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10/06/2008
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O poeta
baiano Castro Alves, aos 16 anos |
Poeta é tema de livros e filmes, mantém legião de
seguidores e ainda é alvo de novas revelações
Maria do Rosário Caetano
Paraty homenageou Jorge Amado. Paulistas e baianos,
agora, preparam homenagens a Castro Alves (1847-1871), outro baiano ilustre.
Se depender da vontade de antigos estudantes da Faculdade de Direito da USP,
em breve o poeta baiano (e ex-aluno da escola do Largo de São Francisco)
ganhará busto igual ao de Álvares de Azevedo (1831-1852). “Uma herma”,
corrige José Carlos Madia de Souza, presidente da Associação de Antigos
Alunos da Faculdade de Direito. E esclarece: “Um herma é maior que um busto,
pois esculpe no bronze o homenageado da cintura para cima.”
Em Salvador, na semana passada, na Jornada de Cinema da Bahia, o cineasta
Nelson Pereira dos Santos, também ex-aluno da Faculdade de Direito da USP e
autor do roteiro Castro Alves - Guerra e Liberdade (que sonha filmar),
participou de colóquio literário ao lado da poeta Myriam Fraga (autora dos
livros Castro Alves - Mestres da Literatura e Leonídia, a Musa Infeliz de
Castro Alves) e do embaixador Alberto da Costa e Silva, que escreveu Castro
Alves - Perfis Brasileiros. Os três convidados da jornada trocaram idéias
com uma legião de fãs de Castro Alves.
O maior deles, sem dúvida, é Jorge A. Mello, que comanda a Cruzada Cultural
Castro Alves, veste-se como o poeta e com megafone na mão declama versos de
Navio Negreiro ou Vozes d’África. E, ainda por cima, vende de mão em mão
livreto, já em terceira edição, que soma pequenos textos à íntegra do poema
Navio Negreiro (Tragédia no Mar). Agora, Mello está empenhado em escrever o
livro O Tiro Fatal - O Drama de Castro Alves. Ele antecipa que suas
pesquisas “vão abalar o mito Eugênia Câmara”. Ou seja, a atriz portuguesa
que foi mulher e musa do poeta - para Mello - não merece clemência. “Ela
atirou em Castro Alves, acertando-o com um tiro na perna, em 4 de novembro
de 1868.”
O comandante da Cruzada Castro Alves garante: “O próprio poeta ajudou a
acobertar Eugênia, pois disse aos que o socorreram e ao próprio dr. Lopes,
que cuidou do grave ferimento, que fora vítima de tiro acidental disparado
da própria espingarda.” Castro Alves, que à época do tiro que lhe abreviaria
a vida, residia em São Paulo, teria enviado carta ao cunhado baiano, Augusto
Guimarães, narrando a mesma versão do acidente. Apesar dessas evidências,
Mello diz que vai “desfazer o mistério”, de preferência num programa de TV
de grande audiência, pois quer que “o Brasil e o mundo saibam que o amor
entre Castro Alves e Eugênia Câmara não foi a maravilha narrada pelos
biógrafos”, nem a contada no filme Vendaval Maravilhoso (Leitão de
Barros/1949). Neste filme, a atriz portuguesa foi interpretada pela fadista
Amália Rodrigues, e Castro Alves, pelo canastrão brasileiro, Paulo Maurício.
Jorge A . Mello faz questão de dizer que, para ele, Castro Alves é “mais que
um poeta da história brasileira”. É um “elo espiritual do passado ao
presente, que o eleva ao futuro”. Jura ter feito tudo para desvencilhar seu
destino do destino do poeta: “Mas foi impossível, pois todos os caminhos me
levam a ele.”. E arremata: “É como se ele tivesse me confiado a sua
verdadeira história. Tenho o dever de revelá-la para que ele encontre sua
paz espiritual.”
PAIXÃO SERENA
Nem todos os admiradores de Castro Alves são tão afoitos quanto o cruzado
Jorge A . Mello. Nelson Pereira dos Santos, empossado em julho na Academia
Brasileira de Letras (na cadeira que tem Castro Alves como patrono), admira,
com serenidade, o poeta dos escravos. “Isso acontece desde meus tempos de
menino, no bairro paulistano do Brás. Foi com gente simples que aprendi a
gostar do poeta.” Na juventude, “politicamente guerreira”, o gosto tomou
novos contornos, pois “ele era o modelo de artista militante e de homem que
amava e respeitava a mulher”. Agora, na maturidade, suas razões são
literárias: “A leitura de seus poemas, obras-primas da nossa literatura, dá
imenso prazer.” Nelson espera conseguir, antes de completar 80 anos (em
outubro de 2008), transformar o roteiro de Castro Alves - Guerra e Liberdade
em filme de ficção.
Sílvio Tendler, que dedicou um longa, mix de documentário e ficção, ao
poeta, integra o clube dos apaixonados por Castro Alves. E tem várias razões
para justificar sua adesão ao escritor baiano: “A ousadia, o arrebatamento,
a coragem e a qualidade dos seus versos românticos, políticos e épicos.” E
mais: “Por usar a poesia como instrumento de combate (“moralizar com a lira
é o fim mais augusto e sublime da poesia”), por tomar partido e antecipar-se
a seu tempo (antiescravagista, republicano, socialista e feminista - vide a
‘Carta às Senhoras Baianas’, na qual pede dinheiro para alforriar escravos e
defende o voto feminino).” Tendler chega a ver Castro Alves como “um
martiniano que, sem conhecer José Marti, louvou o mundo novo que surgia nas
Américas”. Para o diretor, Castro Alves “é a raiz de Glauber, Milton Santos
e outros baianos empenhados em mudar o Brasil”.
O diretor de Os Anos JK e Jango prepara o lançamento em DVD de todos os seus
filmes, incluindo curtas e médias pouco divulgados, entre ele Fragmentos do
Exílio. Castro Alves - Retrato Falado do Poeta, “mais vivo e atual do que
nunca na memória popular brasileira”, também será lançado. O cineasta
acredita que “escolas de primeiro e segundo graus são o público-alvo de seu
documentário ficcionado, no qual Bruno Garcia vive o poeta, Teresa Freire dá
vida a Eugênia Câmara, e Dira Paes faz Leonída, a prima que enlouqueceu de
tanto amor pelo poeta.
O embaixador Alberto da Costa e Silva, um dos maiores estudiosos da herança
africana no Brasil, é também admirador de Castro Alves. Coube a ele
escrever, para a coleção Perfis Brasileiros, da Companhia das Letras, o
retrato literário do poeta.
O livro traz quatro imagens do escritor. Sílvio Tendler diz que suas
pesquisas (para o filme) mostraram que “apenas cinco fotos do poeta chegaram
à posteridade”. Quatro delas estão no livro da Companhia das Letras. A
primeira mostra Castro Alves adolescente, aos 16 anos, com laço de fita em
forma de gravata-borboleta, num traje quase formal. Na segunda, ele aparece
na Faculdade de Direito, em SP, em 1865. Era já o galã que enlouquecia as
mulheres. A última das fotos internas do livro registra o poeta com bigode e
cabelos fartos, homem feito. Tudo indica que foi tirada antes que ele
sofresse o trágico acidente (o tiro de espingarda que o cruzado Jorge Mello
jura que foi dado por Eugênia). Na capa do livro de Costa e Silva, Castro
Alves aparece com chapéu coco, digno de figurar num verso de Aldir Blanc ou
num filme de Carlitos.
No livro Castro Alves, da Coleção Mestres da Literatura (Editora Moderna), a
pesquisadora baiana Myriam Fraga traz mais uma foto rara de Castro Alves: a
mais antiga , ao que tudo indica. Adolescente, ele aparece com 14 anos,
enorme gravata borboleta e olhos profundos, esboçando já a beleza que os
anos viriam a acentuar. As fotos pessoais de Castro Alves, seus familiares e
alguns contemporâneos foram catalogadas pelo Projeto Memória/1977,
financiado pela Construtora Odebrecht.
A mesma empresa encomendou ao artista plástico Juarez Paraíso - que
interpretou o bedel Pedro Arcanjo no filme Tenda dos Milagres (Nelson
Pereira/1977) - ilustrações para importante livro-álbum sobre Castro Alves.
Paraíso conta que a principal ilustração da série foi realizada a lápis de
cor e bico-de-pena e as demais com técnicas de arte digital. Para o artista
plástico (que foi tema de documentário de Thomaz Farkas), “Castro Alves não
é apenas um poeta genial”, mas sim e antes de tudo “um cidadão do mundo, uma
consciência universal, um homem ético que fez de sua sensibilidade criativa
um instrumento da solidariedade humana”. Emocionado, arremata: “Ele é o
artista-poeta que interpreta e constrói a beleza como sinônimo de vida e
dimensão da justiça, o artista de todos nós, a nossa própria consciência
contra a vergonha da escravidão.”
O embaixador Alberto da Costa e Silva conta que lê Castro Alves desde menino
e que sempre o teve como “um grande poeta, visual e musical ao mesmo tempo,
senhor das cores das palavras, com domínio da linguagem que é quase um
milagre num poeta tão jovem” (nunca é demais lembrar que Castro Alves morreu
com apenas 24 anos). Depois de perguntar - quem não gosta de um grande
poeta? - o embaixador diz: “Era generoso e arrebatado, mas capaz igualmente
da reflexão elegíaca e da indagação sobre a dor das coisas.”
O cineasta baiano Edgard Navarro, que prepara o lançamento do longa Eu me
Lembro, também é admirador assumido de Castro Alves. “Quando eu era criança,
meu pai vivia assoviando O Gondoleiro do Amor. Eu adorava, mas só depois
soube que os versos eram de Castro Alves. Meu livro de leitura no primário
trazia versos lindos do poeta dos escravos: Uma Cruz na Estrada. Volta e
meia ouvia alguém recitar comovido: ‘Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me
vós, senhor Deus, se deliro ou se é verdade, tanto horror perante os céus?’
Também fui alterado pela leitura do ABC de Castro Alves, escrito pelo Jorge
Amado e, claro, por aquela estátua onipresente na Praça do Povo e que
aparece no meu filme Superoutro (1989).”
Para ampliar a paixão de Navarro pelo poeta, vieram as coincidências: “Vim a
saber que Glauber (Rocha) tinha nascido no mesmo dia de Castro Alves: 14 de
março, que virou Dia da Poesia. O poeta morreu aos 24 anos e Glauber cismou
que morreria com a idade de 42 (24 ao contrário). Sou maluco o suficiente
para ter certeza de que, mesmo sem ter nascido em 14 de março, só vou morrer
aos 84” (risos).
(©
Agência Estado)
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