boca de Ouro e o Papa Figo. São várias vozes pernambucanas, vivas e mortas”, explica o dramaturgo. Dentro desse campo do fantástico, o autor trabalha com temas, digamos, menos belos e encantadores, como a escravidão e a repressão (na qual surge até o personagem de Frei Caneca). No elenco de 10 atores, quatro nomes são pernambucanos: Paulo de Pontes, Elaine Kauffman, Luciana Lyra e Carlos Ataíde. A trupe dos fofos também já está engatilhada para o próximo espetáculo de Newton em São Paulo: The Célio Cruz Show, onde aborda a exploração da miséria humana na televisão. LIVRO – Além dos quatro contos que estão sendo atualmente trabalhados no Hermilo Borba Filho para a confecção de A ópera, o livro homônimo de Newton Moreno traz ainda 13 histórias que abordam de diferentes maneiras o mundo amoroso. Jesus te ama, Virgem, O primeiro casal e Nega Sônia são alguns deles. “São contos que abordam primeiramente explosões de afeto e de morte”, diz Newton, que vibra com o recorte homossexual escolhido para a peça que estréia em novembro. “Acredito que os textos selecionados oferecem a possibilidade de as pessoas aprenderem com a diferença. São trabalhos que mostram um afeto possível, mas que raramente encontra lugar”, diz o dramaturgo.
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