|
|
10/06/2008
Um impressionante conjunto de 86 fotos do bando de Lampião e da polícia da época ganha edição caprichada no livro Cangaceiros
Fonte de romances e filmes e cantada até hoje em intermináveis versos de cordel, a saga dos cangaceiros se traduz em diversas batalhas. Na base do tiro, do facão e da degola, eles enfrentaram a polícia de sete Estados nordestinos representada pelas volantes – destacamento que se embrenhava pela caatinga no encalço do bando e de seu grande líder, o “capitão” Virgulino Ferreira da Silva, ou, simplesmente, Lampião. Um outro combate importante aconteceu em um plano mais abstrato, no campo da mídia a partir de 1936 – não havia meio-termo, ou se idolatrava Lampião, olhado como um justiceiro dos despossuídos, ou se odiava Lampião, visto como um bandoleiro e assaltante sanguinário. Tudo isso está demonstrado no livro Cangaceiros (editora Terceiro Nome) através de um admirável conjunto de 86 fotos, analisadas minuciosamente pela historiadora francesa Élise Jasmin. Eis o que as fotografias contam:
Extremamente vaidosos, a ponto de incrustarem em seus chapéus adornos de ouro e de bordarem seus acessórios militares com coloridos motivos florais (muitos deles herdeiros de uma rica iconografia medieval), os cangaceiros gostavam de se ver retratados – e, claro, gostavam também de figurar nas páginas de revistas e jornais. Quando as primeiras fotos do bando de Lampião, feitas pelo mascate libanês Benjamin Abrahão, começaram a aportar na imprensa em 1936, o presidente Getúlio Vargas apressou-se em dar uma resposta. E não só militar, mas também visual. Para fazer frente à provocação dos cangaceiros era preciso mostrar uma milícia bem armada, igualmente clicada em ângulos pomposos. O auge dessa guerra aconteceu com o massacre de Lampião e seu bando em 23 de julho de 1938, só que era tanto temor e tanto respeito que o “capitão” Virgulino impunha que não era suficiente noticiar que o grupo estava dizimado. Foi preciso decapitar todos os cangaceiros e organizar uma sinistra exposição itinerante de cabeças por diversas cidades do sertão nordestino.
A documentação fotográfica do cangaço começa e termina no bando de Lampião, que perambulou pelas matas do Nordeste entre 1922 e 1938. Mas o fenômeno já havia sido identificado em meados do século XVIII, quando o bandoleiro pernambucano José Gomes, vulgo Cabeleira, andou provocando terror. Esse tipo de banditismo rural, de rebeldia primitiva e sem consciência política, floresceu em diversas partes do mundo, fruto de situações de miséria e de poder público corrompido. No Brasil, porém, ganhou características próprias. O ambiente propício vinha sendo gestado desde a época colonial, com a divisão da terra em grandes latifúndios e a necessidade de um grupo de capangas para protegê-los. Do chamado “capitão-do-mato” para o cangaceiro tal qual conhecemos, bastou apenas redirecionar o objeto de sua violência.
Na origem de grupos como o de Lampião, que no auge de sua atividade reuniu 150 homens e mulheres, poderiam estar, portanto, não apenas os justiceiros que montavam um exército particular para vingar seus familiares – caso do próprio Virgulino cujo pai foi morto a mando de rivais quando ele tinha 18 anos. O mesmo espírito rebelde vai orientar, por exemplo, os trabalhadores miseráveis e em regime de semi-escravidão que entravam para os bandos em busca de um meio de vida. Na tentativa de entender a pulsão violenta de Lampião, a ciência da época chegou a estudar seu crânio, que ficou 30 anos exposto em um museu na Bahia. A única conclusão, que até hoje ninguém sabe para que serve, foi: “É um dolicocéfalo perfeito (cabeça alta e estreita).”
Em muitas situações do dia-a-dia, o pernambucano Lampião se mostrava uma pessoa bem adequada: gostava de se borrifar com o perfume francês Fleur d’Amour, bebia uísque White Horse e lia Edgar Wallace e Georges Simenon. Era delicado e carinhoso. Agora, uma surpresa: o cabra-macho Lampião adorava bordar e costurar. Na impressionante foto com o altar das cabeças dos homens de seu bando, montada na escada da Igreja de Santana do Ipanema, podem-se ver no alto duas máquinas Singer usadas por ele e seus cabras. Outra de suas características era a grande valorização das mulheres nos combates. Além de Maria Bonita, sua esposa, ficaram famosas as cangaceiras Dadá (mulher de Corisco) e Inhacinha (mulher de Gato). É claro que os cangaceiros também adoravam exibir as armas. Detalhe: Lampião só ganhou esse apelido porque a sua espingarda Winchester 44, famosa nos faroestes, ao disparar soltava o brilho de uma luz similar a um lampião. Já o título de capitão não era uma trapaça. Ele realmente ganhou a patente em 1926, do próprio governo federal, ao ser convocado pelo Padre Cícero para combater a Coluna liderada por Luiz Carlos Prestes que cortava o Brasil pregando a justiça social. Cabra perspicaz que era, Lampião percebeu a manobra do governo. Ele apanhou os 100 contos de réis que o governo lhe deu, mas traçou uma rota paralela à da Coluna de modo que elas não se encontrassem – enquanto uma descia, a outra subia. Lampião respeitava Prestes porque ele falava em dar terra aos pobres,
|
|
||||||||||||||