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01/08/2001

Gal Costa: Entre o amor e a política

A cantora Gal Costa, que lança "Gal de Tantos Amores", antes previsto para sair em junho

Produzido por Daniel Filho, novo disco da cantora foi adiado devido ao apoio ao então senador ACM

PEDRO ALEXANDRE SANCHES

   Amor e política são os dois pesos da balança no ato de lançamento de "Gal de Tantos Amores", a mais nova obra artística da cantora baiana ex-tropicalista Gal Costa, 55.

   Tentando voltar a soar conceitual, ela chamou o diretor televisivo global Daniel Filho para ajudá-la, com o arranjador Wagner Tiso, a centrar na palavra-chave "amor" a escolha das 12 canções que decidiu interpretar, nenhuma delas inédita. Foi o diretor de TV (e agora produtor musical) que sugeriu o amor como conceito.

   Politicamente, Gal adicionou como bônus a única faixa inédita do CD, "Caminhos do Mar", que não fala de amor, mas faz sucesso como tema de abertura da novela também global das oito.

   Mais política veio de enxurrada, desde que Gal se obrigou a adiar o lançamento do álbum (sairia em junho passado), baqueada pela má reação pública a seu apoio também público ao então arruinado senador Antonio Carlos Magalhães.

   Política de arte e comércio fecha a equação. Acomodado entre repertório pouco ambicioso, arranjos orquestrais emotivos e suaves tons interioranos, o disco é pensado para reaproximar Gal, tida como intérprete sofisticada, de um público brutalizado que parou de ouvir a sagrada MPB para consumir axé e pagode romântico.

   Seus discos têm vendido pouco, se se comparar com outras fases de Gal e com os vendedores de milhão da era axé/pagode. Declarados pela gravadora BMG, foram 480 mil exemplares do "Acústico MTV" (97), 140 mil de "Aquele Frevo Axé" (98) e 330 mil de "Gal Costa Canta Tom Jobim" (99). Mais expressiva que as vendagens é a relativa ausência de uma de nossas melhores cantoras do imaginário popular recente do país.

   Para complicar, uma Gal política de comportamento inocente útil associou ao imaginário de sua arte o das falcatruas políticas que hoje dominam o Brasil. Seu disco não será mais lido como mera e pura arte (ou comércio?), o que é uma pena, se não um equívoco.

   Mas, de onde está agora, Gal se faz metáfora viva, coberta pela inocência útil de arranjos, melodias e letras de amor convencionais. A primeira faixa, por exemplo, é a grande "Outra Vez", de Isolda, que Roberto Carlos tornou hino nacional de amor em 77/78, embalando outra novela global dirigida por Daniel Filho.

   Secundada por orquestra bem comportada, Gal canta "Outra Vez" num tom sorridente de voz (se é que isso pode haver). O vocal emoldura um sorriso bobo, que pode ser de amor ou paixão, mas pode ser também o de quem não pensa bem no que está cantando ou falando. A ausência volta a assombrar o pacto entre ela e nós.

   Tudo se move aos solavancos, e o instante posterior ao de "Outra Vez" desfaz de todo o sorriso bobo. Sem truques de orquestra, "A Última Estrofe" (de Cândido das Neves, sucesso do início do outro século com Orlando Silva) vem em arranjo de regional, com Henrique Cazes ao cavaquinho e muita delicadeza picando a voz da dama. Ali Gal se esbalda, transborda, revalida o pacto.

   Pena, também, é que momentos como o de "A Última Estrofe" sejam tão poucos no CD. Algo parecido, mas com menor intensidade, até se dá na releitura de "O Amor" (de Caetano sobre poema de Maiakóvski, gravado por ela em 81), em sua adesão à parceria de Jorge Ben e Toquinho em "Que Maravilha" (71), talvez em "Folhetim" (de Chico Buarque, que já cantara em 78).

   De resto, os arranjos "amorosos" antiquados são de um desânimo atroz, mais evidente ainda quando Gal reinterpreta dardos tropicalistas como a guarânia "Índia" (já é a terceira vez) e a obra-prima de Jorge Ben "Que Pena (Ela Já Não Gosta Mais de Mim)".

   Extirpando de tais canções os gritos lancinantes que elas guardavam nos 60 e 70 e transformando "Que Pena" em reggaezinho fuleiro, é ela que suscita malvadas comparações, não somos nós.

   O descompasso acaba sendo de fundo conceitual, mesmo. Oculta-se a diva tropicalista (essa nunca deixará de existir) atrás de uma cafonice calculada, que possa ser vendida tanto como chique quanto como kitsch.

   Em outras palavras, ela acende duas velas, em "Gal de Tantos Amores", e espera ter Deus, o Diabo e a patuléia inscritos em seu fã-clube. Não dá certo, porque Gal é dum tempo em que já existiam o amor e as posições políticas, mas os fãs elegiam seus ídolos, e não o contrário. Volta, grande cantora. (FOLHA DE S. PAULO)

Gal de Tantos Amores 
Lançamento: BMG
Quanto: R$ 25, em média

"Político é político, artista é artista"

GERALD THOMAS
ESPECIAL PARA A FOLHA

   Fazia uns oito anos que não nos víamos, desde "O Sorriso do Gato de Alice", um show polêmico de que fui diretor e parceiro.

   Ultimamente, tenho lido coisas injustas a respeito dela. O fato de ter apoiado um amigo, ACM, repercutiu como apoio político. Pena, porque Gal Costa é um nome acima de qualquer suspeita. Tem uma história, um currículo que a coloca junto às figuras mais importantes do país.

   Queria reintroduzir, nesta entrevista, a grande diva da MPB. Sua arte está na voz, no sorriso e nos gestos peculiares e mais que imitados. Ela não deve ser julgada por nada, a não ser por sua obra. Leia trechos, a seguir.

Gerald Thomas - Eu tenho recomendação da Redação para falar do evento. Antes vou fazer uma introdução. Acho que você não tem a menor necessidade de ser uma pessoa política. A política é uma coisa nojenta. Você foi pessoal, amorosa. Se acusam, são todos encarapuçados, porque o ACM não é o último dos últimos. Esse é meu comentário. Qual é o seu?

Gal Costa - Bom, deram uma cotação desmedida à minha atitude, de ir encontrar ACM, porque houve um mal-entendido. Eu não sei por que, se foi proposital ou não. Eu fui encontrar ACM naquele dia em Salvador, no palácio Ondina, não para dar o meu apoio ao ato político do homem, mas para dar meu apoio moral a uma pessoa que fez muito pela cultura da Bahia.

Thomas - Falam-me que este é o melhor disco da sua carreira. Eu quero que você fale...

Gal - É, eu quero deixar uma coisa clara, eu vou voltar ao assunto Antonio Carlos: não foi apoio político de forma nenhuma. Foi apoio moral.
Eu acho que apoio moral você pode dar a um amigo que comete um erro. Cada macaco no seu galho. Político é político, artista é artista.
Eu acho também que eu nunca mamei nas tetas do governo. Nunca tive ajuda de governo e nunca apoiei governo nenhum. Portanto, posso dizer que sou uma pessoa apolítica. Não tenho partido. Tenho total liberdade, não tenho o rabo preso.
Sou uma pessoa íntegra. Ninguém, ninguém pode duvidar da minha integridade. Minha história está aí para provar. Senti-me maltratada e injustiçada... As pessoas esquecem uma biografia, toda uma história que é construtiva, que é importante neste país, que tem que ser valorizada.

Thomas - Por que a imprensa brasileira tem essa fome de maldade?

Gal - A Música Popular Brasileira, a MPB, a minha geração toda e a geração anterior à minha, é muito maltratada. O Brasil não preserva e não dá valor ao que ele tem. O Brasil não, a imprensa do Brasil não dá valor ao que o Brasil tem de mais precioso, que é a sua cultura.
A imprensa é colonizada, tem tendência a querer destruir os seus artistas, os seus melhores artistas, ao contrário do que fazem os americanos. Eles botam para cima o que produzem.

Thomas - O Brasil degrada quem fica no Brasil. É por isso que todo mundo vai embora.

Gal - Fazer sucesso, muito sucesso, o sucesso que ele [Caetano Veloso" fez fora do Brasil, o brasileiro fica insultado com isso. Não o público, as pessoas, mas a mídia. As pessoas que manipulam a mídia de maneira geral. Isso é engraçado, porque o Brasil é um país colonizado e age como tal. Valoriza muito o que vem de fora e destrói o que é dele, um produto que é do Brasil, que vai para fora e fica grande demais. Mas eu queria finalizar essa história...

Thomas - De quem, do ACM?

Gal - Não, tem uma coisa muito engraçada. As pessoas me cobram, sobre o novo disco: "Ah, você diz que é um disco clássico, você optou pelo mais fácil, você é uma pessoa que costuma ousar". As pessoas falam assim, nunca estão satisfeitas com nada. Quando faço um disco clássico, ficam colocando que eu fiz uma coisa ousada. Quando faço uma coisa ousada, reclamam porque fiz coisa ousada, então, eu não sei. Nunca estão satisfeitas.
Este é um disco clássico. É um disco em que regravei canções que já foram gravadas por mim e canções que já foram gravadas por outros artistas e que eu tinha vontade de regravar. Ele é um disco bem diversificado.(FOLHA DE S. PAULO)


Gerald Thomas é diretor de teatro

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Sites de Gal Costa e outros músicos nordestinos na seção MÚSICA

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