De um encontro à primeira vista inusitado, nasceu o CD
´Ultraexisitir´, reunindo o multiinstrumentista cearense Di Freitas e a
cantora lírica italiana Francesca della Monica. O disco tem lançamento
amanhã, às 20h, no Sesc Senac Iracema
DALWTON MOURA
Repórter
O encontro entre o violoncelista, violonista, rabequeiro e luthier cearense
Francisco Di Freitas e a cantora italiana Francesca della Monica se deu no
final de 2006, na região do Cariri, onde o músico reside há cinco anos. Foi
lá que um grupo de atores e dramaturgos encontrou o contexto ideal para
pesquisar e desenvolver um espetáculo teatral inédito. Assim nasceu ´O Homem
Provisório´, com direção de Cacá Carvalho e realização do grupo paulista
Casa Laboratório Para as Artes Do Teatro, em parceria com a Fondazione
Pontedera Teatro, da Itália. Estava selado o elo Pontedera-São Paulo-Cariri,
que renderia à peça, inspirada em ´Grande Sertão: Veredas´, de Guimarães
Rosa, cinco indicações ao Prêmio Shell de Teatro.
Agora, desde fins de julho último, ´O Homem Provisório´ vem sendo mostrado
em cidades cearenses, fazendo as honras ao cenário em que foi concebido. As
apresentações integram o Circuito Teatral Casa Laboratório, promovido pelo
Sesc, e seguem até hoje em Fortaleza, às 20h, no novo equipamento cultural
do Sesc na capital cearense, no entorno do Centro Dragão do Mar.
É lá também que amanhã, às 20h, será apresentado um outro fruto desse
intercâmbio de experiências e linguagens. É o disco ´Ultraexistir´, trabalho
em parceria entre Di Freitas e Francesca della Monica, indicada ao Esso em
categoria especial, pela preparação e pela partitura vocal do elenco.
Convidado para trabalhar na construção dos instrumentos musicais que estavam
sendo desenvolvidos para a peça, Di Freitas apresentou aos atores - entre os
quais, alguns também músicos - um pouco da diversidade sonora do Cariri. Com
destaque para as possibilidades melódicas da rabeca, instrumento artesanal
de lugar reservado no imaginário popular, pela mão de mestres como Cego
Oliveira. O que à primeira vista poderia parecer um encontro inusitado
acabou por gerar tanto interesse a Francesca que a cantora resolveu unir seu
timbre e sua técnica de canto lírico a uma experiência de improvisação
melódica sobre bases costuradas pela rabeca de Freitas e por alguns outros
instrumentos de percussão. Assim nasceu ´Ultraexistir´, gravado no calor da
temporada caririense, aproveitando o estúdio da Fundação Casa Grande, em
Nova Olinda, e finalizado em São Paulo.
´A oficina que fiz com os atores lá na Casa Grande foi muito boa.
Trabalhamos com confecção de instrumentos a partir de objetos, um trabalho
que eu já desenvolvo por aqui. No decorrer da oficina mesmo, eu e a
Francesca fizemos algumas gravações, e daí ela deu a idéia de fazer esse CD,
a partir desse encontro, tudo de improviso, tudo na hora´, afirma Di
Freitas, por telefone, desde Juazeiro do Norte, apontando ´espontaneidade´
como a palavra-chave de todo esse processo. Inclusive do show de lançamento
do CD em Fortaleza, este domingo à noite. ´Vamos nos reunir, eu e ela, e ver
o que fazemos. Talvez seguir a linha do CD, talvez criar coisas na hora, de
improviso, do mesmo jeito que fizemos o disco aqui. No disco gravei com dois
tamanhos de rabeca, e vou levar várias pra aí também. Vamos ver como vai
ser´.
Armorial e improviso
O instrumentista cearense destaca o casamento entre sua própria bagagem
musical e o universo da cantora italiana. ´Minha tendência musical é pro
armorial, pra música antiga. E o timbre da Francesca me lembrou muito isso.
Além do mais, ela é uma cantora lírica, mas que trabalha com essa liberdade
de improvisar, criar, ver novas possibilidades vocais. Tivemos um bom
diálogo´, assevera, confirmando ainda o caráter teatral, imagético, que as
faixas registradas no disco deixam transparecer. ´É bem teatral mesmo,
sugere muita imagem, muito movimento´, diz, sobre o disco que conta ainda
com participações do ator e percussionista Majó Sesan, tocando marimbau e
pandeiro, de alguns outros atores da companhia e de Cacá Carvalho declamando
trechos de ´Grande Sertão´ sobre a base sonora formada pela faixa-título,
´Ultraexistir´.
O clima de criação mais abstrata que preocupada em definir os temas fica
claro ao longo de outras músicas, que chamam atenção a começar por títulos
como ´Delirido´, ´Profundaltíssimo´ e ´Almamente´. ´Os títulos foi a
Francesca que escolheu´, brinca Di Freitas, que, instado a tocar uma música
de que gostasse, acrescentou ao disco uma bela versão para o tradicional
tema ´Sertão de Caicó´, em solo de rabeca, no CD rebatizada pela italiana
como ´Aeroplanar´. Francesca também tem uma ´faixa solo´, ´Tsantsa´, com
participação do elenco de ´O Homem Provisório´ no coro. Atores-músicos que
voltam a comparecer em ´Melodência´, uma das peças que integraram a trilha
sonora da peça. No disco, é a única faixa com um maior número de músicos,
com direito a flautas, moringas e bacias, cabaças e armas. Bem à Hermeto.
Embora já acumulasse participações em vários discos de músicos cearenses,
este é o primeiro CD autoral de Di Freitas, que se dedica à confecção de
rabecas e ao repasse da tradição do instrumento às gerações mais jovens. ´Em
Fortaleza fiz Conservatório e tive a minha formação no Sesi, com o Vazken
Fermanian, o Tarcísio Lima, o Raul Soares, toquei no Syntagma... O que me
prende aqui no Cariri é a música, que é muito forte, tem muita influência
nesse disco´, contrapõe. ´Vim pro Cariri depois de participar de um festival
em Barbalha, em 2000, e comecei a criar instrumentos por conta dessa
musicalidade toda daqui. Daí vieram projetos como a Orquestra de Rabecas,
com jovens tocando e fazendo os instrumentos, uma iniciativa que já está se
expandindo pra outras cidades do Cariri e até outros estados´, conta o
músico. Cada vez mais conjugando, no dia a dia, seu regional universal.
LUTHIERIA
Da cabaça à rabeca
Experiente na confecção do instrumento, Di Freitas ressalta a ´personalidade
própria´ da rabeca, que tem variações no modo de fazer, no número de cordas,
na afinação e na maneira de tocar. ´É um som mais rústico, forte, não tem
objetivo de ser muito brilhante, refinado. E muda com cada pessoa´, garante,
contando que passou a fabricar rabecas ´porque quase não tinha mais quem
fizesse´. ´A gente teve que ver como era, fazer a partir da cabaça, que já
tem o formato do instrumento. Mas hoje a gente vê que tão aparecendo mais os
mestres, que tá havendo mais interesse dos mais jovens e de grupos da
região, como Zabumbeiros Cariris, Dr. Raiz e Carroça de Mamulengo´,
menciona. ´Quando a gente começou o projeto de levar a rabeca pras escolas,
só existia o mestre Zé Oliveira, filho do Cego Oliveira. Procuramos manter a
tradição´. (DM)
Serviço:
Lançamento do CD ´Ultraexistir´, de Francesca Della Mônica e Di Freitas.
Entrada franca. Amanhã, 5/8, às 20h, no Sesc Senac Iracema, novo equipamento
cultural em torno do Centro Dragão do Mar, em Fortaleza.
Informações: 3452-9066
O cantor e compositor cearense Juliano Primo apresenta hoje,
às 19h, no Projeto Encantos de Iracema, da Funcet, o show “Nordestinagem”.
Com seu violão e suas canções, além de outras de ícones da MPB, o músico
será acompanhado por Bedê (flauta) e Jofran (percussão).
“É uma passagem pela Música Popular Nordestina, passando por Zeca Baleiro,
Ednardo, Belchior, Alceu Valença, Lenine, Djavan”, informa o músico que
também estará apresentando canções autorais com levadas funks “Arte” e
“Livre” e o reggae “Cara a Cara”.
“São músicas que se identificam com a cultura do próprio
Nordeste. Vai ser legal apresentá-las nesse contexto de resgate da Praia de
Iracema que eu freqüento desde o tempo do Cais Bar, do Compasso...”, informa
o cantor que tocou nas bandas Expresso do Oriente e Belos e Malditos até de
começar a atuar na noite, em 94. E, “no fim do ano”, lança seu primeiro CD,
“De cara pra tua cara”.
Mais informações:
´Nordestinagem´ - Show do cantor e compositor Juliano
Primo, no Projeto Encantos de Iracema. Hoje, 19h, no Largo do Mincharia,
Praia de Iracema. Grátis.