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O romantismo nordestino de Dominguinhos

10/06/2008

O pernambucano Dominguinhos

Sanfoneiro lança novo CD e apresenta filha

por Beto Feitosa

A sanfona de Dominguinhos é um dos símbolos máximos da música nordestina. Romântico mas sem deixar de lado os ritmos de sua terra, Dominguinhos está lançando Conterrâneos, seu primeiro trabalho solo em cinco anos.

Antigos fãs de Dominguinhos já sabem o que vão encontrar. Um compositor sensível, um cantor de estilo inconfundível e um sanfoneiro dos melhores. Dominguinhos escreveu seu nome na história da música brasileira como discípulo de Luiz Gonzaga, mas desenvolveu seu estilo próprio. Mas foi o rei do baião quem deu o primeiro impulso, batizando o artista e dando sua primeira sanfona. Também foi com Luiz Gonzaga que Dominguinhos fez sua primeira gravação, aos 16 anos.

A grande novidade nesse trabalho de Dominguinhos é a presença de sua filha, a cantora Liv Moraes que também está lançando um CD. Com o pai, Liv canta Doidinha pra dançar. Dominguinhos ainda convidou Guadalupe para cantar a faixa que batiza o CD e Wandonys em Eita Paraíba, parceria do artista com Chico Anísio e Sarah Bechimol.

Ao longo de Conterrâneos, Dominguinhos apresenta seus forrós, xotes e baiões com sotaque romântico. Apresenta novas composições como Cai fora, Vivendo a brincar, Oi que balanço bom, Duas frutinhas em parcerias com Wally Bianchi, Nando Cordel, Climério e Capinan. O disco fecha como tema instrumental I é?, forró instrumental que mostra a grande versatilidade do músico.

Entre as regravações, reverencia os mestres e amigos Luiz Gonzaga e Orlando Silveira em Acácia amarela. Autor das inesquecíveis Oh Suzana! e Eu tiro leite, o cantor e compositor paulista Bob Nelson é lembrado em Bença mãe.

(© Ziriguidum)


 
 

DOMINGUINHOS

Bença, conterrâneo

Henrique Nunes

Em se tratando de um álbum de Dominguinhos, o conjunto não surpreende: ao lirismo e regionalismo vocais e melódicos somam-se arranjos “modernos”, na sua mão e entre um ou outro instrumentista. Como de praxe, nada de virtuosismo: Dominguinhos canta e solta seu fole para alguns requebros, mas passa longe de exagerar na dose, dando vazão também aos trajetos mais melancólicos de suas teclas. Em “Conterrâneos”, o músico pernambucano tempera novamente seu canto e seu acordeom, simplesmente, com todo o seu amor pela música. Um sentimento universal, sem fronteiras

Fazia cinco anos que o “mestre” não registrava seu “forrozinho”. A última vez foi em “Elba Ramalho e Dominguinhos”. Sob as bênçãos visuais de Elifas Andreato, a delicadeza do projeto gráfico converge com a doçura das canções, parcerias e releituras de velhos amigos, entre arranjos divididos com o produtor, baixista, violonista, guitarrista e percussionista Sandro Haick e com o pianista Pepe Cisneros,

 
Reprodução
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O PERNAMBUCANO Dominguinhos renova todo o seu lirismo universal em “Conterrâneos”, um álbum sem fronteiras musicais, com ilustrações de Elifas Andreato
 

um cubano danado de bom, como comprovam outros trabalhos entre nossos músicos. A lado de Haick, ele é responsável pelo molho “moderno” do álbum, dando um jeito jazzy a alguns arranjos com seu rhodes. Em outros momentos, Dominguinhos e seus amigos preferem retomar suas raízes nordestinas como a principal referência.

Até quando toma essa direção rítmica matricial, Dominguinhos esbanja sua pureza sentimental, como ao rever “Como tudo começou”, de João Silva. A poética regional pode muito bem conviver com arranjos mais universais, como comprova, sobretudo, “Feito Mandacaru”, parceria com o piauiense Climério Ferreira. Uma letra telúrica, com gosto de amor da fruta, mas também moderna, cinematográfica, moldada por uma dolência natural que evoca todos os jazzismos de Sandro Haick, Pepo Cisneros e do guitarrista João Neto, entre a zabumba de Dió de Araújo. Até mesmo o Vaqueiro Alegre, Bob Nelson vai entrar nessa cadência: não com suas versões de

 
 
 
 
 

“Oh, Suzana!” e “Eu tiro leite!” que o consagraram como o primeiro cowboy brasileiro, mas com “Bença Mãe”, que aproximou o velho paulista do xote. Somos todos conterrâneos musicais, ensina Dominguinhos. Vem ensinando pela MPB afora.

E haja gente! E boa! João Sereno e Kaká Bahia assinam a lúdica, dolente, travessa e mítica “Tempo Menino”, com Dominguinhos, Cisneros e o triângulo de Fubá de Taperoá alegrando o saudosismo. Ao rhodes, João Neto e Sandro Haick dão o tom do jazz-miudinho que irá dar o tempero do resto do disco. A temática da infância voltará em uma das parcerias do acordeonista e cantador com Wally Bianchi, o baião “Vivendo a brincar”. Cisneros e sua gangue dão outro show pra todo mundo vibrar.

Dominguinhos fez a letra nordestinamente lírica e iconoclasta de “Cai Fora”, um baião agateado, dividido com Wally Bianchi, com Haick atacando na guitarra. Mais simplesmente nordestina, “Gavião peneirador” (do cearense Marcos Barreto Mello e Dominguinhos) mata a saudade de Gonzagão e Jackson do Pandeiro, com o coro formado por Guadalupe, Ângela e Ringo voando bonito. Guadalupe que fará o vocal na faixa-título, regalo dos mais suntuosos dos irmãos Clodo, Climério e Clésio Ferreira, com direito a duas performances especiais de Cisneros e Haick: um ao piano acústico, outro na percussão (violão, baixo...), sob a regência de Seu Domingos.

O lirismo de Dominguinhos se espraia junto ao “conterrâneo” Clodo, na regravação do lamento “Carece de explicação”. Também se espalha pela “Acácia amarela” (Luiz Gonzaga e Orlando Silveira), um baião com perfume de samba-canção, entre as baquetas de Dido e o violão do virtuoso Sandro Haick. Que se desdobra ao baixo e à guitarra dolentes doutro lamento, “Duas Frutinhas”, com o “machucado sanfoneiro” remexendo a poesia doutro “conterrâneo” velho de guerra, o baiano Capinan. Nessa levada, têm também as arribações de “Bença Mãe” (Bob Nelson), com Haick temperando, com jazz, o baixo e com blues, a guitarra e o violão.

“Por amor ao forró” aproxima Dominguinhos de Pinto do Acordeom. Uma delícia esta ajuizada “festa no piancó”. E com “jeitinho”, o dono da festa anima todo mundo com outro “chamego mansinho”, de sua lavra certeira com Nando Cordel, “Oi que balanço bom”. Depois, em “Doidinha pra dançar” (Zezum), é hora de o forrozinho esquentar com Dominguinhos levando o canto de Liv Moraes, que vem a ser sua filha, apresentando uma dupla que ainda vai dar o que falar. O baixo quase funk de Haick também dá o tom doutra animação só: “Eita, Paraíba” (Dominguinhos, Chico Anysio e Sarah Benchimol), um sarapatel brejeiro com vocais e acordeons do anfitrião mais o nosso Waldonys. Um balanço bom que continua em “Como tudo começou” (João Silva) e seu velho sabiá laranjeira, sua cumeeira velha e a velha alegria sentimental de Dominguinhos, nosso conterrâneo. “I é?”, pregunta na instrumental de última forma. É sim, seu Domingos.

SERVIÇO: “Conterrâneos” - Novo álbum do cantor, compositor e acordeonista Dominguinhos. 16 faixas, com letras. Lançamento: Eldorado/Distribuidora Independente. Preço médio: R$ 25,00.

(© Diário do Nordeste)

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