|
|
10/06/2008
O trio mais famoso do Alto José do Pinho lança seu quarto álbum da carreira, Flores com espinhos para o rei, segundo trabalho totalmente independente e o melhor de todos MARCOS TOLEDO Uma banda pop com o tempo que tem a recifense Devotos, 18 anos, por exposição logo se esgota. Cannibal (baixo e voz), Neilton (guitarra e design) e Celo Brown (bateria), contudo, passaram por tanta dificuldade ao longo da carreira (falta de acesso a equipamentos, nove anos para gravar o primeiro álbum, experiência negativa em grande gravadora) que agora, com o lançamento de seu quarto disco é que se pode dizer que o grupo está atingindo a maturidade musical para fazer trabalhos cada vez melhores. A Devotos está no auge. Flores com espinhos para o rei (independente, R$ 15) é o melhor CD da trajetória do trio mais famoso do Alto José do Pinho, um dos principais pólos artísticos do Estado, localizado na Zona Norte do Recife. Mais que uma banda, o grupo é hoje uma instituição, que produz ainda outros trabalhos musicais e desenvolve projetos sociais em sua comunidade, como os realizados pela ONG Alto Falante, que mantém no Alto a rádio comunitária homônima. É a realização do “sonho brasileiro”, do indivíduo da periferia que se estabelece honestamente preservando sua identidade. Poderia ser chamado de Devotos Social Clube – ao mesmo tempo em que instiga a consciência social, diverte seus admiradores. O novo álbum está menos (não muito) pancada, contudo, mais rock’n’roll, e com arranjos melhor elaborados. Os riffs de guitarra e o acompanhamento do contrabaixo são melhor identificados. Cannibal também encontrou sua melhor voz, embora mantenha o mesmo poder de seu grito de revolta característico. As letras também seguem com aquela verve e sede para dizer muitas verdades, bem adaptadas para o contexto atual. E o projeto gráfico do encarte continua expondo mais uma vertente do talento de Neilton. Para Neilton, do CD Hora da batalha (2003) – o primeiro totalmente independente, gravado no próprio estúdio da banda, no Alto – para Flores com espinhos... houve o tempo necessário do grupo encaminhar seus projetos sociais e pessoais. O resultado do novo trabalho, segundo ele, é resultado da maturidade adquirida pela autoprodução. “Parece que a gente fica mais exigente”, analisa. “Esse disco foi um desafio”, conta Cannibal. “Não colocamos músicas antigas (nos anteriores sempre havia versão de algum tema das fitas demo do início da carreira). É fruto da nossa convivência e das pessoas que vivem o cotidiano dessas músicas. É muito especial. Quando estamos tocando pensamos: ‘Isso pode não vender nada, mas está muito bom’”, revela o vocalista. ACERTOS – Da primeira experiência de fazer tudo por conta própria ficaram algumas lições. Celo lembra que o processo de composição foi mais tranqüilo. “A gente deixou fluir”, diz. Para Neilton, o CD de 2003, como pioneiro desse projeto pessoal, foi aquele em que absorveu todas as idéias. “Nesse, a gente trabalhou mais a parte musical.” Diferentemente do anterior, “para aliviar” a banda colocou a responsabilidade da mixagem nas mãos do experiente técnico Lindenberg Oliveira, que conhece o grupo desde que este se chamava Devotos do Ódio e dividia shows com a Arame Farpado, de Linde, na cena underground recifense. Banda ainda luta para ser entendida Estigmatizada como uma banda “punk-rock-hardcore” (como dizia um dos versos de seu primeiro disco), a Devotos mantém o mesmo estilo, porém, seus integrantes garantem que hoje o que menos ouvem é esse tipo de som. O guitarrista Neilton, por exemplo, tem curtido muito jazz, Cannibal acabou de comprar dois LPs de Ray Charles na última viagem, e Celo tem se ligado muito em Kings of Convenience. E esse comportamento, de alguma forma, tem influenciado (positivamente) o trabalho do grupo.No novo álbum Flores com espinhos para o rei, há duas participações especiais, dos músicos Adilson Ronrona e Lirinha. A primeira é certamente compreensível: Adilson integra o Matalanamão, grupo irmão do Alto José do Pinho. “Faz parte do cotidiano”, brinca Cannibal, em um dia inspirado, citado o título de uma canção do CD Hora da batalha. Já Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, estabeleceu uma relação quando foi visitar as gravações do disco anterior. “Não fazia sentido ele gravar (na época). Não havia nada planejado”, explica Cannibal. O convite acabou acontecendo para Flores com espinhos... “Em Pernambuco, o ecletismo é muito grande, mas as músicas têm as mesmas preocupações”, diz o vocalista. “A gente sempre quis trazer para perto quem a gente gosta. Para nós, não importa o que ele faz, mas o que ele é”, completa Cannibal falando que o mesmo se aplica a Dado Villa-Lobos (ex-Legião Urbana), que produziu o segundo álbum da Devotos, e a Chico Buarque, com quem gostaria de haver dividido a voz em Aos exilados, do mesmo CD. “A gente desencanou dessa politicagem punk. A gente faz música. Tem gente que ainda não sacou a Devotos”, dispara Cannibal. (© JC Online)
|
|
|||||