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Luiz Gonzaga reinventou o Nordeste

03/08/2009

 

 

 
 
Vinte anos depois de sua morte, a obra de Luiz Gonzaga continua cada vez mais popular, e o mito cada vez maior

José Teles
teles@jc.com.br

Duas décadas depois de sua morte, o mito Luiz Gonzaga é cada vez mais incensado. Não apenas sua caudalosa obra continua constantemente regravada, como também academicamente dissecada. Para o jornalista e professor José Mário Austregésilo, autor de Luiz Gonzaga, o homem, sua terra e sua luta, este constante debruçar sobre a música de Gonzagão é uma das razões de o artista ser tão lembrado. E não apenas no Brasil, ressalta, apontando que há dissertações sobre ele em até em Oxford, Inglaterra: “A grande descoberta sobre a música de Luiz Gonzaga, que pouca gente se dá conta, é que ela não é tradicional, mas moderna. Gonzaga levou o rural para o urbano, foi um tradutor, no sentido etimológico da palavra, que significa transportar. Para mim, é uma Carmem Miranda de chapéu de couro e gibão”, comenta Austregésilo.

Outra grande importância de Luiz Gonzaga foi ter reinventado o Nordeste: “Depois dele acabou aquela imagem do sertanejo como uma espécie de Jeca Tatu. Ele se utilizou da figura de cangaceiro que, com a música, fez com que se tivesse outra imagem do nordestino. A obra de Luiz Gonzaga é tão grande que é maior que ele próprio. Se fala que ele usou a música de Zé Dantas, Onildo Almeida e tantos compositores, na verdade, ele foi um imenso depósito da cultura do Nordeste”.

Gilberto Gil, que sempre se disse discípulo de Luiz Gonzaga, afirma: “Se inscreve na galeria dos grandes inventores da música popular brasileira”. É lembrado por todos que o conheceram de perto como um gênio, simples e, ao mesmo tempo, dono de um temperamento impulsivo e inconstante. Nem por isso a admiração diminui. É o caso do cearense, do Crato, Alcymar Monteiro, que conviveu de perto com Luiz Gonzaga durante 12 anos. Uma intimidade que os tornou compadres: “Ele e Edelzuíta foram padrinhos do meu filho”, conta Alcymar. “Conheci Gonzagão no começo dos anos 80, no Cavalo Dourado (casa de shows que existiu no Cordeiro). Depois de um show dele, fui lhe entregar um disco meu. Ele não era um homem de quem se podia se aproximar facilmente. Depois, me contou que levou o disco, ouviu em casa e gostou. O que, me dissem era difícil com ele, que recebia centenas de discos e não gostava da maioria. Sei que nestes 12 anos pude ver de perto a genialidade e a simplicidade de Gonzaga. Gravei duas músicas com ele, e ele gravou três composições minhas”.

(© JC Online)

 

 


O canto do cisne de Luiz Gonzaga

Sem poder sair de casa, Gonzagão recebia muitas visitas, entre estas a do violonista Ednaldo Queiroz, que gravou o último cantar do mestre

Alcymar Monteiro recorda que foi visitar Luiz Gonzaga, no mês em que ele morreu. Encontrou “Lua” inquieto e impaciente com as dores que não o abandonavam um instante. Quando Alcymar ia embora, ele lhe fez uma confissão: “Meu compadre, estou no fim, mas uma coisa me conforta. Sabe que Luiz Gonzaga tem um dono?”. Alcymar diz que se surrpreendeu com o que ouviu: “Perguntei, e quem é seu dono seu Luiz? Ele explicou: o povo nordestino”.

Gabriel Domingos, que trabalhou, como divulgador discos, na RCA e Copacabana, derradeira gravadora de Luiz Gonzaga: “Ele era gente muito boa, mas quando queria dizer o que pensava, dizia na cara. Sempre que vinha ao Recife eu acompanhava seu Luiz, fazia parte do meu trabalho. Uma vez a gente foi almoçar com um produtor no Buraco de Otília, quando terminou ele me chamou de lado e me deu dinheiro para pagar a conta. Quando o produtor se mexeu para pagar, ele disse que não precisava. Perguntou se o cara achava que por ser nordestino ele precisava que lhe pagassem comida”, conta Gabriel.

Uma das razões pelas quais Luiz Gonzaga fez tanto sucesso é que ele nunca se furtou a divulgar sua música, independente de ter um profissional do ramo à disposição, como lembra Gabriel Domingos: “Uma vez eu estava no escritório da gravadora e me ligaram da Rádio Recife avisando que Luiz Gonzaga se encontrava na portaria da emissora. Corri para lá, e encontrei seu Luiz dizendo pelo telefone, ao diretor de programação, que era um artista novo e vinha trazer um disco pra ver se tocavam ele”.

Coincidiu de Gabriel Domingos estar na Copacabana quando Luiz Gonzaga gravou o último álbum, Vou te matar de cheiro, em 1989: “Quando o disco saiu ele já estava bem mal, sem condições de sair pelas rádios divulgando o LP, mesmo assim uma música estourou, Uma pra mim, outro pra tu (parceria com João Silva, autor de quase todas as faixas deste disco). Eu fui no hospital onde ele estava. Quando entrei no quarto, ele ficou meio surpreso: ‘Neguinho, que é que tu está fazendo aqui? Tu não é da outra gravadora? Ele gostou quando soube que eu, feito ele, tinha deixado a RCA”.

Luiz Gonzaga gravou quase toda sua obra pela RCA (hoje BMG), que trocou pela Odeon no início dos anos 70, num de seus famosos rompantes. Era uma época em que ele estava meio por baixo, o dinheiro curto. Ia casar a filha Rosinha, e foi à RCA tentar um empréstimo para a fazer a festa. O presidente da gravadora, um americano, não quis recebê-lo. Gonzaga subiu até o escritório dele, entrou porta adentro, e vociferou: “Que casa é esta onde só conheço o cachorro, mas não vejo o dono? (referindo-se ao cãozinho no logotipo da RCA). Quero rescindir meu contrato”. Gravou três discos pela Odeon, convidado pelo conterrâneo Fernando Lobo. Em 1974 estava de volta à RCA, onde ficou até 1988. Naquele ano lançou um disco sem repercussão. A RCA, então já rebatizada de BMG, não se mostrou mais interessada no artista que por décadas lhe deu tanto lucro. Gonzaga entendeu que os tempos haviam mudado, e foi para a Copacabana.

Na época em que a doença o deixou prostrado no apartamento de sua última mulher, Edelzuíta Rabelo, em Boa Viagem, Luiz Gonzaga recebia constantes visitas de amigos e músicos que tocaram com ele. Um destes foi o bodocoense Ednaldo Queiroz, que, ainda adolescente, em meados anos 70, foi guitarrista do grupo LG Som. Ednaldo, hoje morando em Atlanta, nos EUA, na época era bastante badalado no Recife como violonista. Ele foi levar seu CD Dança cigana ao mestre, portando, oportunamente, um gravador no bolso. Durante a conversa, Luiz Gonzaga ouviu o disco, e sentiu vontade de cantar. Deitado numa rede, acomodou a sanfona no peito, e apesar das dores que sentia, cantou algumas canções, em levada de toada. Uma delas, Menestrel do sol (Humberto Teixeira). Foi seu canto de cisne.

Na gravação feita pelo violonista, Gonzagão imprime uma interpretação tão pungente à canção, que soa como se tivesse cantando seu próprio epitáfio: “Menestrel do sol/na vida eu só cantei/juntando irmão com irmão/eu esquecia de viver/...Ai, ai que curta vida/pra quem tanto viveu/os sonhos de outras vidas/que ajudei com o canto meu”.

(© JC Online)


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