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E o feio se tornou bonito...

10/06/2008

O diretor Cacá Diegues, num cenário de O Maior Amor..., estrelado por José Wilker (abaixo): o individualismo é ainda mais pecaminoso do que o lucro


O Maior Amor do Mundo, de Cacá Diegues, ilustra como o esquerdismo bocó dos anos 60 deu no populismo de exaltação

Reinaldo Azevedo

O filme O Maior Amor do Mundo, de Cacá Diegues, que estreou no Dia da Independência, prova que, "nestepaiz", só o individualismo é mais pecaminoso do que o lucro. A idéia de que o indivíduo é responsável por seus atos ofende os órfãos pidões, tutelados pelo Estado. No filme, o astrofísico Antonio (José Wilker), de volta ao Brasil depois de fazer carreira nos Estados Unidos, visita o pai adotivo num asilo e obtém pistas de sua mãe verdadeira. O útero é metáfora da pátria. Ele está com câncer e quer unir as duas pontas da vida. Na busca, o racionalista e um tanto apatetado Antonio se apaixona pela suburbana sensual Luciana (Taís Araújo). O clichê celebra sua vitória.

Ele, nascido no dia da derrota do Brasil para o Uruguai, em 1950 – um mau presságio –, encontra vitalidade na pobreza edênica, tornada cultura de resistência. Se tudo começa com a mãe, Diegues manda Freud para o divã do populismo. A música concilia a razão branca, culpada e de olhos verdes de Chico Buarque, a contestação integrada do AfroReggae e pitadas do oficialismo de Gilberto Gil. A câmera lambe as paisagens das "vastas solidões", como diria o abolicionista Joaquim Nabuco, mas também as carências da periferia – aquela que Regina Casé, no Fantástico, diz ser "o centro".

Não se denunciam mazelas, a exemplo do que fazia o antigo Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes. Elas são antes uma verdade afirmativa. O CPC cantava "feio não é bonito", "o morro existe, mas pede para se acabar". Hoje, o morro reivindica identidade. Uma certa Central Única das Favelas (Cufa) fornece mão-de-obra e metafísica a Diegues. Queremos ser conscientizados pelo oprimido. No livro Genealogia da Moral, o filósofo alemão Nietzsche vê no servo que reivindica o direito de falar como servo o fim da civilização.

O filme não acredita em indivíduos órfãos de tutela. Quer uma pátria gregária, como a Cufa. Nos moldes da CUT, ela tem de filiar "sindicatos" e produzir valores. Antonio se reeduca. A astrofísica que se dane com Plutão. Há uma atmosfera de nostalgia do útero nativista, caboclo, nacional-desenvolvimentista, embora aí, de fato, esteja nossa tragédia: o Estado patrão, que faz até cinema por meio das estatais; o compadrio; as formas renitentes de patrimonialismo... Só faltava o assalto ao Estado como ideologia não contabilizada. Já temos. Cineastas sempre têm uma câmera na mão e um Brasil na cabeça. É de orfandade que tratava o filme Central do Brasil, de Walter Salles Jr., lembram-se? O garoto cortava o sertão, deixando para trás a cidade, fonte de todo mal, para encontrar o pai. Corolário: precisamos de alguém que cuide de nós.

Enquanto a elite branca de Cláudio Lembo se emperiquitava no sábado 2 para assistir ao show de Chico (Carioca), uma parte dos moradores de Cidade de Deus, no Rio, ia ao comício de Lula, convidado pela... Cufa! O PT laçou jovens, etnias de exceção e crianças assistidas por programas federais para dar testemunho em favor do pai-presidente. À moda das igrejas neopentecostais – como respeitar religiões mais jovens do que um bom uísque? –, os filhos de Lula foram lá narrar a sua vida antes e depois da adoção. O presidente violava o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei Eleitoral. E daí?

Ninguém quer ensinar Mozart ou Kant aos pobres. Eles têm de aprender batuque, funk e rap. É batata: há uma relação inversamente proporcional entre a variedade de instrumentos de percussão e saneamento básico. Onde excedem o "baticumbum" e os versos de pé quebrado, falta água encanada. E sobejam verminoses. Do esquerdismo bocó da década de 60 para o populismo de exaltação de hoje, o feio se tornou bonito. Só não abrimos mão da orfandade pidonha – que é a morte do indivíduo.

(© VEJA)


"O Maior Amor do Mundo", um grande filme de Cacá Diegues

O novo filme do diretor alagoano, que estréia hoje, depois de ser premiado em Montreal, é uma obra de maturidade

Luiz Carlos Merten


SÃO PAULO - Cacá Diegues vai perdoar a pequena indiscrição do repórter. No ano passado, durante as comemorações do ano do Brasil na França, ele foi homenageado, no Forum des Imagens Les Halles, em Paris, com uma retrospectiva de sua obra. No dia em que debateu com o público, passava seu segundo longa, "A Grande Cidade", de 1965. Diegues não via o filme há muito tempo. Viu e gostou. Achou muito bom - "mas não publica isso porque vai parecer muito presunçoso da minha parte". Não é presunção e vale revelar o que diz o cineasta porque seu novo longa, "O Maior Amor do Mundo", que estréia nesta quinta-feira em salas de todo o País, pertence à vertente de "A Grande Cidade".

"O Maior Amor do Mundo" é o 16.º longa de Cacá e seu 17.º filme, se for computado o curta "Escola de Sangue Alegria de Viver", episódio de "Cinco Vezes Favela", bem no começo da carreira do diretor. A cidade como espaço da desigualdade, o intimismo, a importância atribuída à música, tudo aproxima os dois filmes. Cacá tem razão - "A Grande Cidade" é um belo filme (e você pode revê-lo na retrospectiva que a Sala Cinemateca dedica ao cineasta), mas "O Maior Amor do Mundo" é melhor. Não por acaso, recebeu nesta terça-feira o prêmio de melhor filme no Festival de Montreal. O Brasil inteiro cabe dentro desse filme e o maior amor, você vai ver, é aquele pela vida.

Filme tem origem em ´Deus é Brasileiro´

Sua origem está numa história dentro da história de "Deus É Brasileiro". Você talvez se lembre daquele homem que sabe que está morrendo e, de raiva, angústia, frustração, destrói a casa. "Estava sem nenhum projeto depois de ´Deus É Brasileiro´ e aí aquela história começou a crescer dentro de mim Achei que o personagem merecia um filme inteiro. Achei que seu comportamento poderia mudar." Foi um filme escrito, produzido, dirigido e montado com urgência - dois anos ao todo. "Em geral, o processo de um filme é demorado, mas esse me saiu mais rápido " O que não significa que não tenha sido feito no capricho. José Wilker, que faz o papel principal, diz que Cacá é um diretor que sabe exatamente o que quer. "A filmagem foi muito prazerosa, muito tranqüila. Cacá estava seguro nas orientações. Sabia exatamente o filme que queria fazer."

"Estudo muito o roteiro", explica o diretor, que costuma fazer pequenos ajustes nos diálogos, em função dos atores que escolhe. Ele definiu o conceito com o diretor de arte e o de fotografia, ensaiou com os atores - planejou muito para ficar à vontade na hora da filmagem. "Gosto muito de uma coisa que o (Federico) Fellini disse. Um jornalista perguntou se ele improvisava e o Fellini disse que sim, mas antes ensaiava muito".

História de um astrofísico que volta ao Brasil

"O Maior Amor do Mundo" conta a história desse astrofísico que vive no exterior e volta ao Brasil para uma homenagem. Ao descobrir que está morrendo, o herói, que é filho adotivo, procura o pai e, por meio dele, tenta resolver o mistério de sua origem biológica, buscando a mãe. Sua busca o leva ao mundo da favela e da marginalidade. Há uma surpresa que é bom não revelar para não estragar a emoção do desfecho.

A favela é, mais uma vez, o inferno na obra de Cacá e a busca de José Wilker o leva a reproduzir um tema freqüente na obra do diretor - o de Orfeu, descendo ao inferno em busca da sua amada Eurídice. Em "A Grande Cidade", é a retirante que busca, no morro, o namorado que virou bandido, Jasão. Em "Um Trem para as Estrelas", "Orfeu" e, agora, "O Maior Amor do Mundo", o tema mítico volta a se impor para o cineasta. "Gosto muito desse mergulho no inferno, desse se arriscar em nome do amor. Não se constrói uma utopia sem risco nem sacrifício e acho que é isso que me atrai tanto no Orfeu." São coisas que ele consegue racionalizar depois, mas um tanto difíceis de verbalizar durante o processo criativo.

Mais difícil, mais denso, dramático

Na obra do diretor, é freqüente que filmes extrovertidos como "Xica da Silva" e "Deus É Brasileiro", sejam seguidos por outros mais intimistas e até sombrios, como "Chuvas de Verão" e "O Maior Amor". Mas Cacá não planeja essas coisas, ou não planeja assim. Elas acontecem, muitas vezes de forma intuitiva. Ele foi construindo "O Maior Amor" e saiu essa mistura de "Orfeu" e "Chuvas de Verão". É um filme de um formato mais difícil, mais denso, dramático, mas é bobagem ficar dizendo essas coisas que talvez assustem o público. "É uma história que eu acho que valia contar e que, espero, comova tanto as pessoas como comoveu a mim, enquanto fazia."

Cacá não quer ser escravo do mercado, dessa idéia absurda de que é preciso fazer filmes para 1 milhão de espectadores. Ele até espera que "O Maior Amor" seja visto por muita gente, mas não é para acrescentar novo triunfo ao currículo e sim, porque acha que, no atual estado de esgarçamento das relações humanas e sociais no País, a estética e a ética têm de ser outras.

Tendo surgido no Cinema Novo - tendo feito com Glauber Rocha a revolução do Cinema Novo -, Cacá Diegues fez filmes alegóricos, carnavalescos, utópicos, sombrios. Eles são diferentes, mas possuem unidade. São obras de um autor. "Não gosto de rever meus filmes, mas às vezes ocorre ter de ver, porque vou fazer uma palestra, participar de um debate. Não gosto de ver porque a gente está sempre em mutação e é raro o filme que você não quer mudar. Mas eu tenho o maior orgulho dos filmes que fiz, nas condições em que fiz. Todo filme é sempre produto de um momento." Belo, como reflexão sobre o homem e o mundo, como realização, "O Maior Amor" não tem a beleza visual de outros trabalhos do diretor. A imagem é propositalmente suja e feia. Em "Orfeu", Cacá construiu uma favela cenográfica porque era arriscado invadir a favela real, como exigia a trama do filme. Aqui, de seus primeiros encontros com o diretor de arte Tulé Peake e o fotógrafo Lauro Escorel surgiu a decisão de que o filme seria feito em locação.

Visão assombrosa da miséria brasileira

Na tela, surge essa visão assombrosa da miséria brasileira, o lixão que se opõe ao mundo de classe média do pai de Antônio, o protagonista, e ao mundo do poder e do dinheiro no qual ele, como astrofísico, circula, na sua volta ao País. Cacá fez um filme com a cara e as contradições do Brasil. Sua indignação pelo País dos miseráveis é premente, mas "O Maior Amor" não é panfletário. É obra da maturidade de um artista em sintonia com sua época. Cacá cavucou no baú das lembranças. A imagem da derrota do Brasil na Copa de 1950 é coisa que ele carrega - naquele dia, Cacá viu seu pai chorar, como chorava o povo brasileiro. "É uma coisa muito forte. Metaforicamente, toda a grande cultura brasileira, o carnaval, a música, o futebol, é sempre obra dos derrotados socialmente", ele diz.

A recusa do jovem Antônio em participar da guerrilha gera uma das cenas mais emocionantes do filme - quando ele, como homem maduro, dedica a homenagem que está recebendo ao antigo amigo guerrilheiro e diz que deve ser belo morrer jovem, por aquilo em que se acredita. Não é um filme autobiográfico, mas geracional. Cacá usa o rap na trilha, mas também usa Chico Buarque, parceiro em "Quando o Carnaval Chegar", "Joanna Francesa" e "Bye-Bye Brasil". "Não pensei nisso durante a realização, mas depois tive muito essa sensação de que era um filme da nossa geração, o filme que o Chico faria, se fosse cineasta, em vez do grande músico e escritor que é."

O desafio está lançado. "O Maior Amor do Mundo" abre o que promete ser uma temporada de grandes filmes brasileiros. Logo em seguida virá o Festival do Rio, com essa grande vitrine da produção nacional que é a Première Brasil. Há muita expectativa pelos filmes que serão exibidos lá, por "Antônia", de Tata Amaral, por exemplo. Já existem certezas, como o delicado "O Céu de Suely", de Karin Aïnouz, e o emotivo "Eu me Lembro", de Edgar Navarro. Nem Cacá nem Karin e muito menos Navarro estão no mainstream do cinema brasileiro atual, com esses filmes, mas todos têm em comum a tristeza (além da alta qualidade). Uma cinematografia que produz filmes como os deles só pode estar no bom caminho.

O Maior Amor do Mundo (Brasil/2006, 106 min.) - Romance. Dir. Cacá Diegues. 16 anos. Cotação: Ótimo  

(© Agência Estado)

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