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09/08/2001

Riachão estréia no formato CD aos quase 80 anos

Riachão, um dos pilares do samba da Bahia com Batatinha, que lança hoje e amanhã em São Paulo seu CD "Humanenochum" . Foto Luiz Carlos Murauskas/Folha Imagem

Representante da vertente alegre da música local, artista é precursor do axé, com o qual diz não se misturar



PEDRO ALEXANDRE SANCHES
DA REPORTAGEM LOCAL

   A um mês de completar 80 anos, o sambista Clementino Rodrigues, mais popular em seu Estado natal como Riachão, poderia ser interpretado como um vovô da atual música pop baiana, matriz tanto de Carlinhos Brown quanto do Compadre Washington.

   Mas, não, Riachão não é inventor da axé music nem do samba-reggae, como demonstra o agora nacionalmente lançado "Humanenochum", sua chegada tardia ao mundo do CD. O nexo entre passado e presente pode até se dar pelo parentesco de É o Tchan com o samba de roda da Bahia, mas é na alegria musical que Riachão se faz avô, pai e irmão da rapaziada.

   E, não, ele não se identifica com axé. "Música é como chita na loja. Tudo é bom e bonito, não posso condenar. A mesma fazenda de tecido que um odeia o outro acha linda. Não me meto, cada macaco no seu galho", diz, auto-referente.

   É que "Cada Macaco no Seu Galho" é até hoje seu principal sucesso, porque foi gravado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, quando voltavam do exílio político em Londres, em 72. A referência à chita é Riachão misturando ofícios na memória: aprendiz de alfaiate foi outra de suas profissões.

   Se ele é reticente quanto ao axé, seus "netos" também são. Quem faz o atalho é o músico baiano Paquito, 37, responsável há quatro anos pela volta ao disco do sambista histórico baiano Batatinha (1924-97) e produtor, com J. Velloso, de "Humanenochum": "Riachão é precursor dessa gente que manda tirar o pé do chão, mas ele é elegante. A axé music é descuidada com sua origem. Mandei músicas de Riachão para Ivete Sangalo e Daniela Mercury, elas nunca gravaram. O que falta é coragem, curiosidade".

   Perdido por uns dias em São Paulo (faz shows hoje e amanhã, no Sesc Pompéia), Riachão conta sua vida desde antes da alfaiataria.

   Primeiro, o apelido: "Na Bahia, quando um sujeito era destemido e brigava muito, era chamado de riachão. Quando criança, eu admirava muito Lampião, não tirava um punhal da cintura. Sentia prazer em ser o riachão. Mas este seu amigo há muitos anos passou a odiar a violência. Nem na TV vejo mais programas de agressão".

   Chegou a usar o punhal antes de deixar de ser riachão para virar Riachão? "Vim a usar o punhal, mas já tinha 15 anos. Botei camarada no hospital através do punhal. Minha família é de Santo Amaro, gente boa, mas que briga muito", diz, falando da terra que também é de Caetano.

   A memória octogenária parece ainda misturar música e violência. "A música entrou aos 14 anos. Era punhal e música, briga e música. Um dia vi um pedaço de revista na rua. Não tive escola, mal sei ler, mas vi que falava que "se o Rio não escrever a Bahia não canta". Cheguei em casa machucado com isso. Foi quando Jesus me mandou o primeiro samba, "sei que sou malandro, sei/ conheço meu proceder". Que emoção quando isso chegou ao meu juízo. Cantei o dia inteiro. Com 15 anos comecei, com essa música."

   Logo Riachão constituiu persona artística preocupada com imagem acompanham-no até hoje anéis, lenços, boné e uma indispensável toalha no pescoço. Na Rádio Sociedade da Bahia, apresentou programas e cantou em duplas, trios e solo de 44 até 71.

   "Aí acabou o rádio, por causa da TV. Aqueles artistas todos perderam seu espaço, muitos morreram apaixonados." Da rádio, foi ser contínuo. "Falei com Antonio Carlos Magalhães, que já era governo, e ele me arranjou esse emprego no Desenbanco, pelo qual agradeço de todo o coração."

   Paradoxalmente, foi aí que seu nome ganhou maior circulação, graças à gravação de Caetano e Gil e à consequente edição do LP "Samba da Bahia" (Philips, 73, fora de catálogo), dividido com seus pares Batatinha e Panela.

   O samba que encantou Caetano e Gil fora composto por volta de 1964. Reza a lenda que versos como "o meu galho é na Bahia", "o seu é em outro lugar" eram endereçados a um político, mas Riachão não está disposto a decifrar o caso: "Sou muito esquecido. Baseadamente, não me lembro disso. Não gosto desses negócios de políticos", corta. Mas lembra o encontro com Caetano e Gil: "Eles foram à Bahia e formaram uma reunião com o pessoal da Philips para escolher uma música que fosse adequada à vinda deles ao Brasil. Chamaram os sambistas da Bahia, mas fui traído por meus companheiros, que não me passaram o recado. Caetano e Gil namoravam as filhas de seu Gadelha, que era meu chefe no banco. Na segunda, quando cheguei, o sogro reclamou minha falta. Expliquei tudo, ele fez um bilhete para eu comparecer à casa deles".

   "Tomei umas cachaças e fui. Estava toda a turma da Philips de mortalha, era sábado de Carnaval. Fui cantando. Quando comecei "Cada Macaco no Seu Galho", só vi a turma fazendo sinal de positivo com a mão. Dali a pouco era só grito, "é essa, malandro!"."

   Fora daquela breve bolha, permaneceu à margem até a tentativa atual de Paquito e J. Velloso, quando Riachão pode ser tido como "o avô de Carlinhos Brown", como defende Carlos Rennó, "oportunista benéfico e útil" ao assumir o posto de co-diretor musical dos shows em São Paulo, segundo suas próprias palavras.

   Riachão concorda? "Concordo, esses meninos eram crianças e aprenderam muita coisa com este amigo seu. E seguem aprendendo, mas meu ritmo é um só: o samba do morro carioca."

   Uai, mas o samba não nasceu na Bahia? "Nasceu, mas foi o samba de roda, de capoeira, que o Rio lapidou. O que condeno na minha terra é que não abraçou o samba como o Rio. Deixam de cantar o samba gostoso para abraçar axé music. Fazem umas batidas diferentes dizendo que é pagode, não é. Mas muito jovem gosta do nosso ritmo da velha-guarda, deste veneno do samba que é Riachão." (FOLHA DE S. PAULO)

Artista é mosca na sopa do caldeirão baiano

DA REPORTAGEM LOCAL

   Algo de estranho acontece na Bahia. Tanto os jovens do pop local como o quase octogenário Riachão parecem reconhecer os laços que os unem, mas mesmo assim não parecem se bicar muito uns com o outro.

   Mais que isso, parece haver mesmo um abismo cultural entre eles, que se chamaria porventura conflito de gerações, ignorância musical, regime militar, ACM, mercantilismo desenfreado, filosofia artística...

   O que se vê, na virada dessa curva, é que há partículas escondidas por debaixo do tapete da cordialidade baiana.

   A volta de Riachão à música, concomitante à decadência comercial da axé music, pode ser em 2001 a mosca da sopa que faltava nesse caldeirão.

   A grande família bipartida cria, a esta altura, filhos como os produtores e também artistas Paquito e J. Velloso, que ousam se opor à máquina de fazer dinheiro e bancar discos magníficos como o hoje já desaparecido "Diplomacia" (EMI, 98), de Batatinha (que morreu antes de ver seu CD chegar às lojas), e este "Humanenochum", de Riachão, que esperou mais de um ano para ser lançado sem despertar interesse de nenhuma grande gravadora.

   Afora a falta de referências sobre o assunto fora da Bahia, não há por que desacreditar dos produtores, que definem Riachão e Batatinha como os dois baluartes mais importantes da tradição do samba da Bahia.

   Opostos complementares, o compenetrado Batatinha e o estabanado Riachão formam raízes vitais da árvore frondosa da música baiana.
Ainda que uns e outros negassem o samba em várias passagens de suas carreiras, a tristeza de Batatinha está em Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa como a alegria de Riachão está em Gilberto Gil, Carlinhos Brown e Daniela Mercury. Ou vice-versa, ocasionalmente. O samba os une e desune, a todos.

   Riachão, como se ouve no disco agora lançado, faz samba bom, mas menos sofisticado e elaborado que o de Batatinha. Por entre frases ricas de simplicidade (como "olha pra cima, o que é que vê/ vê o elevador Lacerda/ que vive a subir e descer", na tocante "Retrato da Bahia"), ele faz a crônica de sua terra e se move desordenadamente pela música.

   Nesse bailado, oscila entre pequenas confusões, pequenos achados, reluzente instrumental sambista, uma ou outra obscura faísca de gênio.
Assim fluem "Choro nº 1", "Não Fale Comigo Agora", "Até Amanhã" (aqui dividida majestosamente com Ivone Lara), "Somente Ela", as semiconhecidas "Cada Macaco no Seu Galho" (que Caetano e Gil gravaram duas vezes, em 72 e 93) e "Vá Morar com o Diabo" (presente no disco mais recente de Cássia Eller).

   Ali, Riachão é instinto e vitalidade. Nesse sentido, linguagem estranha (exemplo é o inexplicável termo "humanenochum" que denomina o disco), picardia às vezes tenuemente maliciosa e a sabedoria que não vem dos bancos escolares o unem a Carlinhos Brown e, até, aos fracos letristas de axé.

   Brown nunca trouxe muito a público sua congruência com Riachão, mas a impagável "Pitada de Tabaco", que arranjou e canta com o professor informal, reata alguns elos perdidos. É samba, axé e timbalada, moderna e antiquada de uma vez -o próprio espírito tropicalista.

Tropicália

   A tropicália, aliás, está presente no CD com dois de seus fundadores: Tom Zé faz versão cortante e idiossincrática de "Cada Macaco no Seu Galho", em reflexo espelhado com a interpretação de Caetano Veloso para "Vá Morar com o Diabo".

   Cantando feito sambista da antiga, Caetano comenta a um tempo a tropicália e o que ela negou -e é, ainda, o líder da única geração baiana que soube valorizar batatinhas e riachões, ainda que por períodos intermitentes.
A faixa de Caetano fica, no disco, ao lado de "Retrato da Bahia", cantada pelo sôfrego Riachão com a colega de geração Claudete Macedo, menos conhecida ainda do que ele. Tudo o que se pode pensar sobre o que a Bahia criou e/ou abandonou está guardado na voz calma de Claudete.
Coisas muito estranhas acontecem na Bahia. (PEDRO ALEXANDRE SANCHES) (FOLHA DE S. PAULO)


QUEM GRAVOU RIACHÃO

Jackson do Pandeiro
"Judas Traidor", "Meu Patrão", "Saia Rota"

Trio Nordestino
"Retrato da Bahia", "Bochechuda", "Papuda", "Vamos Pular, Gente"

Caetano Veloso e Gilberto Gil
"Cada Macaco no Seu Galho"

Marinês e Sua Gente
"Terra Santa"

Roberto Ribeiro
"Até Amanhã"

Gang do Samba
"Cada Macaco no Seu Galho"

Cássia Eller
"Vá Morar com o Diabo"

Com relação a este tema, veja também:

Veja sites de Caetano Velosso, Gilberto Gil, Jackson do Pandeiro e outros na seção MÚSICA - ELES
Veja site de Marinês e sua gente e outros na seção MÚSICA - ELAS

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