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13/08/2001

Em louvor de Gabriela

Jorge Amado foi mais do que um escritor, dono de uma excepcional destreza na arte de narrar. Como poucos, o escritor baiano - morto segunda-feira passada e que ontem faria 89 anos de idade - compreendeu a alma dos brasileiros

Ruy Vasconcelos

   Qualquer brasileiro que assistiu ou leu Gabriela tem razões e razões para amar Jorge Amado. A telenovela, mais que seus romances, bem delimita o fenômeno: Jorge Amado concentra um grandeza tão ímpar que é bobagem tentar entendê-lo apenas como escritor. Se fosse só assim, e ele seria mais um entre tantas feras que resolveram dar voz ao Nordeste na década de trinta. E mesmo viria em quinto lugar, após Graciliano, Zé Lins, Gilberto Freyre e a Rachel de Queiroz d'O Quinze.

   Acontece que Jorge Amado foi mais que um escritor. Assim como a vida é mais que uma escrita. E, logo, sua obra está para os brasileiros como um desses valores de épica recorrente. Esses que se erguem em emblemas, constróem legendas: o futebol; o samba; o carnaval; ou o catolicismo popular, sincrético e quiliasta.

   Também não é decisivo pensar como fundamental a distinção que há entre seus romances e as adaptações destes para as telas grande e pequena. Ou mesmo dizer que a telenovela ou o filme - no caso, Dona Flor - são produtos bem distintos dos livros em que se inspiraram. Em parte o são, sem dúvida. Agora, nem sequer existiriam sem a precedência dos respectivos romances. E mais, que outra telenovela foi tão emblemática? Ou mesmo, o que Bruno Barreto conseguiu fazer que concentrasse tanta magnitude depois?

   E por detrás disso, é claro, está a destreza narrativa de Amado, esse genial contador de histórias.

   Falo em genialidade porque esta foi a única palavra que lhe negaram nos necrológios. Em meio a tantos elogios de ocasião, em meio a tantas exéquias, esqueceram de dizer o trivial.

   Acontece que vivemos numa época obcecada pelo conceito de vanguarda. E que, por absolutizar muito a si própria - ou seja, o momento presente -, quase perde de vista o fato de que alguns dos maiores artistas de todos os tempos nada tinham de vanguardistas. Bach de uma vez e para poupar exemplos.

   Em Portugal, ainda mais que no Brasil, a morte de Jorge Amado rendeu páginas incontáveis nos principais diários. E em quase todos a recordação de que Gabriela era tão popular, que os portugueses que não possuíam televisor em casa, se reuniam diariamente nos cafés para assisti-la. E mesmo a Assembléia Nacional interrompia seus trabalhos no horário da transmissão.

   E, de fato, Gabriela é um caso raro em que os personagens de um livro encontraram sua coincidência máxima na tela da TV. Uma sorte de felicidade geral. Um elenco a meio caminho da utopia irrestrita. Meio como no Morte em Veneza, de Mann, traduzido por Visconti para o cinema.

   Pode-se falar em Gracindo encarnando toda a patriarcalidade e altivez do velho Coronel Ramiro Bastos. Mas os outros coronéis, o Amâncio e o Coriolano também não estavam nada mal na foto eletrônica. Assim como não estavam o canastrão Tonico Bastos na pele de Fúlvio Stefanini ou a prostituta Zarolha sob o charme da soberba Dina Sfat. Para não falar do casal protagonista vivido por Armando Bógus e Sônia Braga. Esses caracteres estão para os brasileiros meio como os mitos redivivos de Homero e Sófocles para os gregos.

   Duas cenas dessa novela respondem por aqueles momentos prismáticos de toda história do folhetim eletrônico: a que Sônia Braga escala o coreto para resgatar uma pipa sob os olhares gulosos de toda a população masculina de Ilhéus - nunca um corpo sob um fino vestidinho de chita teve um correspondente rosto sorridente tão manifestamente sensual; e a que um jagunço assoma meio difuso, montado a cavalo, brandindo um chicote e com grito distorcido de apocalíptico, proclamando a morte do velho coronel, quase ao fim de tudo. E logo o defunto aparece, altivo mesmo na morte, em meio à gaze esvoaçante.

   E é um pouco um contrasenso que tal obra-prima da tv tenha sido produzida no coração mais central da ditadura. Talvez nenhuma outra telenovela haja sido mais subversiva - no melhor sentido do termo. Subversiva por inteligência e instigância. Pela majestade do elenco e desfecho do enredo. Pela sonho sensual que era Sônia. Por revolver as chagas mais recônditas da sociedade patriarcal do Brasil agrário.

   Uma história tão bem contada quanto a de Gabriela, tanto no livro quanto na pequena tela, cria uma geografia que reverte-se para fora de si. E assim, todo prostíbulo é um pouco Bataclã. Todo bar, um pouco Vesúvio. Todo amante, um pouco Nacib. Todo país - e especialmente Portugal - um pouco Brasil. Todo leitor amador, um pouco de Jorge Amado.

   Mas há também os versos especiosamente simples que o próprio autor de Gabriela escreveu para um magnífico tema de Djavan: ''o que fizeste, Sultão, de minha alegre menina?/ palácio real lhe dei, um trono de pedraria / sapato bordado a ouro, esmeraldas e rubis / ametista para os dedos, vestidos de diamantes / escravas para servi-la, um lugar no meu dossel / e a chamei de rainha...'' Impossível não se comover ante a beleza dessa canção e ante a grandeza que ela - ao modo da própria novela de que foi tema - promete para os veículos de massa no Brasil.

   Desde a escola, no entanto, aprendemos a ler com Jorge Amado. Capitães da Areia, por exemplo, é um livro de uma propedêutica ímpar. E assim como quase tudo em Amado, bem melhor que o politicamente correto dos diascorrentes.

   De outro modo, Amado é um bocado responsável por muito da estética e do pensamento político de pelo menos duas gerações. Algo em que havia muito de solidariedade e de sensualidade debaixo do sol. Debaixo de um sol brasileiro, mais que vaidade.

   O fato de sua obra ser irregular não é nada importante. Seria, se tivesse publicado meia-dúzia de livros. Porém, publicou meia centena. Poderia ser diferente? Então, fiquemos com o que há de melhor: A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Agua, Capitães da Areia, Dona Flor, Terras do Sem Fim e Tenda dos Milagres.

   E com talvez o maior deles, Gabriela, em que, depois de lida na tv, impossível ver no livro os personagens diferentes desses Gracindo, Sfat, Bogus, Wilker, Gonzaga ou quase todos naquele folhetim opulento. Claro, e Sônia Braga. Tão encantadora e menina - recém-chegada de Vila Sésamo. Envolta em uma tal aura de ternura, inocência e viço, que até hoje a desculpa da personalidade azeda e mercantil que veio em sucessão.

   Que estranho fabulador pôde jamais sonhar essa Gabriela.

   E é também estranho pensar que o país parecia mais atrevidamente globalizado àquela época que hoje. Estranho, mas verdade.

   A morte de Jorge Amado é bem o desfecho do Brasil que ameaçou dar certo no final dos anos 50 e foi tão brutalmente desviado de sua vocação. Uma vocação de originalidade, atrevimento e conspirada modernidade.

   Virá de quem reencontrar esse caminho? (O POVO)

Ruy Vasconcelos, 38, é escritor. Autor de José Albano - Errante e Peregrino (Edições Demócrito Rocha) e 39 amostras de conversa (no prelo).


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