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01/08/2001

Pernambuco e Noronha: De Norte a Sul de ponta a ponta

Olinda-PE

Muito sol, praias belíssimas e um marzão de águas mornas. Pernambuco e Fernando de Noronha têm tudo isso. E, agora, muito mais: novos hotéis, melhores estradas, programas legais... Com o astral e a alegria de sempre

A fatia que coube a Pernambuco no litoral brasileiro é pequena ­ apenas 185 dos 8 000 quilômetros de extensão da nossa costa. Uma ninharia, se comparados, por exemplo, aos mais de 1 000 quilômetros do litoral baiano. Mas eis uma economia que a natureza compensou plenamente, presenteando a região com algumas das praias mais belas do país. Porto de Galinhas, Carneiros, Calhetas, Boa Viagem, Maria Farinha e as da Ilha de Itamaracá são apenas as mais conhecidas. Dezenas de outras, igualmente lindas, só esperam ser descobertas. A capital do estado, Recife, com a ajuda de sua charmosa vizinha Olinda (eleita pela Unesco Patrimônio Cultural da Humanidade) já se firmou como a cidade mais cosmopolita de todo o Nordeste. E, não bastassem esses trunfos, Pernambuco tem ainda um ás de ouro escondido na manga. Ou melhor, escondido no Atlântico. Oficialmente território pernambucano e dono de uma beleza única, o arquipélago de Fernando de Noronha é, disparado, a mais caribenha das paisagens brasileiras.

Tanto quanto seus primos baiano e cearense, o litoral pernambucano e Noronha estão multiplicando sua oferta de surpresas. Muitos consideram Pernambuco a bola da vez do turismo nacional ­ e não apenas devido ao calor de 35 graus de suas praias ou ao verde-esmeralda de seu mar. Os governos estadual e federal e a iniciativa privada estão investindo pesado na região. Até 2005, mais de 1 bilhão de reais terão saído dos cofres públicos e dos bolsos dos empresários, destinados à construção de novos hotéis, como o recém-inaugurado resort Summerville (que custou 55 milhões de reais), e a obras de infra-estrutura, como a melhoria das estradas, recuperação de mangues e limpeza das praias. O litoral sul, o pedaço mais badalado, é o epicentro desses ousados projetos, que estão deixando as pranchetas. Um deles, idealizado pelo governo do estado, pretende atrair 250 milhões de reais do setor hoteleiro. A meta é a construção de quatro resorts luxuosos, em Porto de Galinhas, criando mais de 1 000 novos apartamentos, nos próximos três anos. Descubra, nas próximas dez páginas, como Pernambuco e Noronha estão garantindo seu lugar ao sol no boom do turismo nacional.

Muito mais que Galinhas
Litoral Sul

Porto de Galinhas é a grande estrela do pedaço: a praia mais badalada e a que dispõe da melhor infra-estrutura. Mas o caloroso litoral sul de Pernambuco reserva outras surpresas deliciosas. Todas o ano inteiro banhadas pelo sol. E muito próximas umas das outras. Quer dar um tiro no estresse? Pegue o carro e vá descobrir as maravilhas desse pedaço especial do Nordeste. As melhores e mais variadas opções de hospedagem ficam mesmo em Porto de Galinhas. No vilarejo, que já conta com uma respeitável infra, bem como ao seu redor, encontram-se desde o novo resort Summerville, cujas diárias podem chegar aos 2 000 reais por casal, aos charmosos Xalés (assim mesmo, com "x") de Maracaípe. Neles, uma família de quatro pessoas paga apenas 130 reais por dia.

Aliás, pousadas e hotéis não faltam por aqui. São, só na região de Porto, mais de duzentos estabelecimentos ávidos pelos turistas, que chegam de toda parte do Brasil e de muitos cantos do mundo. Eles desembarcam e se encantam instantaneamente: com a água morna, verdinha e límpida das piscinas naturais de Porto de Galinhas. Não há quem não fique maravilhado com os peixinhos coloridos que comem na mão de qualquer um que lhes ofereça um pedaço de pão. "Esse lugar é um aquário natural. É tudo muito lindo", derrete-se a paranaense Talita Tokumoto, de 19 anos, estudante de Turismo.

O colorido artesanato local também deixa os visitantes de olhos arregalados. Nas tantas lojinhas espalhadas pela vila encontram-se desde pulseiras, colares e brincos, confeccionados com conchas e pedras do mar, a quadros e esculturas criados pelos nativos. O best-seller são as galinhas, o grande logotipo do lugar, confeccionadas nos mais diversos tamanhos e materiais. A ave que dá nome à praia está em todas. Pode ser miudinha, de cerâmica, ou enorme, entalhada num robusto tronco de coqueiro. É esse o trabalho de Antônio Ribeiro, de 20 anos. Até o início do ano passado, ele dividia o tempo entre serviços como ajudante de pedreiro e aprendiz de artesanato. "Desde que aprendi a esculpir os bichos, só trabalho nisso. É mais prazeroso e ganho mais", conta.

Uma das praias vizinhas de Porto de Galinhas também fascina. Ainda relativamente incólume à invasão turística, a Praia de Carneiros é perfeita para quem quer curtir o marzão verde-esmeralda e de águas calmas, na santa paz de Deus. Os sinais de civilização se resumem a algumas casas de veraneio dos ricaços e a uma espécie de área de lazer particular da Pousada Amaragi, a única da região, que fica encravada no alto de um monte. Jogar o corpo nesse mar quentinho, sentir a brisa na cara e ficar admirando a extensa muralha de coqueiros é um santo remédio para o estresse. Um antídoto que, por sinal, um turista em especial já descobriu: o português. Isso mesmo. Numa espécie de redescobrimento movido a água de coco e caipirinha, esse pedaço da costa de Pernambuco está cheio de turistas da terrinha além-mar.

Tanto em Porto de Galinhas quanto em Carneiros é quase impossível caminhar duzentos metros sem ouvir um "ora pois". Essa febre pelo litoral sul pernambucano teve início há pouco mais de um ano e, num boca-a-boca turbinado, foi contagiando cada vez mais lusitanos. Indagados sobre como ficaram sabendo da existência dessas praias, a resposta é sempre a mesma: "Um amigo veio aqui e disse que era maravilhoso. Eu decidi conferir, ora pois. E não é que ele estava a falar a verdade"? Foram exatamente essas as palavras do engenheiro João Santiago, de 24 anos, que escolheu Carneiros para passar a lua-de-mel com a mulher, Dina, 31. "Dá vontade de não voltar mais para Portugal", ela diz.

O que os patrícios ainda não descobriram (e pouquíssimos brasileiros e até mesmo pernambucanos sabem) é que, logo ali, do ladinho de Carneiros, fica uma das praias mais bucólicas do nosso país. À primeira vista, ela até parece uma imagem de cartum. Uma prainha deserta, de areia branca e pedras avermelhadas nas extremidades, de cujo mar brota uma ilhota de pedra, com um coqueiro encravado bem no centro. Assim é a Praia do Porto ­ não confunda com Porto de Galinhas. São cinco quilômetros de costa intocada e tranqüila (exceto nos finais de semana) onde o grande programa é deixar o tempo passar em ritmo de brisa. Grande parte da placidez deve-se à complicada trilha que dá acesso à Praia do Porto. Não há sequer uma placa indicando o tortuoso caminho.

Outro trunfo da costa sul pernambucana é a contagiante animação noturna. Porto de Galinhas praticamente monopoliza o agito ­ mas, no fim das contas, essa concentração acaba sendo positiva. Num raio de, digamos, 500 metros, estão os bares mais descolados, os melhores restaurantes (como o charmoso Beijupirá) e a rapaziada mais bonita. Em Maracaípe, o epicentro da agitação é a Vila de Todos os Santos, uma espécie de pólo gastronômico, onde moças e rapazes exibem os corpos sarados e bronzeados. Inaugurada há um ano, a Vila é mais uma prova de que por aqui não há tempo ruim. O lugar está cada vez mais animado e a balada rola solta até o amanhecer. Os oito quiosques ­ cada um especializado num tipo de culinária ­ foram erguidos na areia da praia mesmo e os finais de semana são embalados por bandas de rock, jazz e blues ou grupos de maracatu. Eis a questão: o que fazer depois de uma refeição saborosa e barata e de dançar ao som de uma boa música? Dar um mergulho no mar é uma bela pedida. O aconchego da água morninha e, depois, o hotel.

As duas princesas
Recife e Olinda

Elas são como duas lindas irmãs que cresceram brigando para ver quem era a mais formosa. Depois, aprenderam a conviver em harmonia. Olinda fica no litoral norte e é Patrimônio Cultural da Humanidade. Recife, no sul, orgulha-se de ser a capital do estado e de possuir uma das praias urbanas mais limpas, bonitas e badaladas do país: a de Boa Viagem. A rixa é antiga. Fundada pelo almofadinha português Duarte Coelho (não se sabe ao certo se em 1535 ou dois anos mais tarde), Olinda já era cosmopolita numa época em que São Paulo e Rio de Janeiro não passavam de modestos vilarejos. Foi capital da província até o Recife roubar-lhe o posto, em 1827.

Ambas exibem arquitetura européia. Casarios e igrejas seculares parecem se equilibrar pelas ladeiras de Olinda, as mesmas por onde milhares de foliões se esbaldam no Carnaval. O Recife não fica atrás. Ali está a primeira rua a ser calçada no Brasil, a do Bom Jesus, que recebeu o piso de pedras no início do século 17. O Recife Antigo, onde holandeses e portugueses viviam se engalfinhando, virou o ponto mais charmoso da noite. Revitalizado, o centro histórico deixou de ser meretrício e tornou-se pólo cultural. Há bares, restaurantes e uma disputada feirinha típica aos domingos, com comidas, artesanato e grupos folclóricos.

Olinda contra-ataca com a colorida Rua do Amparo, conhecida como dos Artistas. Motivo: a ruela é o endereço de um sem-número de ateliês. São pintores, escultores e músicos, gente de talento e alma um tanto riponga, que mora no pedaço e recebe o visitante de braços e portas abertos. Recife também vai muito bem no campo artístico. O novíssimo Parque das Esculturas, projetado pelo artista Francisco Brennand e construído no píer, em frente ao Marco Zero, é uma prova. Olinda tem a seu favor uma combinação poderosa: atmosfera barroca e casario colonial. Aceita um conselho? Na dúvida sobre qual dessas cidades irá conquistá-lo, fique com as duas.

Quem te viu, quem te vê
Litoral Norte

A empolgação do vendedor Jonas Campos, 51 anos, ilustra o novo vigor da costa norte de Pernambuco. "Há dois anos, não conseguia vender quase nada. Hoje, não há um dia que não saiam chapéus e rendas", diz Jonas. Os tempos das vacas magras parecem ter os dias contados por aqui. Por muito tempo ofuscadas pelas praias do sul, as do norte finalmente começam a receber atenção, do governo e dos turistas. Que bom! Areias como as de Maria Farinha e da Ilha de Itamaracá não merecem ficar para escanteio. É verdade que a estrutura hoteleira e as opções de lazer ainda não são páreo para as do litoral sul. Mas ganha-se em autenticidade o que se perde em conforto.

O secular Forte Orange, em Itamaracá, é um bom exemplo dos cuidados que a região está tomando para atrair e encantar os turistas. Construído de taipa, em 1631, pelos holandeses, foi tomado pelos portugueses, 23 anos mais tarde, e totalmente reformado. São dessa época os imponentes muros de pedra e os 13 canhões. Esse rico patrimônio passou anos abandonado. Hoje, em seu interior funcionam lojas de artesanato e um museu de sua história e da de Itamaracá. Das muralhas tem-se uma excelente vista de toda a praia e da Coroa do Avião, uma encantadora ilhota de areia, com palhoças que funcionam como bares. A travessia de barco até a Coroa do Avião é um dos passeios mais agradáveis.

Muitos turistas passam o dia inteiro na ilhota, mas três horas bastam para se dar uma gostosa caminhada, admirar a paisagem, traçar um prato de agulhas fritas e jogar um pouco de conversa fora. Outra vedete da porção norte pernambucana é Maria Farinha, situada a meio caminho entre Olinda e Itamaracá. É uma praia aprazível, de águas verdes e calmas, e com mais infra-estrutura. Junto ao mar, há dezenas de bares, daqueles em que se come peixes fritos com as mãos enquanto a areia acaricia os pés descalços, e um bom hotel, o Amoaras. Se você é daqueles que só davam atenção ao sul, chegou a hora de olhar para cima.

Já era ótimo. E melhorou!
Fernando de Noronha

Nitidamente irritada, a senhora esbravejou: "Desliga esse celular, homem! Esse lugar é pra gente curtir em paz, sem chateação"! Puxou, então, o marido pelo braço, empurrou-o para dentro do bugue e partiram rumo a um novo passeio pela ilha. Pois bem... A mulher decidida estava coberta de razão. Fernando de Noronha não é mesmo lugar para se ficar preocupado com o que está acontecendo no mundo lá fora. Chega a ser um sacrilégio pensar na poluição e no barulho das grandes cidades quando se está num dos lugares mais belos e maneiros do planeta. Topo de uma montanha submarina, cuja base está a 4 000 metros de profundidade, Noronha parece ter emergido do fundo do mar com um único objetivo: deslumbrar os que nela põem os pés. Foi assim com o primeiro forasteiro a aportar na ilha, em 1503, o navegador Américo Vespúcio. Continua assim até hoje.

"Eu vivia só para trabalhar. Quando conheci Fernando de Noronha, há 12 anos, descobri o verdadeiro sentido da vida", poetiza José Maria Sultanum, de 45 anos. Empresário do Recife, num passo de coragem, desfez-se do próprio negócio, comprou uma casa confortável no arquipélago e mudou-se para Noronha de mala e cuia, acompanhado da mulher, Ana Cláudia, 35. Hoje, sua ampla casa é a Pousada do Zé Maria, de longe a mais aconchegante da ilha e refúgio de dez entre dez celebridades que visitam Noronha. No mural de fotos exposto na sala, Zé Maria aparece abraçado com figuras como Renata Sorrah, Fábio Assunção, Joana Prado e Tiago Lacerda. "Trato todo mundo do mesmo jeito. Pode ser um artista muito famoso ou alguém que eu nunca vi na vida", afirma o anfitrião. "O segredo é fazer o pessoal se sentir em casa", diz Ana Cláudia, que também era empresária, até decidir "viver no paraíso".

Apesar de sua magnífica beleza, Fernando de Noronha tinha graves deficiências de estrutura hoteleira. Tinha. Até dois anos atrás, encontrar um hotel com ar-condicionado, TV, frigobar e banho quente era um negócio impossível. Hoje em dia, até mesmo as pousadas mais modestas dispõem disso tudo ­ ou quase. Curtir o mar azul-turqueza, as praias desertas, as baías intocadas e, principalmente, o alto-astral que impregna a atmosfera da ilha deixou de ser coisa de aventureiros e excêntricos. E o mais bacana dessa história é que os hotéis e pousadas evoluíram sem agredir o meio ambiente.

Declarado Parque Nacional Marinho em 1988, o arquipélago tem na preservação ambiental seu maior trunfo. Na Baía dos Golfinhos, por exemplo, ninguém entra. É ali que esses fascinantes mamíferos descansam, acasalam e apresentam um balé de saltos e giros aéreos. O espetáculo começa às 5 horas da manhã. Cedo demais? Pois sempre tem gente para assistir. A platéia fica tão empolgada que ninguém reclama por não poder descer até a praia, contentando-se em admirar o espetáculo do mirante da baía. O trabalho dos cientistas do Projeto Tamar, que cuida das tartarugas marinhas, também é acompanhado pelos turistas. Os visitantes se emocionam ao ver as recém-nascidas correndo em direção ao mar, tão logo saem de seus ovos. "Despertando a consciência ecológica nas pessoas, estamos ajudando a criar uma nova geração de turistas", diz o biólogo José Martins, coordenador do Projeto Golfinho Rotador.

Quem quiser ver os golfinhos mais de perto é só pegar um dos barcos que saem todos os dias do porto. Ao cruzar a baía, as embarcações são acompanhadas por dezenas desses animais. Já mergulhar com os bichos, uma prática comum há até dois anos, não é mais permitido. Os pesquisadores concluíram que isso estressava os animais e resolveram acabar com a festa. "É me-lhor assim", diz o pequeno Marcos da Costa, de 13 anos, uma das oito crianças da ilha que ajudam no trabalho dos biólogos e que, pelo serviço, recebe 120 reais por mês. "Ajudo a preservar a natureza e ainda ganho um dinheirinho", conta.

A Praia do Atalaia, cercada por rochas que lembram a origem vulcânica de Noronha, é outro ponto com acesso restrito. Por dia, apenas 100 pessoas podem saborear a placidez de seu mar e mergulhar em suas piscinas naturais, de águas transparentes. Outra regra: cada visitante só pode ficar na praia durante 20 minutos. O tempo de permanência é vigiado por implacáveis fiscais do Ibama. Enquanto você observa peixes de todas as cores e tamanhos, estrelas-do-mar e polvos, os fiscais ficam com um olho no relógio e o outro em você. Encerrados os 20 minutos, você é convidado a deixar o lugar. Demasiado zelo? As pessoas costumam mudar de idéia após conhecer Atalaia. Não fossem todos esses cuidados, com certeza a minúscula praia, de pouco mais de 50 metros de extensão, não estaria tão linda e conservada.

Nem tudo, porém, é limitado. A maioria das praias tem acesso livre e continua exuberante. As mais freqüentadas (e isso quer dizer pouco mais de duas dúzias de pessoas por dia) são as do Cachorro, da Conceição, do Boldró, do Americano, da Quixaba e Cacimba do Padre. Desta última tem-se a melhor visão dos Dois Irmãos, um par de ilhotas rochosas que, por motivos óbvios, os nativos chamam de Fafá de Belém. Ao lado do Morro do Pico, com 323 metros de altura, os Dois Irmãos são os mais eloqüentes cartões-postais de Noronha. A propósito, o nome do arquipélago foi herdado do burguês Fernão de Loronha (mais tarde mudado para Noronha), que financiou a expedição que trouxe Américo Vespúcio até essas bandas. A coroa portuguesa agradeceu o investimento dando-lhe o arquipélago. Mas não é que o infeliz morreu sem jamais ter batido os olhos no presentaço que ganhara?!? (VIAGEM E TURISMO AGO 2001)


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