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 Para não esquecer Hermilo

 

 Hermilo Borba Filho
 

Apesar de fundamental, o autor pernambucano, que hoje faria 90 anos, não tem sua obra valorizada como deveria

Hermilo Borba Filho, hoje, é apenas um nome de teatro no Cais do Apolo, no Recife, embora tenha sido o responsável por implantar a modernidade no teatro brasileiro fora do eixo Rio-São Paulo. Intelectual inquieto e irrequieto, foi dramaturgo, contista, romancista, tradutor, pesquisador, cronista, professor universitário e animador cultural. Só no teatro conseguiu escrever, traduzir, encenar e dirigir. Esteve envolvido em quase 70 peças, além de ter escrito alguns dos livros mais revolucionários da literatura brasileira do século 20. Nem assim é reconhecido pelos pernambucanos. “Os seus livros nunca foram reeditados como fizeram com a obra de Ariano Suassuna”, desabafa a atriz, produtora e ex-mulher Leda Alves, Leocádia Alves da Silva, por batismo, ou Leo minha, por Hermilo.

Preocupado com a criação de uma estética nordestina, Hermilo fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), essencial para a carreira de dramaturgo de Ariano Suassuna, criou o curso de formação de ator da Escola de Belas Artes, que formou gerações de atores e cenógrafos, e fundou o Teatro Popular Nacional (TPN), que revitalizou a cena teatral no Recife em bases profissionais. Incansável, criou o Teatro de Arena, o primeiro palco não italiano na cidade, num casarão alugado na Av. Conde da Boa Vista, com livraria, lanchonete, salas de ensaio, camarins e espaço para exposições. O primeiro centro cultural da cidade.

Maldito e popular, Hermilo conciliou o erotismo e o palavrão com elementos da cultura nordestina como o bumba-meu-boi e o mamulengo. Até quando encenava clássicos gregos e modernos mantinha a preocupação de se fazer entender pelo público. Em Andorra, de Jean Anouilh, usou cartazes para orientar a ação dramática que trata do preconceito. Em A Pena e a lei, de Ariano, simulou um teatro de bonecos com atores. Em Antígona, de Sófocles, atualizou a peça retirando os trajes gregos.

Na intimidade, Hermilo foi pai presente e marido carinhoso. Generoso e amigo, era disciplinado e disposto a ajudar os novos talentos. “Ele marcou a todos que estiveram ao seu redor”, sintetiza a filha Eliane Borba.

Em homenagem aos 90 anos, que Hermilo comemoraria hoje, o JC revisita a obra esquecida do pernambucano de Palmares, onde a fundação que cuidaria da divulgação da sua obra é um prédio oco no centro da sua terra natal. Os textos foram escritos por Bruna Cabral, Paulo Sérgio Scarpa e Schneider Carpeggiani.

(© JC Online)


Um pioneiro que vivia fora do eixo

Mais conhecido como dramaturgo, o versátil Hermilo Borba Filho foi também um dos autores mais inovadores da literatura brasileira

Schneider Carpeggiani

carpeggiani@gmail.com

Na foto de Hermilo Borba Filho estampada na Biblioteca Municipal de Palmares, ele aparece de sorriso aberto com sua biblioteca ao fundo. Entre os livros na estante, um exemplar de Sexus, de Henry Miller, chama a atenção. O escritor norte-americano foi responsável por vários dos grandes escândalos literários do início do século passado. Com uma linguagem crua, Miller descrevia detalhes das suas aventuras sexuais, o que muitas vezes encobria a qualidade da sua obra. Até hoje em dia, Miller é sinônimo de... sacanagem.

Aproximar Miller de Hermilo não é exagero. Se nas peças do pernambucano o sexo não era o ponto mais importante, na sua ficção a história era bem diferente: passagens sexuais transbordavam pelas páginas. Algumas cruas, descritivas. Outras, flertando abertamente com o realismo maravilhoso, típico da literatura latino-americana, mas com eco reduzido no Brasil. Essa aproximação com o fantástico é outra característica da obra de Hermilo, hoje um autor que você praticamente só encontra, e com sorte, pelos sebos.

É possível pensar que houve dois Hermilos: um o ficcionista, o outro, o autor teatral. Na ficção, ele não só lançava mão de descrições sexuais, como exacerbava seu engajamento político. “Sim, é possível pensar em dois Hermilos, porque logo em Caminhos da solidão, seu primeiro romance, Hermilo procurou evitar, por exemplo, os elementos do regionalismo, escrevendo uma obra mais ligada a uma literatura de liberdades, com elementos interiores, sem vínculos com o documental, mesmo que estivesse falando sobre o fim dos engenhos, a ascensão das usinas, e a chegada do trem de ferro. Elementos documentais, sem dúvida, mas tratados com a preocupação estética que marcaria a sua obra definitivamente”, afirma o escritor Raimundo Carrero, que foi amigo e admirador da ficção de Hermilo.

Para Carrero, Hermilo é detentor de uma das obras mais importantes da literatura brasileira do século passado, a tetralogia Um cavalheiro da segunda decadência. “Esses volumes formam um imenso painel da vida pernambucana no século 20, e mais uma vez sem ser regional. Avança para aspectos definidores da estética do romance pernambucano, com os avanços interiores, elaborados a partir de circunstâncias verdadeiras ou ficcionadas, de acordo com a necessidade narrativa. Verdade e invenção se adensando para criar novas perspectivas litrárias em Pernambuco”, continua Carrero.

É notório que Hermilo Borba Filho trouxe a modernidade para o teatro brasileiro, ao se vincular ao movimento regionalista de 30 de Gilberto Freyre. Uma modernidade fora do eixo. Na sua literatura, o autor foi ainda mais longe: seus romances traziam inovações que davam de ombros para rigores. Em Agá, foi o primeiro autor brasileiro a colocar um HQ no meio da narrativa, como forma de protestar contra a ditadura. Essas ilustrações pioneiras ficaram a cargo do artista plástico Zé Cláudio.

No fim da vida, Hermilo decidiu que iria se dedicar apenas à ficção. Decisão que ele levou adiante apenas pela metade. “Hermilo reescrevia suas peças dentro das tramas dos livros, colocava desenhos, ilustrações. Se o termo existisse naquela época, ele seria considerado um autor pós-moderno. Hermilo foi também um tradutor, que traduziu nomes como Borges”, ressalta o pesquisador Luís Reis, que finaliza tese de doutorado sobre o teatro do autor no Departamento de Letras da UFPE.

Para Carrero, o desejo de se dedicar apenas à ficção foi coerente com o caráter do autor: “a literatura sempre possibilita mais liberdade ao escritor. Pelo fato de conhecer limitações. De alguma forma, o teatro ocupa um espaço, e todo espaço fixo era danoso a Hermilo. Ele precisava sempre de mais caminho, de mais avanço, de mais liberdade. Sem isso não podia ser um artista. Avançou muito, avançou mais. Até chegar a Ambulantes de Deus, que reuniu tanto o popular quanto o erudito”.

Apesar de ter sido um pioneiro, Hermilo, o ficcionista, é hoje em dia pouco mais que um grande segredo, soterrado pelo pó dos sebos do Recife.

(© JC Online)


Memória do dramaturgo vai se perdendo em Palmares

“Tão pensando em reabrir isso aí, é? Precisa mais não, agora todo mundo tem DVD em casa”, grita um motoboy quando a reportagem do JC chega à frente do Cineteatro Apolo, no centro de Palmares. Fundado em 1914, esse é o cineteatro mais antigo do interior e o terceiro do Estado. Em 1984, ele passou a abrigar a Fundação Casa de Cultura Hermilo Borba Filho, então a primeira instituição nesses moldes fora do Recife. Hoje em dia é pouco mais que uma fachada, com cadeado na porta e pintura morta pelo tempo. Até o ano passado, o espaço ainda tinha faixa anunciando sua reforma. Hoje em dia, nem isso.

O Cineteatro Apolo está desativado há seis anos, e em 1994 foi transformado em patrimônio histórico do Estado. No final do ano passado, uma ordem de serviço da Fundarpe anunciou sua reforma. “Como houve a mudança de governo, estamos esperando uma outra ordem, que deve sair ainda este ano”, diz Douglas Miranda Marques, presidente da Fundação Casa de Cultura Hermilo Borba Filho, que funciona há quatro anos de forma precária na antiga estação ferroviária de Palmares. O espaço hoje abriga aulas de música e artesanato, gratuitamente oferecidas ao público, em salas precárias, franciscanas. Há ainda uma minúscula biblioteca com alguns dos livros de Hermilo, a maioria deles do romance Agá, hoje em dia varrido das livrarias.

Palmares não merece crédito apenas por ter o primeiro cineteatro do interior do Estado. Em 1882, a cidade passou a abrigar uma iniciativa pioneira para a época: o Clube Literário de Palmares, que reunia os intelectuais da cidade em torno de uma das principais coleções de livro do Nordeste, com obras raras, de diversos países. “Hermilo teve acesso a esse material, que foi muito importante para a iniciação cultural dele. Em um dos seus livros, ele já falava que o Clube estava em decadência”, explica o pesquisador Luís Reis.

Hermilo, já adulto, viu o Clube Literário ser transformado em Clube Social, abrigando as principais festas de Palmares de meados do século passado. Em 1968, o espaço foi transformado na Biblioteca Municipal Fenelon Barreto. A biblioteca ainda conserva quase 2000 mil obras do Clube Literário. Dessa coleção, vários títulos são do início do século 19 e são guardados em grandes estantes de madeira, sem qualquer cuidado especial. “Os livros precisam ser conservados, temos um verdadeiro tesouro aqui, mas faltam recursos. Além disso, a biblioteca está há anos sem atualização, só temos livros antigos”, revela a diretora Renilda Araújo.

Mais sorte teve a casa-grande onde Hermilo nasceu, no Engenho Verde, a 20 minutos do centro de Palmares. A construção foi transformada numa pousada, que recebe turistas, a maioria deles estrangeiros, interessados em conhecer as cachoeiras da região. É a Engenho Verde Recepção e Turismo. Na sala, a administração manteve uma escrivaninha da família do escritor, com alguns dos seus livros expostos. (S.C.)

(© JC Online)


Carella desvenda o sexo e o erotismo nas ruas do Recife

Paulo Sérgio Scarpa
scarpa@jc.com.br

O escritor e militante homossexual João Silvério Trevisan delicia-se com o erotismo tropical que provocou o argentino Tulio Carella (1912-1979) nas ruas do Recife. Dramaturgo, crítico de teatro e roteirista, Carella chegou ao Recife em 1961 para dar aulas de direção e cenografia na Escola de Belas Artes do Recife a convite de Hermilo Borba Filho. O resultado dessa experiência está em Orgia, livro que escreveu em espanhol e que Hermilo traduziu e publicou pela José Álvaro Editor (RJ/1968).

Com capa de Aloísio Magalhães, Orgia é considerado, hoje, uma relíquia porque nunca foi reeditado, mas sua fama se deve ao conteúdo. O argentino com quase dois metros de altura, que gostava de usar terno branco e deixou a mulher em Buenos Aires, relatou suas experiências sexuais e desvendou uma realidade que teimava ficar submersa. Apaixonou-se por negros, entregou-se a desconhecidos e mergulhou no sexo. E criou uma espécie de diário de sua saga homossexual pelos becos e banheiros da capital pernambucana.

Em Devassos do paraíso, Trevisan reproduz trechos do livro, onde Carella descreve a sua “primeira vez” com um sarará de 22 anos, apelidado de King-Kong. E esse sexo inaugural é descrito em duas páginas classificadas por Trevisan como “algumas das mais belas páginas de erotismo homossexual”. Carella é autor de peças teatrais (Don Basílio mal casado, Clorinda la descontenta, Herencia e Juan Basura) e de ensaios (Tango, Mito y esencia, El sainete criollo e Picaresca porteña).

Orgia foi o primeiro volume de um projeto interrompido. Integra a Coleção Erótica da José Álvaro Editor, coordenada por Hermilo Borba Filho e Aldomar Conrado. Na definição de Hermilo, o livro “pode situar-se ao lado dos chamados livros malditos do século atual, aproximando-se da literatura confessional de Santo Agostinho, Rousseau, Restif de la Bretonne, Sade e, nos dias atuais, a Henry Miller e Jean Genet, embora o estilo de Tulio Carella se revele da maneira mais particular possível, no seu texto alternando as cenas altamente eróticas com as de maior contrição religiosa, de tudo se destacando o tema terrível da solidão, do homem à procura de si mesmo”.

Tulio deixou o Recife em 1964. Os militares acharam que era subversivo. Preso, apanhou e foi deportado para a Argentina.

(© JC Online)


Atividades em homenagem a Hermilo se encerram hoje

Hoje é o último dia da 6ª Semana Hermilo Borba Filho, iniciada na última sexta-feira no Centro Apolo-Hermilo, em homenagem ao dramaturgo.

A programação terá início a partir das 19h, com três lançamentos, a começar pela revista Continente multicultural e o suplemento de cultura do Diário Oficial do Estado, Pernambuco. Ambas as publicações trazem cadernos em homenagem a Hermilo. A primeira com o encarte especial Documento. O segundo, com o tablóide Saber +. Completa a lista, o livro A palavra de Hermilo, organizado por Leda Alves e Juareiz Correya, com edição da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).

Em seguida, haverá a série de testemunhos Hermilo, o criador, com depoimentos do pintor José Cláudio, o músico Zoca Madureira, a psicóloga Janice Hulak e o diretor da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, Carlos Reis.

A programação se encerra com o espetáculo Mucurana, adaptação do conto O peixe, de Hermilo Borba Filho. A montagem tem direção de Carlos Carvalho, responsável também pela adaptação, o cenário e os adereços. Trata-se de um espetáculo brechtiano, despido de aparatos, onde o ator é o centro das atenções. Um teatro que busca ser canal efetivo de diálogo com o povo, bem ao estilo do homenageado.

Integram o elenco, Asaias Zazá (que assina o figurino junto com o diretor), Flávio Renovatto, Gilberto Brito, Olga Torres, Patrícia Moreira e Soraya Silva. A direção musical é de Kléber Santana e a iluminação, de Eron Villar.

» Semana Hermilo Borba Filho. A partir das 19h, no Centro Apolo-Hermilo (Av. Martin Luther King, s/nº, Bairro do Recife). Informações: 3232-2028 ou 3232-2030.

(© JC Online)


No teatro, um abridor de veredas

Para Ariano Suassuna e outros intelectuais, a obra de Hermilo Borba Filho era comprometida com o povo e muito à frente do seu tempo

Bruna Cabral
bruna@gmail.com

“Abridor de veredas e apontador de caminhos.” É assim que Ariano Suassuna, contemporâneo, amigo e intrépido companheiro de muitas realizações teatrais e literárias no Recife e fora da cidade define o homem de teatro Hermilo Borba Filho. Moderno numa época de muitos regionalistas, ele conseguiu desconstruir as manifestações populares nordestinas, para fazer uso de suas cores e características principais numa obra que dialoga perfeitamente com todas as tradições da dramaturgia ocidental. “De fato, foi com sua lição, mais do que com a de qualquer outro, que todos nós nos encontramos, quando, aí por 1946, procurávamos uma poesia, uma pintura, um romance, uma música e, sobretudo, um teatro, que, ligando-se à tradição do romanceiro popular nordestino, não nos deixassem presos aos limites, para nós por demais estreitos, do regionalismo”, sintetiza Suassuna.

O teatro que Hermilo começou a fazer no Recife a partir da década de 40 é, segundo o pesquisador Luís Reis, que prepara tese de doutorado sobre o autor para o Departamento de Letras da UFPE, um dos principais pilares da modernidade de Pernambuco. “Se hoje existe um conceito de teatro nordestino, encabeçado por nomes como Ariano Suassuna e Luiz Marinho, isso se deve a Hermilo”, diz.

Hermilo começou sua carreira de teatrólogo traduzindo e produzindo peças no Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), grupo que existe até hoje. “Durante quatro anos, montou peças importantes lá, mas, jovem idealista, começou a se incomodar com o fato de atingir apenas um público elitizado, numa época em que no Santa Isabel, onde eram encenadas as peças do TAP, só era permitido entrar de paletó”, diz Luís Reis. Para popularizar o teatro, funda, com Ariano Suassuna, o Teatro de Estudantes (TEP), quando tinha 29 anos. O grupo chegou a realizar várias encenações em barracas montadas no meio de praças e ruas, a maioria de textos do próprio Borba Filho e de Ariano Suassuna, a quem apresentou os palcos e morreu considerando o maior dramaturgo brasileiro.

“Nessa época, o pensamento de Hermilo que era, acima de tudo, um intelectual, tinha forte influência do poeta espanhol Frederico García Lorca”, diz Reis. O que ele queria, diz, era escrever um teatro mais democrático e sempre questionador. Por isso enchia seus textos de palavrões e referências a manifestações populares, como o bumba-meu-boi, pastoril, mamulengo e fandango. “Bebeu dessas tradições e tirou muitas boas lições”, diz a ex-mulher e produtora, Leda Alves. Algumas dessas lições fez questão de aplicar à vida pessoal também. “Pelo menos uma vez por semana, ele se sentava com o capitão do Boi Misterioso da Mustardinha para conversar sobre todas as coisas.” Foi com ele que aprendeu a máxima que transformou em uma marca sua: só existe um caminho, o resto são veredas. E ele percorreu várias.

Trocou o Recife pela capital paulista no início da década de 50. Lá trabalhou como jornalista e diretor de teatro. Voltou ao Recife quase dez anos depois, quando fundou o Teatro Popular do Nordeste (TPN), sempre em busca de um texto menos ilusionista e mais fiel ao realismo fantástico típico do Nordeste.

Sob sua tutela, o teatro popular encena, entre outros textos, A Farsa da boa preguiça, A pena e a lei, Processo do diabo e A caseira e a Catarina, todas peças de Ariano Suassuna. Pouco tempo depois, as atividades do TPN são interrompidas devido a dificuldades financeiras, sendo retomadas somente seis anos depois, quando o grupo volta à cena com casa de espetáculo própria, com 90 lugares. A casa manteve a linha ideológica questionadora, mas manteve também a má situação financeira. E até na hora de driblar o déficit, Hermilo conseguiu ser moderno. Para atrair estudantes e operários, fez convênios com entidades de classe do comércio e da indústria. Sem sucesso. No final da década de 60, o TPN fecha definitivamente as portas.

Mesmo numa época muito conturbada politicamente, Hermilo não abria mão de suas convicções ideológicas, o que lhe rendeu muita patrulha e alguma perseguição da ditadura. Mas parecia que a censura servia como combustível para sua ousadia cênica. Nessa época, até Ariano, companheiro de muitos anos, chegou a afastar-se de Hermilo. Foi quando fundou, com Alfredo de Oliveira e Graça Melo, o Teatro de Arena, o primeiro palco não italiano e centro cultural da cidade, com livraria, lanchonete, salas de ensaio, camarins e espaço para exposições.

A melhor tradução do teatro que Hermilo criou e recriou ao longo da vida vem de Benjamim Santos, um dos integrantes do TPN, que em artigo escrito quatro anos após a morte do autor disse: “Ele fazia um teatro com o canto, a dança, a máscara, o boneco, o bicho... uma recriação do espírito popular nordestino (...), o homem brasileiro posto no palco com toda a sua luta, o sofrimento, a derrota, a insistência, a vitória, um teatro de intensidade emocional e crítica, um teatro vivo, aberto, sem a ilusão da quarta parede, permitindo ao público a compreensão maior de sua própria história. O teatro como um ato político e religioso a um só tempo.”

(© JC Online)


Familiares lembram amor de Hermilo

Bruna Cabral
bruna@jc.com.br

Paulo Sérgio Scarpa
scarpa@jc.com.br

A primeira imagem ainda é a de um homem sentado numa cadeira de balanço cantando para a filha dormir, numa casa na Rua do Cupim. A última, esse mesmo homem no leito de morte num hospital do Recife, em 1976, curioso para saber se o Sport venceu o Náutico. “Zero a zero”, disse a filha alvirrubra. “Não me engane, não, sei pela sua cara que o Náutico venceu”, contestou o rubro-negro. Depois, a última frase que ouviu do pai: “Será que a gente vai a mais um jogo juntos?”.

Entre as duas cenas, Eliane Borba, a caçula dos quatro filhos de Hermilo Borba Filho e Débora, lembra que conviveu com o pai apenas 20 anos. “Mas tive uma infância maravilhosa, sem preconceitos nem regras. A única exigência era a de jamais brigar com os irmãos e respeitar os pais. Depois, convivi com um amigo. Ele foi um pai presente, mesmo quando deixou minha mãe. Era generoso e aberto ao diálogo, amigo dos amigos”, lembra. E a casa de Hermilo sempre esteve cheia de intelectuais, atores, artistas. “Quando acabavam os ensaios, lá pela meia-noite, minha mãe ia cozinhar para aquele batalhão”.

Eliane, atual supervisora de finanças do Teatro Santa Isabel, sintetiza o que foi conviver com um pai intelectual, popular e admirado. “Nunca o vi como homem público porque os famosos é que iam lá em casa. Lá, ninguém dormia sem ler pelo menos duas páginas. E o livro que ele lia primeiro passava para minha mãe ler e ela para os filhos Gilberto, Alfredo, Neusa e eu”, recorda. E nunca houve censura naquela família.

Alfredo Sérgio Borba foi o único filho que foi fazer teatro, preferiu ser ator a escrever, dirigir ou traduzir. A consciência da presença do pai começa aos dois anos de idade, quando se lembra protegido nos ombros de Hermilo numa noite de chuva. Mas diz que a figura paterna esteve ausente de sua vida. “Como Gilberto era sete anos mais velho do que eu, meu pai foi criança comigo, depois foi um adolescente ao meu lado e adulto quando decidi aos 20 anos deixar o Recife para fazer teatro no Rio”. Na hora da despedida, o recado sincero: “Do portão para dentro, você tem tudo. Quando sair, terá de quebrar a cabeça”. Mas Hermilo dizia que se realizava através de Alfredo porque, com uma família para cuidar, nunca pôde se dedicar inteiramente ao teatro.

Como Alfredo sempre foi fanático por cinema, tinha no pai um companheiro constante. “Ele me levava para ver todos os filmes, sem distinção e sempre ensinando a pronunciar os nomes dos artistas”, conta. Alfredo, que dirige o Centro de Documentação Osman Lins, da Prefeitura do Recife, lembra que, no Rio, as portas nunca se fecharam para ele porque era filho de Hermilo. “Ele nos ensinou a disciplina e o profissionalismo.”

Para Leda Alves, mulher que teve “o privilégio” de conviver com ele durante seus últimos oito anos de vida, Hermilo era uma pessoa fácil de conviver. “Já acordava bem-humorado”, lembra Leda. Os dois se conheceram no final da década de 50, quando ele era professor dela na UFPE, mas só alguns anos depois ficaram juntos. “Ele era um companheiro maravilhoso, seu amor era feminino”, lembra Leda. E sem limites. “Para ele, quando duas pessoas queriam, nada era imoral.”

Com a mesma profundidade que vivia o amor, vivia também qualquer outra coisa. Inclusive a boemia. “Quando jovem, ele conheceu os bordéis a noite e ficou encantado. Mas, como uma gota de óleo na água, saiu limpo disso tudo”, diz.

No cotidiano dos dois, Hermilo era um homem pacato e bastante regrado. Escrevia de manhã, dava aulas à tarde e dedicava a noite ao teatro. Mas sempre reservava um tempinho para jovens autores. “Ele lia tudo que lhe encaminhavam e chamava os autores para conversar depois. Quando considerava a obra pronta, colocava debaixo do braço e ia atrás de quem a publicasse”, conta. Com os amigos, era mais generoso ainda. Além de tolerante e completamente sem preconceitos. “Lá em casa, só não entrava torturador e traidor”, diz Leda, que diz ter se dedicado a Hermilo com toda a força que seu amor exigia. “Depois que o TPN fechou, saí de cena para ser contra-regra de Hermilo. Todo grande espetáculo precisa de um, que mal há nisso? Ele nunca produziu tanto.” Foi desse espetáculo que encenaram juntos por oito anos que Leda diz tirar a força para se manter de pé até hoje.

(© JC Online)

 

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