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13/08/2001

Novos beats do mangue

Surgido no rico cenário recifense de virada do século, o Cordel do Fogo Encantado tem empresário francês e está na Europa para 12 shows
Fertilidade do movimento criado por Chico Science em Pernambuco gera novas bandas e se firma sobre a diversidade

ADILSON PEREIRA

   Chico Science morreu num acidente de carro em 1997. O mangue beat, não. Mais do que isso: o movimento que pregava a valorização do sotaque nordestino dando-lhe pitadas de modernidade transformou-se e gerou frutos diferentes. É claro que, com a ida desta para melhor do  "músico esperto agora visto como herói", houve um breve momento de dúvida sobre a capacidade de a coisa seguir em frente. Science, eleito por uma revista paulistana o músico brasileiro da década, era um marqueteiro. No bom sentido, dizem seus colegas ainda vivos, porque aquela galera nordestina precisava de alguém que soubesse se aproveitar da máquina formadora de opinião.

   Surgiram bandas que não passaram de cópias descaradas e, estas, sim, morreram. Mas outras tantas, aproveitando a porteira aberta pelo ex-líder da Nação Zumbi (que segue firme e forte), Fred Zero Quatro e companhia, vieram para dar sangue novo ao negócio. Gente que não copia, cria. É o caso dos rapazes do Textículos de Mary, de Silvério Pessoa com seu Bate o Mancá, DJ Dolores, Ataque Suicida, Cordel do Fogo Encantado, Mônica Feijó, Digital Groove, Querosene Jacaré.    Contemporâneos - Alguns são contemporâneos de Science nos palcos recifenses, outros são mais novos mesmo. E não são exatamente farinha do mesmo saco. Tudo bem: a pluralidade de estilos que sugerem faz parte da essência do movimento original, que queria mostrar a capacidade criativa daquela região. Capacidade que continua sendo bem absorvida e consumida pelo endinheirado Sudeste. Os veteranos Otto e Nação Zumbi, além do DJ Dolores, por exemplo, foram duas das atrações do Free Jazz Project, que aconteceu no Rio. E a Fundição Progresso viverá na próxima sexta-feira o que batizou de Uma Noite em Pernambuco, com Mestre Ambrósio, Kaya na Real (reggae) e um DJ que pretende congestionar as carrapetas com clássicos do mangue beat.    Do frevo ao mangue beat (Editora 34), que aponta como original o trabalho do Pajé Limpeza, grupo que trabalha não só com música mas também com vídeo e cinema e se apresenta como uma espécie de dissidência do mangue.

   A rapaziada do Pajé não gosta de se comparar a crustáceos, como fazia Chico Science (''Sou um caranguejo com cérebro'', declarou ele certa vez). Eles preferem dizer que são moluscos. Brincar com as palavras tudo bem, mas Teles diz que o ''eterno amadorismo'' às vezes prejudica um pouco. ''A cena é muito rica mas não criou grandes empresários'', reclama, vendo no fato de os jovens terem encarado o conservadorismo do estado o grande mérito do mangue beat. ''Isso aqui ainda hoje é dominado por oligarquias, o frevo morreu por causa desse reacionarismo. O mangue beat criou seu próprio espaço e obrigou os caretas a olhar para eles'', conclui.

   Importações - Na falta de empresários locais, importa-se. O Cordel do Fogo Encantado está na Europa para 12 shows graças ao francês Marc Regnier. ''É uma turnê que prova que há um público certo. Isso estimula o surgimento de grupos novos, mantém o mangue beat mais vivo. Chico Science fez poucas apresentações por lá, mas foram fortes e as pessoas lembram sempre e se interessam quando sabem que é algo de Pernambuco e, mais ainda, quando se trata de uma expressão ligada ao mangue'', diz Regnier, que está há dez anos no país e vende também para além-mar shows de velhas guardas de escolas de samba.

   Lirinha, cantor do Cordel (formado em 1997), está agradecido a Science: ''O mangue é um conceito-manifesto sobre diversidade. Prega a abertura em vez da restrição e nesse sentido o Cordel se relaciona diretamente com o movimento.'' Para o cantor, é natural que os grupos procurem os grandes centros para mostrar seu trabalho. ''Mas não consigo achar que São Paulo é um palco mais importante do que Pernambuco'', compara ele, achando que a visão é compartilhada por outras bandas e que isso ajudou a manter fértil o mangue.

   Fértil para abastecer o hardcore do Ataque Suicida, que vendeu 2 mil cópias de um CD demo e já participou de duas coletâneas aquecendo-se para fazer percurso inverso ao do Cordel: ir em direção ao interior do país. Apesar disso, logo, logo vai se ouvir falar deles aqui, anote. ''O mangue ensina a não copiar'', diz Maurício Alves, 25, cantor do grupo, referindo-se não apenas à trajetória escolhida. (Jornal do Brasil)

Para a substância não virar lodo

   Aproveite a caneta para deixar registrado também o nome do Digital Groove, duo eletrônico formado por Felipe Falcão e Zezão Nóbrega, que participou do disco de Silvério Pessoa, Bate o mancá - O povo dos canaviais. ''O que a gente faz é adaptar o regional para a eletrônica'', explica Nóbrega, que se diz influenciado por música clássica e jazz e anda ouvindo Fatboy Slim, Primal Scream e Massive Attack. O mangue dá a ele chance de misturar isso tudo. Mas é claro que misturar não é o bastante. O plus está na ''gestação contínua'', como diz Silvério. ''Superamos o discurso da geração de bandas novas. Agora, estamos cuidando da qualidade, para consolidar'', segue o cantor.

   Fala-se muito que o mangue beat também deu uma injeção de orgulho no jovem artista nordestino. Talvez venha daí a irritação de Silvério com o fato de músicos de sua região, ainda hoje, estarem relegados a segundo plano quando se fala do pop no Brasil. O mangue, porém, não garante tudo: Silvério está há dois anos tentando comprar uma guitarra e não consegue. ''A gente não pode sacralizar, virar coronel de engenho. Pode eletrificar o forró, mas com cuidado. Não posso negar tecnologia ao trabalhador'', diz ele, pregando: ''que ninguém fique babando ovo de Mariozinho Rocha (diretor musical da Globo) para entrar em trilha de novela''. Para não deixar o mangue virar lodo. (A.P.) (Jornal do Brasil)


Crustáceo bom é o que se mistura

   Dois caranguejos andam se destacando no mangue: Mônica Feijó, 34 anos, e DJ Dolores, de 35. Ela já fez participações rápidas em novelas (Mico preto, Cambalacho), tem sua voz usada pela Infraero em aeroportos do Norte e Nordeste e depois de fazer backing vocals para o grupo pernambucano Faces do Subúrbio (de rock pesado), está lançando o primeiro disco solo, o bom Aurora 5365. Dolores, por sua vez, sempre foi um misturador, desde os idos de 1989, quando comandava as carrapetas na festa Sexta Sem Sexo, em Recife; anda colaborando, no Rio, com Elza Soares e Seu Jorge e está nos finalmentes de seu primeiro disco solo: DJ Dolores e orquestra Santa Massa. Ele já trabalhou com todos os pesos pesados do mangue beat e meteu a mão na trilha do Rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas, documentário de Paulo Caldas e Marcelo Luna.

   O Querosene Jacaré é outro que está seguindo e se destacando, mas não com a mesma intensidade de Dolores e Mônica. A banda de Alfaia, Adelson Luna e companhia está lançando Fique peixe, obra que antes de virar compact disc foi disponibilizada por eles gratuitamente na internet. Fique peixe às vezes soa Science demais - apesar dos toques à Ben Jor, coisa que o aproxima da estética do mundo livre s/a - e parece exageradamente longo, apesar de seus módicos 44 minutos.

   Intérprete - Passam voando, por sua vez, os 37 minutos do disco de Mônica Feijó. Deixa água na boca. ''Sou muito mais intérprete. Vou cantar quem? Os meus, que estão fazendo coisas boas agora'', declara a moça, que, apesar disso, deixou sua assinatura em três das dez faixas do disco. Uma é Samba 104, com Zé Brown e Pácua, conhecidos dela dos tempos de Faces do Subúrbio. Samba 104 mostra como Mônica sabe brincar com a voz, é uma espécie de momento Björk do CD, que tem uma convidativa releitura de O filho predileto de Xangô (Jorge Mautner) e a superdançante, graças à ótima base, Toca pra Zumbi (Pácua).

   Passam voando duas horas de conversa por telefone com Dolores. Ele tem muitas histórias de viagens, uma vez que já foi aos EUA e à França para se apresentar como discotecário. Uma espécie de discotecário oficial do mangue. ''Toquei muita coisa nordestina, fazia questão de não ficar na bossa e no samba'', diz Dolores. Funcionou, ele conseguiu se destacar de grupos que considera caricatos e que, mesmo sem nenhuma intimidade, pegam no berimbau para dizer que fazem música tradicional brasileira. Para gringo ver, só.

   Um DJ, só, pode não fazer verão e Dolores parece saber disso. No projeto Orquestra Santa Massa é acompanhado por, entre outros, Isaar, uma das integrantes do grupo Comadre Florzinha (outro expoente da cena musical daquela região, que já fez bonito no festival Abril Pro Rock, de Recife). ''A gente quer preparar um disco de banda mesmo e não ficar só com aquela coisa de mixar, como muitos DJs fazem. Quer misturar a pegada eletrônica e a rabeca, que considero uma espécie de síntese do mangue, atualmente'', adianta Dolores. O disco sai em outubro pelo selo alternativo Candeeiro, de Recife. (A.P.) (Jornal do Brasil)

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