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22/08/2001

Dori Caymmi: Belo percurso autobiográfico

Dori Caymmi visita seu passado musical mostrando como seu pai, Noel e Bororó podem ser universais

TÁRIK DE SOUZA

   Radicado em Los Angeles há mais de dez anos, o compositor Dori Caymmi refaz o caminho de casa no elucidativo CD Influências (Universal), uma espécie de bússola para entender sua formação musical, algo que Caetano Veloso traçou na autobiografia cultural Verdade tropical. Não por acaso é o próprio Caetano, companheiro de geração e para quem Dori fez arranjos no primeiro disco, Domingo (dividido com Gal Costa), o autor do release. O texto altamente elogioso parece contornar arestas da época tropicalista ao afirmar: ''o que eu entendo por música brasileira é, em princípio, o mesmo que ele entende''. E traduzir para a primeira pessoa o impacto do disco. ''É um dos acontecimentos mais importantes da minha vida recente'', anota Caetano. A referida Gal é uma das convidadas do disco ao lado de Maria Bethânia e Nana Caymmi, além do percussionista Paulinho da Costa, outro brasileiro há anos radicado nos EUA e diversos músicos de estúdio americanos como Abraham Laboriel (baixo), Michael Shapiro (bateria), Billy Childs (piano) e Bill Cantos (piano e teclados). Por mais distantes que eles possam parecer de Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi e Bororó, entre outros autores escalados no repertório, Dori consegue fazer com que soem brasileiros. Ou que a MPB salte das partituras de Influências como definitivo idioma planetário.

   Através de curtos comentários ao lado de cada faixa, o compositor explica o motivo da eleição como na coleante (e um tanto surrada) Da cor do pecado, de 1939. ''No bojo do violão de meu pai, cheio de assinaturas ilustres, vi uma que despertou minha curiosidade infantil, Boróro, com acento na segunda sílaba. Perguntei quem era, ouvi Da cor do pecado e fiquei fã''. A versão que ele dá ao velho samba canção de Alberto de Castro Simoens da Silva, o Bororó (1898-1986), é intimista, com notas gotejadas do piano. Do pai, Dorival Caymmi, entram três diamantes, as sincopadas Lá vem a baiana (destaque para sua interpretação cool pairando sobre o ritmo sestroso), Acontece que eu sou baiano e a praieira É doce morrer no mar, sob ondas de violinos. ''O mar de Caymmi e o livro de Jorge Amado, a Bahia perfeita'', define Dori, referindo-se ao romance Mar morto do recém falecido escritor. O timbre grave paterno, levemente embargado por um vibrato quase imperceptível, quem diria, sofreu influencia de Dick Farney, a quem Dori alista entre os maiores numa tríade completada por Frank Sinatra e Nat King Cole. ''A voz linda de Farney quase fez de mim um cantor'', escreve modesto, prefaciando sua recriação do clássico do ídolo, Copacabana (João de Barro/ Alberto Ribeiro).

   Participações - Violonista de caligrafia elegante, Dori brinca que complicou a harmonia de Berimbau, de Baden Powell e Vinicius de Moraes (pontuado por uma percussão de afro sambaião de Paulinho da Costa) e o mesmo faz na releitura tensa de Desafinado (Tom Jobim/Newton Mendonça) só com seu instrumento. O choro marca presença no entrançado de cordas (violão & guitarra) de uma jóia obscura de Jacob do Bandolim, Migalhas de amor, enquanto a música nordestina pontifica no João do Vale (com José Cândido e Paulo Bangu) também pouco difundido do baião Pé do lageiro. Junto com a participação vocal do sanfoneiro Dominguinhos rola uma curiosa linha de sopros formada por flauta (Teco Cardoso), clarinete e clarone (Gary Meck). Em duetos impecáveis com o astro do CD, a irmã Nana Caymmi recria o samba canção inaugural, defendido pela mãe de ambos, a cantora Stella Maris num concurso de calouros, Linda flor (Ai yoyô) (Luiz Peixoto/Marques Porto/Henrique Vogeler), de 1929. Ao lado de Bethânia, encadeia-se o drama de câmara Serenata do adeus, letra e música de Vinicius de Moraes, imortalizado por Elizeth Cardoso. E com Gal, Dori descobre uma inusitada nostalgia nas malandragens e breques de Conversa de botequim (Noel Rosa/ Vadico), de 1935.

   Mas em vez de terminar em samba, Influências desemboca no impressionista erudito Claude Debussy (1862-1918) de Clair de lune, pai harmônico involuntário de boa parte da MPB modernista, de Dorival Caymmi a Tom Jobim. E avô do requinte de Dori, que saiu (muito bem) aos seus. (Jornal do Brasil)


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