09/08/2001
Primeira publicação sobre
Amado após sua morte sai em setembro

CARLA NASCIMENTO
da Folha Online
A próxima publicação sobre o escritor Jorge Amado a ser lançada no Brasil
virá com um selo de legitimidade concedido pelo próprio escritor, o da Fundação Casa
de Jorge Amado, responsável por todo o acervo do escritor e de sua mulher, Zélia Gattai.
"O Universo de Jorge Amado", que deverá ser lançado em setembro,
é uma retrospectiva de toda a obra do escritor até seu último livro, "O Milagre
dos Pássaros", publicado no Brasil em 1997.
O livro mostra as capas de todos os títulos publicados pelo autor em várias
línguas, reunindo 1.550 capas. Cada obra será acompanhada de um comentário feito na
época de seu lançamento. Organizado cronologicamente, o livro começa com as capas de
"O País do Carnaval" acompanhadas pelo trecho de uma análise de Marques
Rebelo.
Segundo Claudius Portugal, diretor-adjunto da fundação e organizador do
livro, foi difícil estabelecer um critério para a seleção dos textos, mesmo obedecendo
a uma ordem cronológica. "Muito se escreveu sobre Jorge Amado e sua obra. Foi
difícil escolher", disse. Para o organizador, os textos sobre as obras mais recentes
apresentaram uma dificuldade especial porque "os comentários em geral já não eram
mais sobre um livro específico, mas sobre toda a obra"
Na escolha, além da cronologia Portugal optou por não repetir nomes. Assim,
cada crítico ou comentarista é citado apenas uma vez, mesmo que tenha escrito sobre
várias obras. Entre os textos selecionados estão os de autoria de Jean-Paul Sartre,
Hélio Pellegrino, Mário de Andrade, Otto Lara Resende, Mario Vargas Llosa, Albert Camus,
João Ubaldo Ribeiro, Pablo Neruda, Simone de Beauvoir e Antonio Callado, entre outros.
O livro também apresenta outros aspectos interessantes da obra de Amado.
Assim como trechos de comentários de críticos e literatos, a menção a cada obra virá
acompanhada das ilustrações presentes nas edições. Outra curiosidade do livro é a
reprodução da carta de aceitação de Augusto Frederico Schmidt para publicação do
romance "País do Carnaval", de 1931. "A idéia é fazer um livro de
caráter didático sobre a obra do escritor", disse Portugal, que vem trabalhando no
projeto há um ano.
Um aspecto que acentua o caráter didático da obra é a divisão dos textos
por gêneros literários: romances, novelas, guias de viagem e teatro infantil, entre
outros.
A publicação, que deve ter entre 200 e 300 páginas, será lançada em
setembro e terá como capa um retrato do escritor, como os feitos por Cândido Portinari e
Giuseppe Giannini Pancetti.
Os textos inacabados do autor - "Bóris, O Vermelho" e "'A
Apostasia Universal de Água Brusca' - também deverão ser doados pela família à
fundação.
Em novembro acontecerá o seminário "Anos 30- Cultura e
Política", sobre os escritores dos anos 30, em homenagem a Jorge Amado. O seminário
será uma realização da Universidade Federal da Bahia, da Secretaria Estadual de Cultura
e da Fundação Casa de Jorge Amado. (FOLHA ONLINE)
| No jardim, o fim da
saga de Jorge Amado Cinzas
do escritor vão ficar no jardim da casa onde viveu, no bairro de Rio Vermelho
BIAGGIO
TALENTO
SALVADOR
- A reabertura da Fundação Casa de Jorge Amado na manhã de ontem, após ter permanecido
a terça-feira fechada em respeito ao falecimento do escritor, levou dezenas de turistas
ao local, ajudando os funcionários a substituir o clima de tristeza pela saudade do
mentor. No Cemitério Jardim da Saudade, o corpo do romancista, conforme seu desejo, foi
cremado ontem à tarde. As cinzas serão entregues à família hoje para serem depositadas
no pé da mangueira que Amado plantou na casa do Rio Vermelho onde residia com a mulher,
Zélia Gattai.
Turistas argentinas que conheciam a obra de Amado,
como Consolación Blanco, aproveitaram a manhã chuvosa de Salvador, ontem, para conhecer
o acervo de fotos do escritor, exposto no salão de entrada da fundação e comprar
edições em português de livros de Amado. "Eu entendo o português muito bem e é
sempre bom ler as histórias contada por esse grande escritor brasileiro, orgulho do seu
País", disse. A maranhense Cilene Freitas, também visitando a capital baiana,
comprou um exemplar de Dona Flor e Seus Dois Maridos para ser seu companheiro de viagem.
Os terreiros de candomblé também estão de luto com
a morte de Jorge Amado.
No Ilê Axé Opo Afonjá, comandado por Mãe Stella
de Oxóssi, grande amiga da família do escritor, haverá um ritual de axexê, despedida
fúnebre onde se cultuam os eguns (espiritos desencarnados) em homenagem a Amado. Ele era
obá de Xangô, um título honorário, concedido aos amigos da casa (por consentimento das
divindades africanas) de reconhecido saber. Jorge Amado, que se dizia ateu, com o título
tornou-se um tipo de ministro de Xangô, o orixá da Justiça. Seus amigos contam que ele
cultuava Oxóssi e fazia obrigações (conhecidas no candomblé como ébos). Embora tenha
estudado em escola de padres, Amado preferiu ligar-se a uma religião primitiva como o
candomblé, cujos adeptos não nascem pecadores, como ocorre com o catolicismo.
Homenagem - Para homenagear o escritor, o
governo baiano lança amanhã, quando ele completaria 89 anos, o Prêmio Literário Jorge
Amado. O regulamento do prêmio, que será anual, está sendo preparado pela Secretaria de
Cultura e Turismo do Estado mas em linhas gerais indica que qualquer pessoa do País
poderá participar inscrevendo trabalhos literários e expressões artísticas
relacionadas com a obra do escritor.
O governador César Borges (PFL) não quis adiantar
nada sobre o valor do prêmio, mas garantiu que será um dos maiores dados à literatura e
à arte brasileiras. Os membros da Academia Brasileira de Letras terão a missão de
julgar os trabalhos.
Sobre a possibilidade de a viúva do escritor, Zélia
Gattai, ser escolhida para ocupar a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, que
pertencia a Jorge Amado, o governador disse: "Ela é uma grande escritora, tem uma
obra já lançada e aplaudida por tudo o que fez e, portanto, só tenho que apoiar e ficar
muito contente que outros brasileiros estejam lembrando do seu nome para ocupar essa
cadeira."
Na Itália - A comédia musical inspirada no
romance Dona Flor e Seus Dois Maridos deverá estrear no segundo semestre do ano que vem,
na Itália. O espetáculo em projeto é considerado "uma homenagem a um grande
escritor que honrou a literatura com sua arte inigualável", de acordo como produtor
Franco Fontana. A música da peça será escrita por Chico Buarque de Hollanda e Lucio
Dalla. O livro tem uma versão para o cinema. (O ESTADO DE S. PAULO) |
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