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10/06/2008
Caetano Veloso lança "Cê", disco em que utiliza um trio básico de rock; na entrevista, discute a questão racial e descarta apoiar a reeleição do presidente "Não sou burro nem maluco", disse Caetano Veloso à Folha ao justificar sua decisão de não votar em Lula -o que já não faria, segundo ele, por ser contra a reeleição. "Mas, mesmo se fosse a favor, não votaria. O escândalo do mensalão foi vergonhoso." Em "Cê", no entanto, o novo CD de Caetano, a questão política mais explícita está em "O Herói" (leia letra abaixo), que perfaz o caminho de um militante negro, do ódio à democracia racial. Depois de um álbum inteiro de canções em inglês, com 23 faixas e orquestra, "Cê" traz 12 canções de autoria do compositor, todas executadas por ele e por um trio básico de rock, formado por Pedro Sá, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes. MARCOS AUGUSTO GONÇALVES EDITOR DA ILUSTRADA Na entrevista que segue, Caetano Veloso fala sobre a questão racial, critica a esquerda e diz que não é burro nem maluco para reeleger Lula. FOLHA - Na música "O Herói" quem fala é um militante que quer
semear o ódio racial, mas descobre no final que é o homem cordial. Como você
concebeu essa letra? FOLHA - Você já falou contra a institucionalização do racismo no
Brasil à moda dos EUA. FOLHA - Você tem uma posição clara sobre a proposta de cotas
raciais? FOLHA - Nem 100% negra... (risos) FOLHA - O que você achou do livro "Não Somos Racistas", do Ali Kamel?
FOLHA - Ao contrário de Chico Buarque, você já disse que não votará em
Lula. Por quê? FOLHA - O sociólogo Gilberto Vasconcellos se referia a "essa turma",
que veio a se dividir entre PT e PSDB, como a coalizão CUT-USP-Fiesp... FOLHA - Em quem você vota? FOLHA - Como você vê o escândalo do mensalão? FOLHA - É como naquela canção: "Mamãe eu quero ir a Cuba e quero
voltar"? FOLHA - Por que há essa leniência em relação ao escândalo? Caetano faz opção por poética crua e punk Haroldo de Campos, Pixies e Sex Pistols são referências no novo
disco Há em "Cê" uma concentração de imagens relacionadas ao sexo e ao corpo. É na canção "Homem" que esse campo semântico prevalece de maneira mais evidente: "Não tenho inveja da maternidade/ nem da lactação/ Não tenho inveja da adiposidade/ nem da menstruação/ Só tenho inveja da longevidade/ e dos orgasmos múltiplos", diz a primeira estrofe da letra, que, para Caetano, tem jeito de Rita Lee. Mas em outras letras, essa poética corpórea também se insinua, em palavras como "buço", "mamilo", "coxa", "nuca" ou "mucosa" -esta mais de uma vez, uma delas como adjetivo: "Veio a maior cornucópia de mulheres/ todas mucosas pra mim". "A poética do rock é muito mais de sexo do que de romance, talvez essa seja uma das razões", diz Caetano. "Nesse disco há muitas canções de melancolia e de sexo, mas não tem propriamente romance." Pergunto se não haveria algo de Haroldo de Campos nas escolhas poéticas do CD. "Sim, pensei duas vezes nele durante esse trabalho", diz Caetano, que cita como um exemplo dessa relação o uso, na letra de "Musa Híbrida", da expressão "cúprica" [referente a cobre] -que soa, de fato, bastante "haroldiana". Outra explicação para essas opções seria a intenção deliberada, alimentada em antigas conversas com Pedro Sá, de fazer um CD com "linguagem poética muito crua". "Há um tempo o Pedro me mostrou um disco dos Pixies, que foi gravado a partir de um programa para a BBC. É um negócio tão coeso e sucinto que ele próprio comparou a João Gilberto. Eu queria fazer canções curtas, com imagens que fossem pouco sentimentalóides." Pedro Sá acompanha Caetano desde "Noites do Norte" (2000). Ao lado de Moreno Veloso, é o responsável pela produção musical do CD, além de tocar guitarra e baixo. "Caetano chegou com algumas canções prontas, outras encaminhadas, e eu decidi chamar o Ricardo Dias Gomes [baixo e piano Rhodes] e o Marcelo Callado [bateria]. Ele não conhecia os dois, mas as coisas foram fáceis e rápidas nos ensaios e no estúdio. É um disco tocado, nada foi acrescentado depois", diz. Além dos Pixies, Caetano menciona o Sex Pistols como um exemplo de crueza e concisão punk. "Se você for ler meu livro, "Verdade Tropical", verá que esse gosto pelo punk está lá. Eu dizia que gostava de Sex Pistols, assim como de Stevie Wonder e Bob Marley. Marley e punk têm em comum o uso de poucos elementos. Stevie Wonder, não. É mais enfeitadiço, mas é bom, maravilhoso." A crueza proclamada pelo compositor não deixa de ter acentuada inclinação literária, que inclui até o uso lusitano da língua. Na música "Porquê?" (assim mesmo com acento, como escrevem os portugueses), a curta letra repete a frase "estou-me a vir", que é a maneira como em Portugal se diz que o orgasmo está se aproximando. "Gosto de trazer para o Brasil esses usos portugueses da língua", diz Caetano. Não se deve esquecer que "Cê" foi realizado sob o signo da separação do casal Caetano e Paula Lavigne. Ele diz que apenas duas canções do disco são autobiográficas. A primeira é a melancólica e bela "Minhas Lágrimas". A outra, que já toca nas rádios, é "Não Me Arrependo", que fala da separação e evoca Raul Seixas e Bob Dylan. "Eu estou apaixonado por Bob Dylan, adorei aquele documentário sobre ele feito pelo Martin Scorsese. Timidamente, até insinuei uma imitação do jeito dele cantar em "Não Me Arrependo'", diz Caetano. Outra referência presente no CD é o rock dos anos 80. Há alguma coisa de
"Velô" em "Cê" -que de certa forma é um "Re-Velô". "Se alguém achar que o ar
de revisão do rock dos anos 80 sob um certo critério punk é um lugar comum
dos grupos atuais que não evitei adotar em muitos momentos, estará certo",
escreve Caetano num texto que acompanha o CD. Numa iniciativa pouco usual, "Cê" também será lançado em vinil. A idéia é de Pedro Sá e Moreno. "Não é uma onda nostálgica", diz Sá. "Ele vai ter cara de uma coisa atual, não de um disco antigo. Muita gente curte", diz ele, que embora não tenha nada contra o uso de formatos como MP3, considera o som do vinil mais amplo e melhor. Nessa versão, "Cê" contará com apenas dez canções. Saem "Porquê?" e "O Herói". O disco está sendo prensado naquela que seria a última fábrica de vinil do país, localizada na Baixada Fluminense. crítica LUIZ FERNANDO VIANNA É "disco de Caetano" porque mantém, para usar palavras que ele adota no release, a "atitude desabusada" nascida no tropicalismo e um "interesse pela cultura de massas dominante" sem submeter-se a ela. É, ainda, pela quebra de expectativas. Se alguém achava que "A Foreign Sound" (2004) era uma rendição sessentona à música bela e límpida, Caetano vem agora com o avesso da grande canção norte-americana: os sons rústicos do mundo pop e o universo adolescente. Pode parecer, então, que ele está buscando o elixir da juventude, com medo da maturidade que deve torná-lo tão propenso a fazer coisas nitidamente belas -como Chico Buarque, apesar das assimetrias, não consegue deixar de fazer. Mas não há muitos sinais de "síndrome de Peter Pan" em "Cê" porque as músicas têm fundos falsos. "Odeio", por exemplo, sob seu refrão simples ("Odeio você") e sua evocação dos sons eletrônicos, esconde uma letra rica de contrastes e um violão suave. "Deusa Urbana", com seu jeito de balada teen, é adulta nas dualidades e até na adoração lúbrica da "deusa" -babar bem é uma arte que exige certo tempo de vida. E "Não Me Arrependo" fala de um casal com história: "Vejo essas novas pessoas/ Que nós engendramos em nós/ E de nós". Além disso, é um rock anos 60, bem Raul Seixas, um pouco Bob Dylan, algo até Roberto/Erasmo. Ainda há duas canções fortes em que Caetano usa o rock como pano de fundo. Na sofrida "Minhas Lágrimas" -que parece o espelho agudo de "José", do disco "Caetano" (86)- é um rock-country desértico, como pede a letra. Em "Waly Salomão", o arranjo lembra os góticos ingleses, mas a bateria também evoca "os tambores de Vigário Geral", referência ao AfroReggae, grupo que tinha Salomão como mentor e tocou no velório do poeta, na Biblioteca Nacional. A postura rock é mais clara no som e no linguajar de "Rocks" ("Você foi mor [maior] rata comigo"), na macheza divertida de "Homem" ("Só tenho inveja da longevidade/ E dos orgasmos múltiplos") e no erotismo jocoso de "Outro" ("Feliz e mau como um pau duro") e "Porquê?" ("Estou-me a vir", expressão lusitana para indicar o orgasmo). E tudo termina com um rap complexo, cantando por um ambíguo homem negro, com ironias várias, inclusive às cotas raciais e a Lula ("Depois do fim do medo e da esperança"). Se "Cê" não tem "aquela nova do Caetano" e perde na comparação com "Livro" e "Noites do Norte" pela proposital ligeireza de seu conceito, acaba forte com a polêmica e política "Um Herói". Ela indica que o CD tem mais peso do que supõe a vã filosofia pop. CÊ CAETANO PENSOU EM CD "CLANDESTINO" Frases "A esquerda é que nem torcida de futebol. As pessoas ficam cegas. Eu sou
um simpatizante da esquerda por sede de harmonia, de dignidade e de justiça.
Mas vejo freqüentemente que a esquerda é quem mais ameaça essas coisas que
me levaram a me aproximar dela" CAETANO VELOSO "O Herói"
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