15/08/2001
Evaldo Cabral de Mello visita feridas
abertas do Brasil
Historiador lança ensaio de história
pernambucana e organiza escritos políticos de Frei Caneca
SYLVIA COLOMBO
EDITORA-ADJUNTA DA ILUSTRADA
No começo, chamava-se Nova Lusitânia, e os
primeiros colonos a aportar no século 16 sonhavam em construir ali um prolongamento de
Portugal. De Nova Lusitânia a Pernambuco, muita coisa mudaria. A capitania que, a
princípio, fora fiel à metrópole, se transformaria, ao longo dos séculos, em
verdadeiro pomo de discórdia da ordem colonial e de parte do período
pós-Independência.
Em "A Ferida de Narciso - Ensaio de História
Regional", o historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello, que escreve mensalmente
no Mais!, investiga as razões pelas quais a região assumiu postura combativa em vários
momentos de sua história, em relação à dominação holandesa (no século 17), na
Guerra dos Mascates (no século 18) e, por fim, no processo que se iniciou na revolução
de 1817 e terminou na Confederação do Equador (1824).
Tudo começa quando o primeiro donatário de
Pernambuco, Duarte Coelho, importa da Ilha da Madeira o modelo dos engenhos de açúcar.
Para o historiador, Coelho desconfiava de que o sistema -implementado na ilha com
características urbanas e mais democráticas-, ao se espalhar por uma grande área, como
eram as terras de Pernambuco, poderia causar danos gravíssimos a outras culturas. Cabral
de Mello apresenta o processo e suas consequências políticas e sociais. "Ao
conjunto importado da Madeira, a única adição importante feita no Brasil foi a da
senzala."
A partir daí, o livro resume a história de
Pernambuco, mas foca em especial o momento em que o nativismo toma força na região.
Isso teria acontecido depois da expulsão dos
holandeses, em 1654. Cabral de Mello explica que o fato de Pernambuco ter até então se
considerado um prolongamento de Portugal fez com que se criasse uma expectativa de que,
depois de expulsos os holandeses, a província recebesse um tratamento especial da
metrópole. Como isso não aconteceu, o nativismo teria tomado força e estaria na base
dos movimentos revolucionários vindouros.
O historiador não concorda com a
"acusação" de separatismo quando se fala dos movimentos revolucionários de
1817 e 1824. Acredita que esse conceito não cabia numa época em que o Brasil não se
encontrava ainda estabelecido, senão formalmente. Para ele, o objetivo dos movimentos era
o de instaurar um Estado de direito descentralizado, garantindo autonomia ao Nordeste.
Também chega às livrarias "Frei Joaquim do Amor Divino Caneca", coletânea de
textos políticos do revolucionário pernambucano organizada pelo historiador. O livro
será lançado nesta quinta-feira, às 19h30, na livraria Argumento (r. Dias Ferreira,
417, Leblon, Rio, tel. 0/xx/21/ 2259-9398).
Na introdução ao volume, Cabral de Mello não poupa
críticas à historiografia fluminense construída a partir da Independência para
justificar o Estado unitário que se formava. Essa historiografia conservadora, que ele
chama de tradição "saquarema", teria contribuído para ofuscar projetos
políticos para o Brasil surgidos naquela época no Nordeste.
O volume traz as obras políticas de Frei Caneca,
que, com as literárias, constavam de uma edição de 1875, feita em Pernambuco. Integram
a seleção, entre outros, o "Typhis Pernambucano", periódico editado por ele
nos anos da Confederação do Equador, e o "Itinerário", um diário da retirada
das tropas rebeldes. (Folha de S. Paulo)
| Pesquisador ainda vê "vícios" na história do país DA REDAÇÃO
Leia abaixo os principais trechos da entrevista que o historiador Evaldo Cabral de Mello
concedeu à Folha, por telefone, de sua casa, no Rio de Janeiro.
(SC)
Folha - O senhor atribui a dificuldade que existe de
compreender a importância de Frei Caneca e o fato de ele não ter se tornado uma figura
nacional à nossa historiografia de tradição "saquarema". Crê que os
historiadores cometam os mesmos vícios hoje?
Evaldo Cabral de Mello - Sim, ainda se cometem os mesmos vícios, mas
inconscientemente. Para a historiografia brasileira, o processo de Independência
política continua a ser uma história virada exclusivamente para Rio de Janeiro, São
Paulo e Minas Gerais.
Folha - O senhor diz que Frei Caneca representava uma
alternativa possível à Independência que foi construída no Rio. Como acredita que a
história do Brasil poderia ter sido caso a Independência fosse feita em Pernambuco?
Cabral de Mello - Creio que o Império não teria se constituído da maneira como
foi, como um Império de feição autoritária. E nem seria tão centralizado, com o
domínio das antigas elites portuguesas, algo que caracterizou todo o período de d. Pedro
1º até a Abdicação (7 de abril de 1831).
Folha - O senhor diz que Frei Caneca tinha tudo para seguir
o estilo de vida e de pensamento dos reinóis (portugueses que haviam se fixado no
Brasil), pela origem paterna e pela formação. O que acredita que o tenha desviado para
assumir uma postura combativa?
Cabral de Mello - Seu período no seminário de Olinda certamente ajudou a definir
isso. O seminário havia sido criado em 1801 para melhorar a qualidade do clero na região
e acabou se transformando num viveiro de ideólogos, formando inclusive muitos padres que
participaram da revolução de 1817 e depois na de 1824.
Frei Caneca foi uma espécie de iluminista tardio. Toda cultura dele era iluminista, e
isso fica claro quando vemos os autores que ele costumava citar. Sua cultura era
enciclopedista. Ele foi uma pessoa de uma formação intelectual riquíssima para um
brasileiro da época, sobretudo para alguém que nunca saiu de Pernambuco, a não ser no
período em que esteve preso na Bahia. Além dos escritos políticos, escreveu tratados de
retórica e de geometria e poesia, ainda que esta não tenha sido lá de grande qualidade.
Folha - Sua produção literária não é muito conhecida,
não?
Cabral de Mello - Não, não é, mas foi publicada em Pernambuco. Para esse livro,
selecionei apenas os escritos políticos. Literatura não era o forte dele ao lado das
outras coisas que produziu. Acho que, hoje, tem interesse só para historiadores da
literatura. Mas pode ser que amanhã se descubra que seus poemas são formidáveis.
Folha - O senhor fala de uma carta de amor que ele teria
escrito quando preso.
Cabral de Mello - Tratava-se de um poema, e ele se referia à mulher como
Marília, um nome convencional da poesia arcádica. Como poeta, Frei Caneca foi um
arcádico tardio. Dizia-se que ele tinha vivido com uma mulher no Recife e tido duas
filhas. Esse poema teria sido escrito para ela. Nas cartas, ele chamava as meninas de
"afilhadas", que era como os padres se referiam aos filhos.
Folha - A atividade política de Frei Caneca deu-se mais por
meio dos seus escritos do que por meio da ação. Em sua opinião, quem foi o
correspondente de Frei Caneca no campo da ação?
Cabral de Mello - A pessoa que tentou fazer a Independência alternativa de que
falávamos foi Gervásio Pires Ferreira, que era filho de um grande comerciante
português. Ele foi o presidente do primeiro governo autônomo de Pernambuco. Essa junta
foi derrubada por iniciativa de d. Pedro 1º porque estava cobrando do governo uma
política diferente da de José Bonifácio, autoritária. Queria uma política que
contemplasse os interesses regionais.
Folha - Em "A Ferida de Narciso" o senhor diz que
Pernambuco teria sentido uma frustração por não receber um tratamento especial de
Portugal depois da expulsão dos holandeses. É a partir daí que toma força o nativismo?
Cabral de Mello - Exatamente, criou-se uma espécie de ressentimento regional que
vem desde essa época. Pelo menos um ressentimento regional no que diz respeito às
classes dirigentes.
Folha - Então é a saída dos holandeses, mais do que sua
chegada, que causa uma cisão em Pernambuco?
Cabral de Mello - Sim, é a vitória contra os holandeses que vai causar essa
frustração em relação aos portugueses. É um pouco como aconteceu na América do
Norte. Todas as dificuldades que os americanos começaram a ter com os ingleses começaram
depois da Guerra dos Sete Anos, que terminou em 1763, quando ingleses e americanos
conseguiram expulsar os franceses do Canadá.
As colônias inglesas do Atlântico -que viriam a formar os EUA- tiveram papel destacado
ao lado dos ingleses contra os franceses. Quando acabou a guerra, começou a haver
discórdia entre americanos e ingleses. É a mesma situação, uma guerra contra uma outra
potência européia produziu uma divergência entre reinóis e americanos na América.
(Folha de S. Paulo)
A FERIDA DE NARCISO - ENSAIO
DE HISTÓRIA REGIONAL. Autor: Evaldo Cabral de Mello. Editora: Senac (tel. 0/
xx/11/284-4322, na internet: www.sp.senac.br).
Quanto: R$ 12 (115 págs.).
FREI JOAQUIM DO AMOR DIVINO CANECA. Organização e introdução: Evaldo Cabral de
Mello. Editora: 34 (tel. 0/xx/11/3816-6777). Quanto: R$ 44 (648 págs.).
|
Com relação a este tema, veja também:
Veja sites de escritores nordestinos,
inclusive Cordel, na seção LITERATURA
Veja sites de história nordestina na seção HISTÓRIA |
|