Apesar de
fundamental, o autor pernambucano, que hoje faria 90 anos, não tem sua obra
valorizada como deveria
Hermilo Borba Filho, hoje, é apenas um nome de teatro no Cais do Apolo, no
Recife, embora tenha sido o responsável por implantar a modernidade no
teatro brasileiro fora do eixo Rio-São Paulo. Intelectual inquieto e
irrequieto, foi dramaturgo, contista, romancista, tradutor, pesquisador,
cronista, professor universitário e animador cultural. Só no teatro
conseguiu escrever, traduzir, encenar e dirigir. Esteve envolvido em quase
70 peças, além de ter escrito alguns dos livros mais revolucionários da
literatura brasileira do século 20. Nem assim é reconhecido pelos
pernambucanos. “Os seus livros nunca foram reeditados como fizeram com a
obra de Ariano Suassuna”, desabafa a atriz, produtora e ex-mulher Leda
Alves, Leocádia Alves da Silva, por batismo, ou Leo minha, por Hermilo.
Preocupado com a
criação de uma estética nordestina, Hermilo fundou o Teatro do Estudante de
Pernambuco (TEP), essencial para a carreira de dramaturgo de Ariano
Suassuna, criou o curso de formação de ator da Escola de Belas Artes, que
formou gerações de atores e cenógrafos, e fundou o Teatro Popular Nacional
(TPN), que revitalizou a cena teatral no Recife em bases profissionais.
Incansável, criou o Teatro de Arena, o primeiro palco não italiano na
cidade, num casarão alugado na Av. Conde da Boa Vista, com livraria,
lanchonete, salas de ensaio, camarins e espaço para exposições. O primeiro
centro cultural da cidade.
Maldito e
popular, Hermilo conciliou o erotismo e o palavrão com elementos da cultura
nordestina como o bumba-meu-boi e o mamulengo. Até quando encenava clássicos
gregos e modernos mantinha a preocupação de se fazer entender pelo público.
Em Andorra, de Jean Anouilh, usou cartazes para orientar a ação dramática
que trata do preconceito. Em A Pena e a lei, de Ariano, simulou um teatro de
bonecos com atores. Em Antígona, de Sófocles, atualizou a peça retirando os
trajes gregos.
Na
intimidade, Hermilo foi pai presente e marido carinhoso. Generoso e amigo,
era disciplinado e disposto a ajudar os novos talentos. “Ele marcou a todos
que estiveram ao seu redor”, sintetiza a filha Eliane Borba.
Em homenagem
aos 90 anos, que Hermilo comemoraria hoje, o JC revisita a obra esquecida do
pernambucano de Palmares, onde a fundação que cuidaria da divulgação da sua
obra é um prédio oco no centro da sua terra natal. Os textos foram escritos
por Bruna Cabral, Paulo Sérgio Scarpa e Schneider Carpeggiani.
(©
JC Online)
Um pioneiro que vivia
fora do eixo
Mais
conhecido como dramaturgo, o versátil Hermilo Borba Filho foi também um dos
autores mais inovadores da literatura brasileira
Schneider Carpeggiani
carpeggiani@gmail.com
Na foto de
Hermilo Borba Filho estampada na Biblioteca Municipal de Palmares, ele
aparece de sorriso aberto com sua biblioteca ao fundo. Entre os livros na
estante, um exemplar de Sexus, de Henry Miller, chama a atenção. O escritor
norte-americano foi responsável por vários dos grandes escândalos literários
do início do século passado. Com uma linguagem crua, Miller descrevia
detalhes das suas aventuras sexuais, o que muitas vezes encobria a qualidade
da sua obra. Até hoje em dia, Miller é sinônimo de... sacanagem.
Aproximar
Miller de Hermilo não é exagero. Se nas peças do pernambucano o sexo não era
o ponto mais importante, na sua ficção a história era bem diferente:
passagens sexuais transbordavam pelas páginas. Algumas cruas, descritivas.
Outras, flertando abertamente com o realismo maravilhoso, típico da
literatura latino-americana, mas com eco reduzido no Brasil. Essa
aproximação com o fantástico é outra característica da obra de Hermilo, hoje
um autor que você praticamente só encontra, e com sorte, pelos sebos.
É possível
pensar que houve dois Hermilos: um o ficcionista, o outro, o autor teatral.
Na ficção, ele não só lançava mão de descrições sexuais, como exacerbava seu
engajamento político. “Sim, é possível pensar em dois Hermilos, porque logo
em Caminhos da solidão, seu primeiro romance, Hermilo procurou evitar, por
exemplo, os elementos do regionalismo, escrevendo uma obra mais ligada a uma
literatura de liberdades, com elementos interiores, sem vínculos com o
documental, mesmo que estivesse falando sobre o fim dos engenhos, a ascensão
das usinas, e a chegada do trem de ferro. Elementos documentais, sem dúvida,
mas tratados com a preocupação estética que marcaria a sua obra
definitivamente”, afirma o escritor Raimundo Carrero, que foi amigo e
admirador da ficção de Hermilo.
Para Carrero,
Hermilo é detentor de uma das obras mais importantes da literatura
brasileira do século passado, a tetralogia Um cavalheiro da segunda
decadência. “Esses volumes formam um imenso painel da vida pernambucana no
século 20, e mais uma vez sem ser regional. Avança para aspectos definidores
da estética do romance pernambucano, com os avanços interiores, elaborados a
partir de circunstâncias verdadeiras ou ficcionadas, de acordo com a
necessidade narrativa. Verdade e invenção se adensando para criar novas
perspectivas litrárias em Pernambuco”, continua Carrero.
É notório que
Hermilo Borba Filho trouxe a modernidade para o teatro brasileiro, ao se
vincular ao movimento regionalista de 30 de Gilberto Freyre. Uma modernidade
fora do eixo. Na sua literatura, o autor foi ainda mais longe: seus romances
traziam inovações que davam de ombros para rigores. Em Agá, foi o primeiro
autor brasileiro a colocar um HQ no meio da narrativa, como forma de
protestar contra a ditadura. Essas ilustrações pioneiras ficaram a cargo do
artista plástico Zé Cláudio.
No fim da
vida, Hermilo decidiu que iria se dedicar apenas à ficção. Decisão que ele
levou adiante apenas pela metade. “Hermilo reescrevia suas peças dentro das
tramas dos livros, colocava desenhos, ilustrações. Se o termo existisse
naquela época, ele seria considerado um autor pós-moderno. Hermilo foi
também um tradutor, que traduziu nomes como Borges”, ressalta o pesquisador
Luís Reis, que finaliza tese de doutorado sobre o teatro do autor no
Departamento de Letras da UFPE.
Para Carrero,
o desejo de se dedicar apenas à ficção foi coerente com o caráter do autor:
“a literatura sempre possibilita mais liberdade ao escritor. Pelo fato de
conhecer limitações. De alguma forma, o teatro ocupa um espaço, e todo
espaço fixo era danoso a Hermilo. Ele precisava sempre de mais caminho, de
mais avanço, de mais liberdade. Sem isso não podia ser um artista. Avançou
muito, avançou mais. Até chegar a Ambulantes de Deus, que reuniu tanto o
popular quanto o erudito”.
Apesar de ter
sido um pioneiro, Hermilo, o ficcionista, é hoje em dia pouco mais que um
grande segredo, soterrado pelo pó dos sebos do Recife.
(©
JC Online)
Memória do dramaturgo
vai se perdendo em Palmares
“Tão pensando em
reabrir isso aí, é? Precisa mais não, agora todo mundo tem DVD em casa”,
grita um motoboy quando a reportagem do JC chega à frente do Cineteatro
Apolo, no centro de Palmares. Fundado em 1914, esse é o cineteatro mais
antigo do interior e o terceiro do Estado. Em 1984, ele passou a abrigar a
Fundação Casa de Cultura Hermilo Borba Filho, então a primeira instituição
nesses moldes fora do Recife. Hoje em dia é pouco mais que uma fachada, com
cadeado na porta e pintura morta pelo tempo. Até o ano passado, o espaço
ainda tinha faixa anunciando sua reforma. Hoje em dia, nem isso.
O Cineteatro
Apolo está desativado há seis anos, e em 1994 foi transformado em patrimônio
histórico do Estado. No final do ano passado, uma ordem de serviço da
Fundarpe anunciou sua reforma. “Como houve a mudança de governo, estamos
esperando uma outra ordem, que deve sair ainda este ano”, diz Douglas
Miranda Marques, presidente da Fundação Casa de Cultura Hermilo Borba Filho,
que funciona há quatro anos de forma precária na antiga estação ferroviária
de Palmares. O espaço hoje abriga aulas de música e artesanato,
gratuitamente oferecidas ao público, em salas precárias, franciscanas. Há
ainda uma minúscula biblioteca com alguns dos livros de Hermilo, a maioria
deles do romance Agá, hoje em dia varrido das livrarias.
Palmares não
merece crédito apenas por ter o primeiro cineteatro do interior do Estado.
Em 1882, a cidade passou a abrigar uma iniciativa pioneira para a época: o
Clube Literário de Palmares, que reunia os intelectuais da cidade em torno
de uma das principais coleções de livro do Nordeste, com obras raras, de
diversos países. “Hermilo teve acesso a esse material, que foi muito
importante para a iniciação cultural dele. Em um dos seus livros, ele já
falava que o Clube estava em decadência”, explica o pesquisador Luís Reis.
Hermilo, já
adulto, viu o Clube Literário ser transformado em Clube Social, abrigando as
principais festas de Palmares de meados do século passado. Em 1968, o espaço
foi transformado na Biblioteca Municipal Fenelon Barreto. A biblioteca ainda
conserva quase 2000 mil obras do Clube Literário. Dessa coleção, vários
títulos são do início do século 19 e são guardados em grandes estantes de
madeira, sem qualquer cuidado especial. “Os livros precisam ser conservados,
temos um verdadeiro tesouro aqui, mas faltam recursos. Além disso, a
biblioteca está há anos sem atualização, só temos livros antigos”, revela a
diretora Renilda Araújo.
Mais sorte
teve a casa-grande onde Hermilo nasceu, no Engenho Verde, a 20 minutos do
centro de Palmares. A construção foi transformada numa pousada, que recebe
turistas, a maioria deles estrangeiros, interessados em conhecer as
cachoeiras da região. É a Engenho Verde Recepção e Turismo. Na sala, a
administração manteve uma escrivaninha da família do escritor, com alguns
dos seus livros expostos. (S.C.)
(©
JC Online)
Carella desvenda o sexo
e o erotismo nas ruas do Recife
Paulo Sérgio
Scarpa
scarpa@jc.com.br
O escritor e
militante homossexual João Silvério Trevisan delicia-se com o erotismo
tropical que provocou o argentino Tulio Carella (1912-1979) nas ruas do
Recife. Dramaturgo, crítico de teatro e roteirista, Carella chegou ao Recife
em 1961 para dar aulas de direção e cenografia na Escola de Belas Artes do
Recife a convite de Hermilo Borba Filho. O resultado dessa experiência está
em Orgia, livro que escreveu em espanhol e que Hermilo traduziu e publicou
pela José Álvaro Editor (RJ/1968).
Com capa de
Aloísio Magalhães, Orgia é considerado, hoje, uma relíquia porque nunca foi
reeditado, mas sua fama se deve ao conteúdo. O argentino com quase dois
metros de altura, que gostava de usar terno branco e deixou a mulher em
Buenos Aires, relatou suas experiências sexuais e desvendou uma realidade
que teimava ficar submersa. Apaixonou-se por negros, entregou-se a
desconhecidos e mergulhou no sexo. E criou uma espécie de diário de sua saga
homossexual pelos becos e banheiros da capital pernambucana.
Em Devassos
do paraíso, Trevisan reproduz trechos do livro, onde Carella descreve a sua
“primeira vez” com um sarará de 22 anos, apelidado de King-Kong. E esse sexo
inaugural é descrito em duas páginas classificadas por Trevisan como
“algumas das mais belas páginas de erotismo homossexual”. Carella é autor de
peças teatrais (Don Basílio mal casado, Clorinda la descontenta, Herencia e
Juan Basura) e de ensaios (Tango, Mito y esencia, El sainete criollo e
Picaresca porteña).
Orgia foi o
primeiro volume de um projeto interrompido. Integra a Coleção Erótica da
José Álvaro Editor, coordenada por Hermilo Borba Filho e Aldomar Conrado. Na
definição de Hermilo, o livro “pode situar-se ao lado dos chamados livros
malditos do século atual, aproximando-se da literatura confessional de Santo
Agostinho, Rousseau, Restif de la Bretonne, Sade e, nos dias atuais, a Henry
Miller e Jean Genet, embora o estilo de Tulio Carella se revele da maneira
mais particular possível, no seu texto alternando as cenas altamente
eróticas com as de maior contrição religiosa, de tudo se destacando o tema
terrível da solidão, do homem à procura de si mesmo”.
Tulio deixou
o Recife em 1964. Os militares acharam que era subversivo. Preso, apanhou e
foi deportado para a Argentina.
(©
JC Online)
Atividades em homenagem
a Hermilo se encerram hoje
Hoje é o último
dia da 6ª Semana Hermilo Borba Filho, iniciada na última sexta-feira no
Centro Apolo-Hermilo, em homenagem ao dramaturgo.
A programação
terá início a partir das 19h, com três lançamentos, a começar pela revista
Continente multicultural e o suplemento de cultura do Diário Oficial do
Estado, Pernambuco. Ambas as publicações trazem cadernos em homenagem a
Hermilo. A primeira com o encarte especial Documento. O segundo, com o
tablóide Saber +. Completa a lista, o livro A palavra de Hermilo, organizado
por Leda Alves e Juareiz Correya, com edição da Companhia Editora de
Pernambuco (Cepe).
Em seguida,
haverá a série de testemunhos Hermilo, o criador, com depoimentos do pintor
José Cláudio, o músico Zoca Madureira, a psicóloga Janice Hulak e o diretor
da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, Carlos Reis.
A programação
se encerra com o espetáculo Mucurana, adaptação do conto O peixe, de Hermilo
Borba Filho. A montagem tem direção de Carlos Carvalho, responsável também
pela adaptação, o cenário e os adereços. Trata-se de um espetáculo
brechtiano, despido de aparatos, onde o ator é o centro das atenções. Um
teatro que busca ser canal efetivo de diálogo com o povo, bem ao estilo do
homenageado.
Integram o
elenco, Asaias Zazá (que assina o figurino junto com o diretor), Flávio
Renovatto, Gilberto Brito, Olga Torres, Patrícia Moreira e Soraya Silva. A
direção musical é de Kléber Santana e a iluminação, de Eron Villar.
» Semana
Hermilo Borba Filho. A partir das 19h, no Centro Apolo-Hermilo (Av. Martin
Luther King, s/nº, Bairro do Recife). Informações: 3232-2028 ou 3232-2030.
(©
JC Online)
No teatro, um abridor
de veredas
Para Ariano
Suassuna e outros intelectuais, a obra de Hermilo Borba Filho era
comprometida com o povo e muito à frente do seu tempo
Bruna Cabral
bruna@gmail.com
“Abridor de
veredas e apontador de caminhos.” É assim que Ariano Suassuna,
contemporâneo, amigo e intrépido companheiro de muitas realizações teatrais
e literárias no Recife e fora da cidade define o homem de teatro Hermilo
Borba Filho. Moderno numa época de muitos regionalistas, ele conseguiu
desconstruir as manifestações populares nordestinas, para fazer uso de suas
cores e características principais numa obra que dialoga perfeitamente com
todas as tradições da dramaturgia ocidental. “De fato, foi com sua lição,
mais do que com a de qualquer outro, que todos nós nos encontramos, quando,
aí por 1946, procurávamos uma poesia, uma pintura, um romance, uma música e,
sobretudo, um teatro, que, ligando-se à tradição do romanceiro popular
nordestino, não nos deixassem presos aos limites, para nós por demais
estreitos, do regionalismo”, sintetiza Suassuna.
O teatro que
Hermilo começou a fazer no Recife a partir da década de 40 é, segundo o
pesquisador Luís Reis, que prepara tese de doutorado sobre o autor para o
Departamento de Letras da UFPE, um dos principais pilares da modernidade de
Pernambuco. “Se hoje existe um conceito de teatro nordestino, encabeçado por
nomes como Ariano Suassuna e Luiz Marinho, isso se deve a Hermilo”, diz.
Hermilo
começou sua carreira de teatrólogo traduzindo e produzindo peças no Teatro
de Amadores de Pernambuco (TAP), grupo que existe até hoje. “Durante quatro
anos, montou peças importantes lá, mas, jovem idealista, começou a se
incomodar com o fato de atingir apenas um público elitizado, numa época em
que no Santa Isabel, onde eram encenadas as peças do TAP, só era permitido
entrar de paletó”, diz Luís Reis. Para popularizar o teatro, funda, com
Ariano Suassuna, o Teatro de Estudantes (TEP), quando tinha 29 anos. O grupo
chegou a realizar várias encenações em barracas montadas no meio de praças e
ruas, a maioria de textos do próprio Borba Filho e de Ariano Suassuna, a
quem apresentou os palcos e morreu considerando o maior dramaturgo
brasileiro.
“Nessa época,
o pensamento de Hermilo que era, acima de tudo, um intelectual, tinha forte
influência do poeta espanhol Frederico García Lorca”, diz Reis. O que ele
queria, diz, era escrever um teatro mais democrático e sempre questionador.
Por isso enchia seus textos de palavrões e referências a manifestações
populares, como o bumba-meu-boi, pastoril, mamulengo e fandango. “Bebeu
dessas tradições e tirou muitas boas lições”, diz a ex-mulher e produtora,
Leda Alves. Algumas dessas lições fez questão de aplicar à vida pessoal
também. “Pelo menos uma vez por semana, ele se sentava com o capitão do Boi
Misterioso da Mustardinha para conversar sobre todas as coisas.” Foi com ele
que aprendeu a máxima que transformou em uma marca sua: só existe um
caminho, o resto são veredas. E ele percorreu várias.
Trocou o
Recife pela capital paulista no início da década de 50. Lá trabalhou como
jornalista e diretor de teatro. Voltou ao Recife quase dez anos depois,
quando fundou o Teatro Popular do Nordeste (TPN), sempre em busca de um
texto menos ilusionista e mais fiel ao realismo fantástico típico do
Nordeste.
Sob sua
tutela, o teatro popular encena, entre outros textos, A Farsa da boa
preguiça, A pena e a lei, Processo do diabo e A caseira e a Catarina, todas
peças de Ariano Suassuna. Pouco tempo depois, as atividades do TPN são
interrompidas devido a dificuldades financeiras, sendo retomadas somente
seis anos depois, quando o grupo volta à cena com casa de espetáculo
própria, com 90 lugares. A casa manteve a linha ideológica questionadora,
mas manteve também a má situação financeira. E até na hora de driblar o
déficit, Hermilo conseguiu ser moderno. Para atrair estudantes e operários,
fez convênios com entidades de classe do comércio e da indústria. Sem
sucesso. No final da década de 60, o TPN fecha definitivamente as portas.
Mesmo numa
época muito conturbada politicamente, Hermilo não abria mão de suas
convicções ideológicas, o que lhe rendeu muita patrulha e alguma perseguição
da ditadura. Mas parecia que a censura servia como combustível para sua
ousadia cênica. Nessa época, até Ariano, companheiro de muitos anos, chegou
a afastar-se de Hermilo. Foi quando fundou, com Alfredo de Oliveira e Graça
Melo, o Teatro de Arena, o primeiro palco não italiano e centro cultural da
cidade, com livraria, lanchonete, salas de ensaio, camarins e espaço para
exposições.
A melhor
tradução do teatro que Hermilo criou e recriou ao longo da vida vem de
Benjamim Santos, um dos integrantes do TPN, que em artigo escrito quatro
anos após a morte do autor disse: “Ele fazia um teatro com o canto, a dança,
a máscara, o boneco, o bicho... uma recriação do espírito popular nordestino
(...), o homem brasileiro posto no palco com toda a sua luta, o sofrimento,
a derrota, a insistência, a vitória, um teatro de intensidade emocional e
crítica, um teatro vivo, aberto, sem a ilusão da quarta parede, permitindo
ao público a compreensão maior de sua própria história. O teatro como um ato
político e religioso a um só tempo.”
(©
JC Online)
Familiares lembram amor
de Hermilo
Bruna Cabral
bruna@jc.com.br
Paulo Sérgio
Scarpa
scarpa@jc.com.br
A primeira
imagem ainda é a de um homem sentado numa cadeira de balanço cantando para a
filha dormir, numa casa na Rua do Cupim. A última, esse mesmo homem no leito
de morte num hospital do Recife, em 1976, curioso para saber se o Sport
venceu o Náutico. “Zero a zero”, disse a filha alvirrubra. “Não me engane,
não, sei pela sua cara que o Náutico venceu”, contestou o rubro-negro.
Depois, a última frase que ouviu do pai: “Será que a gente vai a mais um
jogo juntos?”.
Entre as duas
cenas, Eliane Borba, a caçula dos quatro filhos de Hermilo Borba Filho e
Débora, lembra que conviveu com o pai apenas 20 anos. “Mas tive uma infância
maravilhosa, sem preconceitos nem regras. A única exigência era a de jamais
brigar com os irmãos e respeitar os pais. Depois, convivi com um amigo. Ele
foi um pai presente, mesmo quando deixou minha mãe. Era generoso e aberto ao
diálogo, amigo dos amigos”, lembra. E a casa de Hermilo sempre esteve cheia
de intelectuais, atores, artistas. “Quando acabavam os ensaios, lá pela
meia-noite, minha mãe ia cozinhar para aquele batalhão”.
Eliane, atual
supervisora de finanças do Teatro Santa Isabel, sintetiza o que foi conviver
com um pai intelectual, popular e admirado. “Nunca o vi como homem público
porque os famosos é que iam lá em casa. Lá, ninguém dormia sem ler pelo
menos duas páginas. E o livro que ele lia primeiro passava para minha mãe
ler e ela para os filhos Gilberto, Alfredo, Neusa e eu”, recorda. E nunca
houve censura naquela família.
Alfredo
Sérgio Borba foi o único filho que foi fazer teatro, preferiu ser ator a
escrever, dirigir ou traduzir. A consciência da presença do pai começa aos
dois anos de idade, quando se lembra protegido nos ombros de Hermilo numa
noite de chuva. Mas diz que a figura paterna esteve ausente de sua vida.
“Como Gilberto era sete anos mais velho do que eu, meu pai foi criança
comigo, depois foi um adolescente ao meu lado e adulto quando decidi aos 20
anos deixar o Recife para fazer teatro no Rio”. Na hora da despedida, o
recado sincero: “Do portão para dentro, você tem tudo. Quando sair, terá de
quebrar a cabeça”. Mas Hermilo dizia que se realizava através de Alfredo
porque, com uma família para cuidar, nunca pôde se dedicar inteiramente ao
teatro.
Como Alfredo
sempre foi fanático por cinema, tinha no pai um companheiro constante. “Ele
me levava para ver todos os filmes, sem distinção e sempre ensinando a
pronunciar os nomes dos artistas”, conta. Alfredo, que dirige o Centro de
Documentação Osman Lins, da Prefeitura do Recife, lembra que, no Rio, as
portas nunca se fecharam para ele porque era filho de Hermilo. “Ele nos
ensinou a disciplina e o profissionalismo.”
Para Leda
Alves, mulher que teve “o privilégio” de conviver com ele durante seus
últimos oito anos de vida, Hermilo era uma pessoa fácil de conviver. “Já
acordava bem-humorado”, lembra Leda. Os dois se conheceram no final da
década de 50, quando ele era professor dela na UFPE, mas só alguns anos
depois ficaram juntos. “Ele era um companheiro maravilhoso, seu amor era
feminino”, lembra Leda. E sem limites. “Para ele, quando duas pessoas
queriam, nada era imoral.”
Com a mesma
profundidade que vivia o amor, vivia também qualquer outra coisa. Inclusive
a boemia. “Quando jovem, ele conheceu os bordéis a noite e ficou encantado.
Mas, como uma gota de óleo na água, saiu limpo disso tudo”, diz.
No cotidiano
dos dois, Hermilo era um homem pacato e bastante regrado. Escrevia de manhã,
dava aulas à tarde e dedicava a noite ao teatro. Mas sempre reservava um
tempinho para jovens autores. “Ele lia tudo que lhe encaminhavam e chamava
os autores para conversar depois. Quando considerava a obra pronta, colocava
debaixo do braço e ia atrás de quem a publicasse”, conta. Com os amigos, era
mais generoso ainda. Além de tolerante e completamente sem preconceitos. “Lá
em casa, só não entrava torturador e traidor”, diz Leda, que diz ter se
dedicado a Hermilo com toda a força que seu amor exigia. “Depois que o TPN
fechou, saí de cena para ser contra-regra de Hermilo. Todo grande espetáculo
precisa de um, que mal há nisso? Ele nunca produziu tanto.” Foi desse
espetáculo que encenaram juntos por oito anos que Leda diz tirar a força
para se manter de pé até hoje.
(©
JC Online)
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