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 Bruscky transforma a tecnologia em poética

 

 

 

Leo Caldas/Divulgação

Paulo Bruscky em seu atêlie em Recife
 

Na mostra individual De homens, máquinas e sonhos, em cartaz na Amparo 60, artista explora negociação entre a ciência e a arte, mantendo-se fiel ao seu experimentalismo

Olívia Mindêlo
oliviamindelo@jc.com.br

Sobre a obra de Paulo Bruscky é possível fazer infinitos recortes. Do pioneirismo da arte-xerox à ousadia da videoarte, há sempre um campo a ser explorado no fértil mundo de idéias do artista pernambucano. Enquanto algumas escolhas curatoriais apostam no “todo” de sua produção, outras (maioria) pincelam determinados aspectos preponderantes. No caso da exposição individual De homens, máquinas e sonhos, com abertura hoje, às 19h, na Amparo 60 Galeria de Arte, a proposta da curadoria é ressaltar a relação entre a ciência e a poesia presente em sua obra.

“O que me atrai é a sua capacidade de se apropriar de determinados códigos (máquinas, invenções) e transformá-los em dados poéticos”, assinala a curadora da mostra Cristiana Tejo. Em outras palavras, a negociação de Bruscky com a máquina se dá de uma maneira demasiadamente humana, por mais experimental, estranha ou mesmo científica que possa parecer, a priori.

Vejamos o primeiro andar da galeria. Nele, o visitante se depara com o desdobramento do álbum Meu cérebro desenha assim (1976), no qual o artista construiu imagens (gráficos) a partir de um eletroencefalograma (exame que capta os impulsos cerebrais). Mas o aparato tecnológico foi apenas uma forma encontrada por ele para “registrar” sonhos, ou “decifrar” emoções, mais uma vez usando seu próprio corpo. Ou seja, a tecnologia está a serviço da arte, da sua poética, como acontece na xerox, por exemplo. Agora, em vez da fotografia e do vídeo, os resultados das investigações cerebrais são espécies de pinturas abstratas do exame, penduradas na parede.

De uma maneira diferente, a série de livros de artista intitulada Intersigners, posicionada na entrada da galeria, no térreo, também dialoga com a tecnologia e anuncia um tema que veio à tona nessa mostra: o avião e, por tabela, a crise aérea nacional. São sucatas de CPUs que cumprem papel de ready-mades, mas ganham feição de painéis de controle da aviação, como define o artista, ou mesmo de “cidades vistas de cima”.

Neste sentido, é a instalação inédita formada por escadas de aeronave, projetadas por Bruscky e montadas na sala principal da Amparo 60, o destaque da exposição. Elas são brancas, enfileiradas, hospitalares e não levam a lugar nenhum, a não ser a um vazio aparente e inacessível “sustentado” pelo teto branco. Ao fundo, vê-se a foto do artista, em tamanho real, carregando um gelo-baiano como mala. Um trabalho com metáforas de ordem política, mas, sobretudo, filosófica, coerente à proposta conceitual do restante de sua obra.

Segundo Bruscky, a intenção, a priori, foi levar à galeria escadas da aviação inutilizadas originais, mas o pé direito do espaço não permitiu e ele acabou confeccionando novos objetos, de mesma proporção, mas menores na altura. “Como sempre viajo, já vinha trabalhando nesse assunto há um tempo, de alguma forma. Eu mesmo tenho um caderno de viagens que faço no avião”, revela o artista.

Na mesma sala da instalação, 30 trabalhos em videoarte e filme de artista, além de 12 registros de intervenção urbana, feitos nas décadas de 70 e 80, podem ser conferidos pelo público. Alguns são inéditos e oferecem a oportunidade de vermos produções antigas e curiosas pela primeira vez.

Aparentemente, há algo de retrospectiva nesta mostra individual. No entanto, a relação com o passado é apenas uma forma de atentarmos para o fato de que, na década de 1970 ou nos anos 2000, Paulo Bruscky permanece atual, sempre fiel à sua incansável inventividade contemporânea.

» De homens, máquinas e sonhos, na Amparo 60 – Av. Domingos Ferreira, 92 A, Pina. Visitação: de seg. a sex., das 9h às 18h, sáb., com agendamento. Entrada franca. Informações: 3325-4728. Até 28/9.

(© JC Online)
 

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