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27/07/2007
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Grafite em túnel do Recife homenageia o
criador do Mangue Beat
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Conheça a história do Mangue Beat, mistura de rock com maracatu
idealizada por Chico Science que abriu caminho para a cultura da
periferia do Recife e conquistou admiradores mundo afora
Texto, fotos e vídeos de João Mauro Araújo, especial para a Repórter
Brasil
Dez anos atrás, um acidente automobilístico tirava a vida de Chico
Science, o músico que promoveu a fusão entre maracatu e rock e, com
isso, agitou o cenário artístico do Recife, dando origem ao
movimento que ficou conhecido como Mangue Beat - numa referência aos
próprios mangues, abundantes na cidade.
Ao aliar a batida forte de tambores com o som distorcido de
guitarras elétricas, Science criou um gênero musical que
conquistaria admiradores pelo Brasil afora e também no exterior,
onde ele e sua banda, a Nação Zumbi, realizaram algumas turnês. Com
letras ao mesmo tempo bem-humoradas e recheadas de crítica social,
ele influenciou não só músicos, como artistas de outras áreas.
Além de colocar, na década de 1990, a capital pernambucana na
vanguarda da produção musical, o Mangue Beat teve o mérito de
despertar a auto-estima da juventude da periferia, ao valorizar as
manifestações artísticas de grupos locais e tradicionais.
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Mangue Beat associou complexidade dos
manguezais a cena musical diversificada |
Corria o segundo semestre de 1992 quando um release com um título
estranho - "Caranguejos com cérebro" - chegou à redação dos
principais jornais do Recife. O texto, considerado o primeiro
manifesto do Mangue Beat, falava de um grupo que vinha realizando
eventos musicais na capital pernambucana e nos municípios de Olinda
e Jaboatão dos Guararapes. Inspirados na biodiversidade dos
manguezais, os jovens que integravam esse movimento pretendiam criar
um gênero que unisse elementos da cultura popular com as vibrações
sonoras mundiais.
A grande projeção que as bandas Chico Science &
Nação Zumbi e Mundo Livre S/A alcançaram, principalmente em meados
da década de 1990, além de estimular a formação de novos conjuntos
locais, teve forte influência sobre outros segmentos da produção
artística pernambucana. Com o passar do tempo, porém, o movimento
foi perdendo fôlego, e muitos músicos abandonaram o rótulo Mangue.
Mesmo estes, no entanto, reconhecem a importância do papel dos
"mangueboys" nos alicerces da cena atual.
Dez anos após o acidente de carro que vitimou Chico Science -
notável articulador do movimento -, em fevereiro de 1997, a
diversidade cultural introduzida pelo Mangue Beat continua a dar
frutos. Basta acompanhar, durante o carnaval, as apresentações no
palco do Pólo Mangue do Morro, no centro antigo do Recife, para
constatar que ainda há muita gente tirando energia da lama.
Origem
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As preocupações sociais de Chico Science
são atribuídas à influência do pai, Francisco Luís França,
que chegou a ser vereador em Olinda |
A temática do mangue sempre esteve presente na obra de eminentes
escritores, que reproduziram as imagens da penosa interação das
pessoas pobres com esse ecossistema no cotidiano recifense. Perto do
desfecho de Morte e Vida Severina, por exemplo, João Cabral de Melo
Neto (1920-99) expõe ao personagem retirante a dramática situação
dos mocambos, a partir do discurso de um de seus moradores: "Minha
pobreza tal é/ que não trago presente grande:/ trago para a mãe
caranguejos/ pescados por esses mangues;/ mamando leite de lama/
conservará nosso sangue". Já o professor Josué de Castro (1908-73)
chegou a afirmar: "Não foi na Sorbonne nem em qualquer outra
universidade sábia que travei conhecimento com o fenômeno da fome. A
fome se revelou espontaneamente aos meus olhos nos mangues do
Capibaribe, nos bairros miseráveis do Recife. (...) homens e
caranguejos nascidos à beira do rio, à medida que iam crescendo, iam
cada vez se atolando mais na lama".
Ao contrário dos poetas que o
antecederam, Francisco de Assis França, o Chico Science, conseguiu
enxergar riqueza naquela paisagem pantanosa. Sua idéia foi associar
a complexidade orgânica dos manguezais a uma proposta de cena
musical diversificada.
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Repentes e literatura de cordel
acompanharam infância do compositor |
Nascido no Recife, Science foi batizado com nome de santo por sua
mãe, Rita Marques de França, que sonhava ver o filho padre. Ela
conta com orgulho as peripécias do menino nos teatrinhos da igreja,
embora já soubesse que aquele "não era o caminho dele". Dona Rita
recorda que o avô de "Chiquinho" trazia repentistas para cantar em
Surubim (PE), sua cidade natal: "Meu pai era apaixonado por tocador
de viola e gostava muito daqueles folhetos, romances, que comprava e
pedia para eu ler". Esse gosto foi transmitido ao neto, pois,
segundo parentes e amigos, Science era também apreciador da
literatura de cordel. Esses trabalhos poéticos - em que se contam
histórias de Lampião, Antônio Conselheiro, causos policiais, pelejas
clássicas... - seriam retomados nas letras do cantor.
As
apresentações nos palcos e nos videoclipes gravados com a banda
Nação Zumbi traziam sempre, também, referências a caranguejos, que
Chico Science conhecia desde os quatro anos de idade, quando a
família mudou para o bairro de Rio Doce, em Olinda. A irmã Maria
Goretti Lima relembra essa época, quando ele costumava brincar de
apanhá-los com os amigos: "Perto de casa havia um rio e um manguezal
enorme. Às vezes apareciam alguns caranguejos até no nosso quintal".
Já as preocupações sociais e uma certa inclinação política do
Malungo (palavra de origem africana que significa "companheiro"),
como Science também era conhecido, costumam ser atribuídas à
influência do pai, Francisco Luís França, que compara o filho à
estrela-d´alva, por conta da luz que se apaga de maneira repentina.
Técnico de enfermagem na área de saúde ocupacional, primeiro em
hospital, depois na indústria, seu França militou no sindicato dos
enfermeiros, no Recife, e chegou a ser vereador de Olinda. Vestindo
um avental branco, os olhos ocultos por trás dos óculos escuros, ele
conta que, certa vez, chegou a ser demitido por defender o direito
dos trabalhadores.
Atualmente, seu França trabalha no Espaço Ciência, um imenso
museu a céu aberto localizado entre Recife e Olinda. No pavilhão de
exposições onde desempenha suas funções, há algumas fotos de Chico
Science. Fora do prédio, o artista também é lembrado, e a homenagem
não poderia ser melhor: desde outubro de 1997 o local onde fica a
trilha ecológica do parque leva seu nome. A área, de aproximadamente
20 mil metros quadrados, é o que restou de um manguezal depois dos
aterros realizados na segunda metade do século passado sobre o
estuário dos rios Beberibe e Capibaribe.
(©
Reporter Brasil)
Pop com maracatu
Reunião singular de gêneros musicais como rap, soul, ciranda
e maracatu, Mangue Beat surge no início dos anos 90 em Recife unindo
o moderno ao tradicional
Texto, fotos e vídeos de João Mauro Araújo, especial para a
Repórter Brasil
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Meninos do projeto Daruê Malungo, de
onde saiu parte do Nação Zumbi |
Em meados de 1980, Chico Science integrava um grupo de break (dança
de rua) chamado Legião Hip Hop, que se apresentava nas rodas
semanais do Parque 13 de Maio, no centro do Recife. Como as pontes
que interligam os bairros da capital pernambucana, o movimento hip
hop é uma verdadeira teia de elos entre as diversas vertentes da
música negra. Com a ajuda do sampler, equipamento que mistura sons
para dar cadência às letras de rap, ali podem ser ouvidos todos os
frutos da "grande árvore" africana: soul, funk, blues, jazz...
Nessa mesma época, nas proximidades do Mercado São José, nas
feiras e praças, já marcava presença uma espécie de rap nacional,
muito anterior à chegada do hip hop. Era a embolada, em que
normalmente as duplas cantam versos improvisados ou decorados, com
acompanhamento de pandeiro em compasso binário. Science com certeza
não ignorava isso.
Após uma viagem que fez a São Paulo em 1988, da qual voltou ainda
mais empolgado com o movimento hip hop, Malungo, como era chamado
pelos amigos, montou a banda de rap Orla Orbe e engajou-se na
organização de festivais desse gênero. Logo, porém, passou para o
rock, à frente do grupo Loustal - nome inspirado num gibi francês
que Science colecionava -, que já contava com a participação de dois
dos futuros integrantes da Nação Zumbi.
São muitas as histórias de grupos famosos que surgiram por mera
casualidade, como aconteceu, por exemplo, com a banda
norte-americana The Doors, formada a partir do reencontro, numa
praia, do vocalista Jim Morrison com o tecladista Ray Manzarek,
ex-colega de faculdade. No caso do Mangue Beat, também ocorreram
encontros decisivos. O primeiro se deu quando Science e Gilmar Bola
Oito, então funcionários da Emprel - empresa de processamento de
dados da prefeitura do Recife -, reconheceram a afinidade musical
que os unia.
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Dançarina Vilma Carijós e o marido
Gilson "Meia-Noite" coordenam projeto social que trabalha
com ritmos e danças populares |
Bola Oito, morador do bairro de Peixinhos, convidou Science para
assistir ao ensaio do Lamento Negro, bloco de afoxé, samba-reggae e
algo na linha do Olodum, grupo baiano que na época fazia muito
sucesso e chegou até a gravar com Paul Simon em Nova York. O Lamento
tinha nascido na sede do Daruê Malungo ("companheiro de luta"), um
projeto social encabeçado por Mestre Gilson "Meia-Noite" e sua
esposa, Vilma Carijós, ex-integrantes do Balé Popular do Recife.
Desde 1984, o Daruê já vinha trabalhando com ritmos e danças
populares com a comunidade do bairro Chão de Estrelas.
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A experiência de Maureliano Ribeiro da
Silva, o Mau, foi fundamental para Chico Science alcançar a
mistura ideal entre o pop e o maracatu |
Durante o ensaio do Lamento Negro, Science teve a idéia de reunir
esse bloco no mesmo palco com sua banda, a Loustal. Para divulgar
essa experiência, ele usou expressões como "a maior lama, o maior
mangue!", porque o Lamento era de Peixinhos, e o Loustal, de Rio
Doce, duas áreas de manguezal. Mas Malungo ainda não estava
satisfeito, faltava algo. Ele não queria a "levada" do samba-reggae,
mas sim o timbre da alfaia (tipo de tambor com pele de animal) do
maracatu, um folguedo característico da cultura pernambucana. Para
fazer essa adaptação (do Lamento ao maracatu, e de ambos ao pop),
foi preciso a química de um outro cientista: Maureliano Ribeiro da
Silva (o Mau), mestre do Lamento Negro, ex-professor do Daruê
Malungo e fabricante de instrumentos. Para chegar à fórmula do som
idealizado por Science, Mau lançou mão da experiência adquirida
durante os anos 1980 nos bailes da discoteca de Peixinhos, onde
ouvia o funk de James Brown e trilhas sonoras de novelas: "Peguei a
célula de um ataque de trompete, de uma batida da bateria e de uma
batida de maracatu. Passei do naipe de metais para os tambores",
explica.
Como o Lamento era um grupo muito grande, foi preciso
selecionar alguns membros para formar com a Loustal o grupo Chico
Science & Nação Zumbi. Vilma Carijós, professora de dança, conta que
ali no Daruê eles gravaram a primeira fita demo. O resultado de toda
essa fusão pode ser ouvido no CD de estréia da banda, gravado em
1994, intitulado Da Lama ao Caos.
Talvez pela singular reunião de gêneros musicais (rap, soul,
ciranda, maracatu), alguém tenha interpretado o termo original
Manguebit (de bit - binary digit -, unidade de medida de informação
dos sistemas digitais) como Mangue Beat (de beat, "batida", em
inglês). A palavra apareceu pela primeira vez no título da faixa
Manguebit, gravada no CD Samba Esquema Noise (1994), do Mundo Livre
S/A. Algumas frases dessa música, como "Eletricidade alimenta tanto
quanto oxigênio", sugeriam uma ligação dos "caranguejos" com o mundo
tecnológico. Embora as diversas bandas do movimento não tenham uma
batida padronizada, a forma Mangue Beat acabou prevalecendo.
Release-manifesto
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Com o texto "Caranguejos com cérebro"
Fred Zero Quatro lançou o Mangue Beat nacionalmente |
Pode-se afirmar que o segundo encontro fundamental para a concepção
do Mangue Beat foi o que ocorreu entre Chico Science e Fred
Rodrigues Montenegro (o Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A).
Quando estudava comunicação na Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE), Zero Quatro idealizou, com alguns colegas, o projeto do
"Gueto", um jornal destinado a dar visibilidade às "subculturas da
periferia". Certo dia, em 1986, ele foi cobrir uma roda de break no
centro da cidade e lá conheceu Chico Science. Anos mais tarde, já na
década de 1990, os dois organizariam o festival Viagem ao Centro do
Mangue, que atraiu a atenção dos jovens para o novo conceito. Então,
com seu tino jornalístico, Zero Quatro decidiu escrever o famoso
release que divulgou a movimentação cultural que crescia na cidade.
Até que o texto chegasse à mídia, no entanto, houve uma série de
eventos que, embora à primeira vista parecessem desfavoráveis,
acabaram propiciando as circunstâncias que levaram Zero Quatro a
escrevê-lo. Depois de ser demitido de um canal de televisão, ele foi
contratado por outra emissora, mas, em seu primeiro dia de trabalho,
sofreu um acidente de carro e teve de ficar três dias afastado, em
licença médica. Durante esse período, acabou desistindo do emprego e
fez contato com uma produtora de Olinda, que, como primeira tarefa,
lhe pediu que escrevesse um roteiro para as imagens já gravadas de
um documentário. "Era sobre os manguezais de Pernambuco. Tive de
pesquisar muito, reunindo inclusive informações de cunho científico.
Foi uma grande coincidência!", lembra ele.
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Escultura de metal em Recife reverencia
os caranguejos do Mangue Beat |
Feito o serviço, era hora de investir na cena cultural do Mangue
Beat. Com tempo livre e munido de aparato teórico, Zero Quatro foi
além dos releases burocráticos ao escrever "Caranguejos
com cérebro". Cerca de dois meses depois, uma equipe da Music
Television (MTV) brasileira - que tinha ido ao Recife fazer uma
reportagem sobre expoentes culturais e tomara conhecimento do
release - aproveitou para gravar uma entrevista com o pessoal do
Mangue Beat, com imagens dos grupos Mundo Livre S/A e Chico Science
& Nação Zumbi. "Passaram-se os meses de outubro, novembro,
dezembro... e nada de a matéria ir ao ar. A gente pensou que havia
sido engavetada ou não tinham aprovado a pauta. Em janeiro de 1993,
durante a transmissão exclusiva da MTV do show do Nirvana no
Hollywood Rock, soltaram a matéria no intervalo." Era o que faltava
para projetar nacionalmente a produção musical dos caranguejos ,
cuja consagração viria com o primeiro festival Abril pro Rock, em
1993.
(©
Reporter Brasil)
Revolução musical
Movimento do Mangue Beat enriqueceu musicalidade das bandas
tradicionais, deu projeção a novos artistas populares e contribuiu para
mudar a vida dos jovens da periferia em Pernambuco
Texto, fotos e vídeos de João Mauro Araújo, especial para a Repórter
Brasil
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Ariano Suassuna é contrário à influência
musical estrangeira, mas reconhece a importãncia do Mangue Beat |
Desde que a antena parabólica dos mangueboys sintonizou a cultura pop
mundial, Recife não foi mais a mesma. Quando atingiu aquele rio, a água
do mar retornou diferente ao oceano, deixando, no entanto, sua marca
salina no estuário.
A transformação provocada pelo Mangue Beat - talvez até sem intenção
- atingiu os baluartes da cultura tradicional. Já nos anos 1960, com o
advento do Tropicalismo, a influência estrangeira havia preocupado os
componentes do que viria a ser o Movimento Armorial, liderado pelo
escritor Ariano Suassuna. Fundado em outubro de 1970, sob a tese de
preservação da arte genuína brasileira, esse grupo pesquisava a herança
colonial deixada na cultura popular sertaneja, que possivelmente não
teria sofrido alterações devido à distância dos meios de comunicação.
Ou, segundo a interpretação do professor Herom Vargas, da Universidade
Municipal de São Caetano do Sul (Imes), buscava retomar elementos
culturais mantidos quase inertes no sertão árido do nordeste,
provenientes da península Ibérica, com traços cristãos e mouros, e das
culturas indígenas. Depois do garimpo, os armoriais executariam tal
música, só que de maneira erudita, adequando-a aos grandes salões.
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Para o pesquisador Herom Vargas, a mistura
de diferentes culturas é o ponto crucial na formação da música
brasileira |
Vargas é autor da tese de doutorado "Chico Science & Nação Zumbi: Um
estudo sobre o hibridismo e as relações entre música popular, mídia e
cultura" (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2003),
publicada recentemente em livro pela editora Ateliê. O pesquisador
procurou demonstrar que a dinâmica híbrida, longe de ser um desvio, tal
como é tratada pelos tradicionalistas, é o ponto crucial na formação de
gêneros da música popular latino-americana: "Os armoriais revelam uma
visão conservadora. Como é possível manter uma essência, algo que seria
puro, se aqui não há pureza alguma? A América Latina historicamente é
lugar de cruzamentos: vários tipos de africanos e de europeus vieram
para cá. O português e o espanhol já são ocidentais misturados com
árabe, chegaram aqui e encontraram mil indígenas diferentes", comenta
Vargas.
A polêmica conceitual entre mangueboys e armoriais virou até
letra de música, composta por Zero Quatro e gravada no CD Carnaval na
Obra, do Mundo Livre S/A. No refrão, ele indaga, após mencionar a
presença da matriz africana em diversos estilos musicais do novo
continente: "Mas é o Ariano que ignora o africano ou é o africano que
ignora o Ariano?" Zero Quatro foi aluno de Suassuna na faculdade de
comunicação. "Ele tem um humor muito aguçado. Na verdade, eu adorava as
aulas dele. Mas como analista cultural... Nunca conseguiu engolir Tom
Jobim, que para ele é um colonizado pela cultura americana", comenta o
vocalista do Mundo Livre S/A. Por sua vez, Ariano Suassuna, atual
secretário de Cultura de Pernambuco, conta que, na época em que soube do
Mangue Beat, uma jornalista perguntou-lhe se receberia Chico Science, ao
que respondeu afirmativamente. "Chico veio me conhecer e disse: ‘Mestre
[era assim que ele me chamava], eu sou armorial&lsquo. Então eu disse a
ele: ‘Mas por que se chama Chico Science? Mude seu nome para Chico
Ciência que subo com você no palco&lsquo. Evidentemente, quando falei
isso estava simbolizando duas coisas: achava que na parte Chico estava o
que ele tinha de maracatu rural, e na Science o que tinha de rock, que
não gosto. Ele achou graça e fizemos uma grande amizade."
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Parceria com grupos ligados ao Mangue Beat
rendeu boas oportunidades para o Maracatu Estrela de Ouro |
Apesar de continuar discordando da posição de Science, Suassuna
reconhece: "A juventude classe média, que talvez nunca prestasse atenção
ao maracatu rural, passou a dar importância a ele". Mais que isso. O
intercâmbio entre o Mangue Beat e artistas da cultura popular
pernambucana mostra ainda hoje muitos reflexos positivos. Se por um lado
as bandas tiveram sua musicalidade enriquecida, por outro os artistas
populares ganharam uma projeção nunca antes vista. O presidente do
Maracatu Estrela de Ouro, de Aliança (PE), José Lourenço da Silva,
menciona com satisfação as parcerias com grupos ligados ao Mangue Beat,
que alcançaram grande repercussão, redundando inclusive em convites para
turnês internacionais, além do contato com pesquisadores de vários
lugares do mundo, que vieram procurá-los.
Sem tomar o poder
Ao Mangue Beat é atribuída uma série de conquistas na produção
cultural pernambucana. A lama da rapaziada partiu da música e invadiu o
cinema, o teatro, a moda, a literatura, enfim, catalisou expressões
artísticas em quase todos os campos. O marco do casamento com a sétima
arte ocorreu na trilha sonora do longa-metragem Baile Perfumado (1997),
dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas, no qual atuaram inclusive
alguns músicos do movimento.
Fred Zero Quatro associa sua experiência vivida durante os anos 1990
ao livro Mudar o Mundo sem Tomar o Poder, de John Holloway. "A gente não
precisou pegar em armas, constituir um partido, montar uma guerrilha ou
frente política, nem fazer um levante de rua, nem passeata, nem nada.
Num sentido cultural, porém, podemos dizer que contribuímos para mudar
bastante a qualidade de vida do jovem daqui", avalia o músico. Com o
passar do tempo, os órgãos de cultura locais foram vendo cada vez mais a
juventude do Mangue reivindicar palcos anteriormente vazios ou
"atrofiados".
Entretanto, a ideologia, no Mangue Beat, assumiu conotações
diferentes, segundo as características de cada banda. As composições de
Zero Quatro, por exemplo, aliam temas suaves do cotidiano - como amor e
futebol - à visão crítica da conjuntura brasileira e internacional. "Há
uma aparente contradição entre manter uma postura de resistência ao
imperialismo, aos produtos das grandes corporações do entretenimento, e
ficar isolado num gueto, algo como &lsquomacumba para turista&lsquo. A
gente faz música pop, só que rejeita a idéia de que ela tem
necessariamente de ser pasteurizada, alienada, sem escrúpulos. Existe
público para se fazer um som jovem, de consumo, urbano, com forte
ligação com a cultura local e ao mesmo tempo manter um certo grau de
inteligência, de provocação, de contestação ao pensamento único
globalizado", explica Zero Quatro.
Segundo Paulo Marcondes Soares, professor do programa de
pós-graduação em sociologia da UFPE, a arte pode ser política mesmo sem
elaborar um discurso explícito. "Essa relação é mais forte quando a arte
se manifesta por uma constante experimentação da linguagem, lidando com
elementos que, em certa medida, rompem as características do instituído.
Dessa maneira, ela é mais vigorosamente política, revolucionária até,
que aquela que fala de maneira prosaica em nome de uma política."
Soares, que também é compositor, acompanha a evolução musical recifense
desde os anos 1980. Em sua opinião, o Mangue Beat gerou na cidade um
público para a produção artística local.
Com acesso à mídia, os mangueboys ajudaram também a divulgar grupos
que a princípio permaneciam isolados em suas comunidades. Dessa maneira,
passaram a fazer parte do cenário cultural local, por exemplo, algumas
bandas do Alto José Pinho, bairro da periferia do Recife em que desde o
final dos anos 1980 já estava em atividade uma cooperativa de músicos.
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Cannibal, do grupo de punk rock Devotos,
afirma que a nova música ajudou a elevar a auto-estima dos
jovens suburbanos |
Marconi de Souza Santos, o Cannibal, do grupo de punk rock Devotos, via
o Mangue Beat com algumas ressalvas, até que percebeu a plataforma comum
no ideal de elevar a auto-estima dos jovens suburbanos. A atuação
conjunta dos membros das bandas Devotos, Faces do Subúrbio, Matalanamão,
entre outras, resultou na criação da Rádio Comunitária Alto-Falante,
registrada em 2002, assim como na promoção de eventos sociais,
coletâneas, shows e oficinas. De certa forma, a comunidade foi
transferida das páginas policiais para a agenda cultural da cidade.
Hoje, conta até com um dos palcos oficiais do carnaval do Recife, o Pólo
Mangue do Morro. "A gente conseguiu o que queria: mudar um quadro social
através das bandas", afirma Cannibal.
Evolução da cena
Notam-se, ainda, desencontros conceituais quanto ao Mangue Beat. Há
quem continue a defini-lo como mescla de pop com música regional; ou
quem o limite às atividades das bandas Nação Zumbi e Mundo Livre S/A,
por continuarem em atividade; ou ainda aqueles que atestem seu fim.
Mesmo a palavra "movimento" não é muito aceita, devido à falta de uma
plataforma reivindicativa comum aos possíveis membros.
Atualmente, privilegia-se o termo "cena", usado de forma mais
abrangente: "O Mangue é apenas uma parte. Antes a rapaziada achava que
ele era tudo, mas agora percebe que a ‘cena&lsquo é o montante, o todo",
explica Aílton da Silva, o Pácua, que participou dos primeiros projetos
com Chico Science, mas logo montou sua própria banda, a Via Sat, que
está no 14º ano, com dois CDs lançados (o mais recente intitulado
Organic Hi-tec Jungle) e participação em várias coletâneas. É possível,
nesse sentido, comparar o Mangue Beat ao estilo baiano da axé music,
cujo rótulo identifica diferentes bandas num mesmo contexto. Como lembra
Pácua, o próprio Chico Science dizia: "O Mangue é só um cartão, uma
marca".
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Para o músico Charles Teony, a "cena" do
Mangue propiciou diversidade e pluralidade à musica produzida em
Recife |
Numa mesa de bar do Mercado do Varadouro - uma das portas de entrada da
cidade histórica de Olinda -, ao lado de Pácua estão Felix Cavalcanti, o
Fekinho, vocalista da banda Etnia, e Charles Teony. "A cena hoje tem um
conceito muito mais firme, está mais madura. As pessoas sabem o que
fazem e estão cobrando de si mesmas. Quem faz funk com maracatu tem de
conhecer tanto de um quanto do outro, porque é questionado por todo
mundo", comenta Teony, vocalista do grupo que leva seu nome.
Recém-chegado da turnê do CD Tambor do Mundo, ele parece animado com o
mercado internacional. Diz que o carnaval do Recife tem hoje a mesma
concepção de um festival europeu: diversidade e pluralidade, por conta
das bandas brasileiras que tocaram no exterior e perceberam a
possibilidade de apresentar de tudo, "de heavy metal a salsa, jazz,
rock, música eletrônica, punk".
Fekinho está gravando Um Novo Momento,
o segundo CD do Etnia, banda formada em 1995. Ele, Pácua, Teony e seus
grupos mantêm um certo espírito cooperativista, típico da "cena"
pernambucana. Fekinho e Pácua, por exemplo, colaboram na montagem da
Associação de Música Urbana (Amur), destinada a incentivar a cadeia
produtiva da música independente. Pácua também dá aulas de capoeira no
projeto social idealizado por ele, o Instituto Via Sat Zambo, em
Peixinhos. "Se você não ajudar a favela, sua música vai acabar, porque a
favela é a fonte. Se a favela acabar em termos de música, você não vai
beber mais em canto nenhum", sentencia ele.
"O Mangue nasceu dos mais necessitados, e se a gente não continuar
dando uma força para a ‘quebrada&lsquo, como diria a galera, ‘a caveira
do Chico lá embaixo vai ficar se remoendo&lsquo, porque, mais do que
ninguém, ele falava em estender a mão ao próximo", conclui Fekinho.
Vôo interrompido
No dia 2 de fevereiro de 1997, o carro guiado por Chico Science se
chocou contra um poste, próximo ao Complexo do Salgadinho - região de
divisa entre Recife e Olinda -, interrompendo bruscamente sua vida. Aos
30 anos de idade, com dois CDs lançados e três turnês internacionais com
a banda Nação Zumbi, ele havia apenas alçado o vôo que certamente o
teria levado muito mais longe.
No aniversário de dez anos de sua morte, quase toda a mídia do Recife
e de Olinda lembrou a trajetória do artista, abordando principalmente
sua atuação à frente do movimento Mangue Beat.
As homenagens a Chico Science são constantes. Ele é formalmente
lembrado em nomes de parque, túnel e num shopping do Recife; ganhou
estátua e pinturas de grafite; é tema de livros e teses, e até o título
de uma coletânea de bandas portuguesas, "Tejo Beat", foi inspirado no
movimento brasileiro.
Chico Science ia além da palavra, preocupando-se muito também com o
desempenho no palco; em suma, buscava a concepção global do artista.
Segundo amigos e parentes, era do tipo obstinado, que saía com a fita
demo na mão para divulgar o trabalho da banda. Ao mesmo tempo,
mostrava-se exigente quanto à qualidade de seu trabalho, a ponto de, nas
gravações, repetir frases musicais quantas vezes fosse necessário. Unia
a isso o bom humor de quem não se arrependia de ter ficado em casa
dormindo no dia do vestibular.
Na atual cena pernambucana, formada em sua maioria por bandas jovens,
o legado de Chico Science se revela na valorização de traços e imagens
locais, que gerou uma espécie de "estética mangue". Muitos artistas, por
influência do Mangue Beat, perceberam a possibilidade de aliar
manifestações culturais populares à música pop internacional, sem abrir
mão de uma visão crítica da estrutura social.
(©
Reporter Brasil)
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VÍDEO:
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