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Glauber Rocha inspira programa de debates

11/06/2008

Glauber Rocha, age 18

Glauber Rocha


Os cineastas Paula Gaitán e Eryk Rocha criaram o programa "Cinema e Pensamento", que estréia no dia 14 no Canal Brasil

Beatriz Coelho Silva

 
SÃO PAULO - Pensar o cinema é tão importante quanto fazer. E falar sobre o assunto dá tanto prazer quanto assistir a bons filmes. Com essas idéias na cabeça, os cineastas Paula Gaitán e Eryk Rocha (viúva e filho de Glauber Rocha) criaram o programa "Cinema e Pensamento", que estréia no dia 14 no Canal Brasil e teve uma prévia ontem, no Centro Cultural da Justiça Federal, dentro da programação do Festival do Rio. Serão quatro programas, sempre aos sábados, às 21 horas, em que o assunto é cinema e a conversa, ilustrada com filmes. Os temas serão política, documentários, processo criativo e a fronteira entre cinema e outras formas de expressão.

As falas, em sua maioria, são de debates realizados por Paula e Eryk desde 2002, juntando cineastas, roteiristas e críticos, sobre o papel dessa mídia hoje e no passado, especialmente a partir do Cinema Novo, movimento dos anos 60 que até hoje une os participantes. Não por acaso, nos quatro programas, um discurso de Glauber Rocha apresentando o programa "Abertura", na TV Tupi, em 1979, ‘costura’ os diversos depoimentos e trechos dos filmes. Na época, a distensão política começava e Glauber era crucificado pela esquerda por ter elogiado os militares que a concediam.

"Os debates que realizamos três anos seguidos foram fortes e achamos que deveriam ter mais divulgação. A parceria com o Canal Brasil chegou no momento ideal", disse Paula, após a exibição dos quatro programas, cada um com quase meia hora de duração. "A presença de Glauber se justifica porque ele era uma pessoa brilhante, um pensador à frente de seu tempo e eu queria saber se as questões que ele levantava há mais de 25 anos ainda são atuais."

São, sim. Especialmente quando ele fala da dificuldade de se colocar o cinema nacional nas salas do Brasil, segundo Glauber em "Abertura", 4 mil naquela época, mas menos de 500 em condições de uso. Sua fala se completa com a do diretor argentino Fernando Solanas, que define a relação do cinema com a TV e de como os cineastas devem (e podem) evitar trazer para a telona o que o público já vê na telinha. Há ainda fala da crítica Ivana Bentes, de Júlio Bressane, Suzana Amaral, Geraldo Sarno, do secretário de Audiovisual do Ministério da Educação Orlando Senna e muitos outros cineastas. O já falecido Joaquim Pedro de Andrade (cujo seminal "Macunaíma" acaba de ser restaurado) num tom mais contido, concorda com o discurso empolgado de Glauber.

Cenas de mais de 50 filmes do arquivo do Canal Brasil comentam as falas, ora com ironia, ora enfatizando o que é dito. Como pensar é atividade de filósofos, de 2004 para cá eles também participaram dos debates. Juan Posada, Alterives Maciel e outros misturam suas idéias com as dos cineastas, mas em momento nenhum se tenta chegar a uma conclusão. "Não queremos chegar a uma verdade comum a todos. Isso cabe ao jornalismo, que vende a verdade como dogma", avisa Eryk. "O importante é debater idéias, trazê-las à tona, porque cada um aprende com o pensamento do outro."

(© Agência Estado)


Cinema/análise/"O Maior Amor do Mundo"

Amor de Diegues é alegoria da alma

GERALD THOMAS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Olhando os absurdos rumos em que o mundo moderno se encontra, até dá para entender que um repórter, crítico, resenhista ou um jovem sem muita noção de história se olhe no espelho de manhã e se veja cercado de ficção. Sim, a realidade do mundo vira ficção. Nada mais justo então do que exigir da arte e daqueles que a criam o realismo.

Seguindo esse raciocínio, o lixo tem de ser lixo de verdade, uma favela tem de ser povoada por ratos e valas abertas, e o povo que a habita tem de parecer o retrato mais fiel do Haiti ou da Ruanda que conhecemos por reportagens sensacionalistas.

Eu me pergunto como este resenhista lidaria com filmes majestosos como o mar de plástico em "La Nave Va" ou em "Casanova", ambos de Fellini, o grande gênio do cinema. Ou como seriam as "duas" Carmens de Buñuel, quero dizer, as duas atrizes que alternavam o papel da cigana do magnífico cineasta papa do surrealismo? Essa exigência do realismo é um porre, e Cacá Diegues nunca teve compromisso com ele, apesar de nos dar pequenas doses dele por livre e espontânea vontade.

"O Maior Amor do Mundo" talvez venha a ser um dos maiores e melhores filmes do mundo. O que me leva a dizer isso? Talvez não seja tão simples assim explicar. Cacá Diegues é, antes de mais nada, um filósofo, um poeta, um músico, um pintor. Ah, sim, é um CINEASTA encantado e desconfiado (ao mesmo tempo) por aquilo que sempre o comoveu: a alma humana. Não, não me expresso bem. Digo, a alma humana em suas questões mais primárias e mais cruéis, frias, calculistas e...
Vulneráveis. Cacá Diegues é apaixonado pela raça humana, mas nem por isso declara seu amor de uma forma vulgar. Sendo assim, seu compromisso, ou melhor, seu melhor filme, "O Maior Amor do Mundo" está muito mais ligado a alegorias, analogias, metáforas, metalinguagens do que o compromisso do naturalismo que exigem desse gênio a esta altura do campeonato. Fico pasmo, realmente.

Porque para expressar esse maior amor pelo mundo não se pode nem passar perto do realismo. Se passar, garanto, vira um seriado de TV americano, daqueles que passam à tarde no canal 1109 aqui em Nova York.

Cacá está muito perto de García Márquez no sentido de estar alerta e conhece a sua "craft" como ninguém! Ao contrário do resto de sua obra, estamos diante de vários paradoxos, dilemas. Um deles cabe ao Wilker (o ator, não o astrofísico... o personagem -ai, como me dói usar esse termo, personagem por ser a mentirinha que é), o de se enxergar dentro desse "pool" de outros atores. Ao olhar em volta, enxerga-se num universo. Faz um auto-reconhecimento e olha em volta: nota o vasto leque de interpretações e background sociais de onde vem essa turma enorme que o cerca. Parte do sucesso cabe ao Cacá, de criar o clima de como encaminhar essas "culturas" e de fazer com que cada "ser" ali se enxergue como o resultado de um "produto humano" nessa bola giratória, nesse imenso universo.

Não é por acaso que seu personagem é um astrofísico. Cabe a ele a análise (ou a observação) de vários universos: o social, o cultural, e esse imenso escuro povoado por gálaxias onde, segundo Haroldo de Campos, tudo é tudo e nada é nada.

Show de Wilker

Wilker dá um show de "method acting", no melhor estilo Lee Strasberg. Sérgio Brito parece ter se calcado no próprio Cacá de "Os Herdeiros" (Sérgio Cardoso), e a meninada segue o curso normal das coisas, ou seja, reage como se estivesse entrelaçando interpretação com representação, com uma normalidade de dar inveja a Stanislavski, ou Scorsese, ou Capra. É simplesmente mágico. E como explicá-lo sem cair em banalidades? Não existem fórmulas para fazer um filme tão belo e cruel e tão catártico.

"O Maior Amor do Mundo" é sedutor, lindo de morrer, comovente como nunca. Wilker, um aristocrata, acaba atraído, assim como um "planeta negro" ("dead star"; aquela massa que acaba sendo engolida pelo buraco negro), pelo objeto de sua repulsa: a pobreza. Só que dentro da pobreza existe o encanto, os cantos de Ezra Pound, o canto do poeta, a miséria poética (sim, aquela que todo intelectual idealiza e a burguesia se culpa por ela, tópico numero um do tratado de Lênin), e o Carnaval e dilúvio de "Orfeu", obra do próprio Cacá, é prova disso.

A figura angelical da mãe morta durante o parto, assim como a sutileza de meros gestos como o embrulho de lanches feitos para venda... São coisas tão peculiares a esse contador alegórico da alma humana que quero matar aquele que lhe exija um lixo assimétrico!

Mais sobre o filme eu não quero dizer, porque ele é obrigatório, sendo o ponto mais alto na vida do nosso mais importante cineasta. Se ainda existem aqueles que acreditam -não acredito- nessa mentirinha psicótica de Hollywood de se criar "personagens" e vivê-los até a hora de abrir o armário de casa, perdão: procurem um psicanalista.

Os maiores e melhores personagens já existem e estão ali diante das câmeras de Diegues com suas próprias vidas, loucos para dar seus depoimentos travestidos com um texto, o mais belo de todos, iluminados e fotografados, e dirigidos melhor que nunca por esse mestre, absoluto mestre do cinema universal que se chama Cacá Diegues.

GERALD THOMAS é diretor e autor teatral.

(© Folha de S. Paulo)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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