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22/08/2001

Revoada feminina na MPB

Carla Visi se lança solo

Correndo por fora do mercado pop, sete cantoras lançam discos, com destaque para o de Carla Visi

TÁRIK DE SOUZA

   Por conta do matriarcado vocal que domina há anos a MPB, a vida das cantoras menos atreladas ao mercadão pop não é fácil. Nada menos de sete delas acabam de desembarcar novos títulos, quase todas através de pequenos selos ou esquemas independentes, com exceção de Carla Visi, do grupo baiano Cheiro de Amor, que sai solo em Só chamei porque te amo a bordo do repertório e participação de Gilberto Gil pela MZA do produtor Mazola na major Universal. Outra estréia é de Flávia Virgínia, filha de Djavan (com o pai numa das faixas), no audacioso Livro-mãe (Jam Music). As demais seguem carreira como Cris Delanno, nascida no Texas (onde morou até os 3 anos), que depois de dois trabalhos centrados em obras alheias, no show/disco Nara - uma senhora opinião (a respeito da trajetória da cantora Nara Leão) e em Cris em Tom maior (incursão no repertório de Jobim) desemboca em seu Filha da pátria (Independente).

   A paulista Carmina Juarez em Tenho saudade (Dabliú) reabilita a cantora que inaugurou a rádio Nacional Elisinha Coelho, ainda viva aos 90 anos. Dos arrabaldes da vanguarda paulista, a matogrossense Tetê Espíndola explora 128 vozes dos graves e médios aos agudos mais alucinados no experimental Vozvoxvoice (MCD World Music) e a paulista Suzana Salles canta até em alemão em As sílabas (Dabliú). Apesar de também paulista (de Santa Rosa de Viterbo), Simone Guimarães inclina-se mais pela fronteira mineira e não por acaso dueta com Milton Nascimento em Virada pra lua (Lua Discos).

   Mais urbano - Misto timbrístico de Elis Regina com Milton Nascimento, a telúrica Simone garante ter feito um disco (o quarto solo) mais urbano, embora Virada pra lua (sagaz a letra da faixa título do poeta Sérgio Natureza) não enfatize a travessia. A despeito de duas co-autorias, o frevo Marilyn (''ai meu amor/ quem me dera ser linda, lovely e sexy''), meio desajeitado em sua voz de esgares, e a embolerada Night club, a temática regionalista ainda se salienta (Porto de Araújo, bordado pelo violão de Guinga, Sertão das águas, A fábula do riacho) com domínio do tipo de toada/ cantochão patenteado por Milton (com ela na elucidativa Imagem e semelhança).

   Já Carla Visi exagera na utilização do metal de seu timbre (um cacoete instaurado na cena da axé music por Daniela Mercury), desatenta às sutilezas poéticas de Gil em Aqui e agora e Lugar comum, ou aos dardos políticos da parceria com João Augusto em Roda. Ainda assim, apoiada em bons arranjadores (Cesar Camargo Mariano, Lincoln Olivetti e a percussão especialista de Ramiro Mussoto), Carla surpreende por driblar escolhas óbvias e reativar pérolas obscuras como Onde o xaxado tá?, 2 neguinhos, Aroma, Pretinha, Seu olhar, além de arremessar o inédito samba duro feito sob medida Mamão papaia.

   É necessário educar o ouvido para afinar-se com Suzana Salles. Seu timbre não soa imediatamente palatável, a começar pela faixa título inicial, As sílabas, um canto falado de Luiz Tatit, de clima infantil. Na seqüência, uma abordagem oriental do mito afro (Xangô, parceria com Chico Cesar) e sua especialidade, o mergulho no cabaré germânico da dupla Kurt Weil/ Bertolt Brecht (Die sieben todsünden). Ex-vocalista das bandas de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, Suzana estudou em Berlim em 1986, onde descobriu o papel básico da consoante na língua alemã (''elas lapidam as vogais, o que confere ao idioma um canto falado'', diagnosticou).

   Fragmentação - O carrossel de estilos fragmenta em excesso o disco que roda de um Paul Simon morno (50 ways to leave your lover) ao soturno Velho Francisco de Chico Buarque e o resplandecente Para ver as meninas, de Paulinho da Viola, a melhor faixa do CD. Mas, em matéria de inusitado, ninguém supera a polimorfa Tetê Espíndola, que ultrapassa todos os parâmetros em Vozvoixvoice, com temas compostos pelo francês Philippe Kadosch, apresentado a ela por Arrigo Barnabé. Apenas um contrabaixo (de Harry Gofin) participa do disco, onde há desde um exótico Arabian tango ao espacial Grilos do além, Pelicong, a raga Baiaoriental e Five oscope, ornado por cinco vozes (todas dela) em ciclos de cinco compassos e tempo 15/8, ''numa superposição cubista'', como define o release.

   Projetada pela vitória no global Festival dos Festivais em 1985 com Escrito nas estrelas, Tetê dá a bula do laboratório: ''cada voz foi estruturada desenho por desenho num caleidoscópio onde também foram inseridos samples de efeitos vocais, estalar de língua, rumores, sopros, emissões onomatopaicas (uirapuru, quero-quero, araraúna, cobra, grilos, sapos), percussividades vocais e metáforas instrumentais'', viaja.

   Integrante da Sociedade Brasileira de Laringologia e Voz e da americana National Association of Teachers of Singing, a professora de canto popular na UFRJ Cris Delanno não foi tão fundo. Preferiu flexionar a voz educada num repertório, vá lá, eclético onde circulam de Guinga e Aldir Blanc (Yes, Zé Manés) a um Caetano do tempo do exílio londrino (Its a long way), o clássico de Ary Barroso Camisa amarela, o Chico Buarque de Fantasia e uma boa aposta na dupla Fred Martins e Suely Mesquita no baião exaltação à feira de São Cristóvão, O melhor da música brasileira.

   Repescagem - Apelidada de ''pássaro cantador'' por Ary Barroso, de quem era a intérprete favorita, a esquecida cantora gaúcha radicada no Rio Elisinha Coelho ganha uma repescagem de luxo por Carmina Juarez, que estudou no Berklee College americano e aperfeiçoou-se em história da MPB na Unicamp. Não falta uma recriação respeitosa do megaclássico No rancho fundo (de Ary e Lamartine Babo), que Elisinha gravou em 1930 com o primeiro autor ao piano. Também foi escalada da mesma dupla a pouco conhecida Palmeira triste, duas outras de Ary, a cética e bela Caco velho (''todos nós temos nosso momento/ e depois dele só o esquecimento'') e a soturna faixa título, além de composições de J. Thomás (Nega Maria, Viva o meu Brasil), Augusto Vasseur e Luiz Peixoto (O que foi que eu fiz), em remodelagens elaboradas nos arranjos de André Mehmari, Jardel Caetano e Célio Barros.

   Da cortina do passado para o presente das fusões, a novata Flávia Virgínia estréia com pulso e pretensão. Seu Livro-mãe vai da reflexiva A balada (''sabe quando você quer fazer uma balada/ e tem medo do que vai sair?'') ao Canto e oração da terra, crivado de vocais indígenas. Na que chama de ''balada nordestina'' Crescendo, papai Djavan insere a característica voz quebrada. Flávia promove ao longo do disco uma mistura pós-eletrônica centrada na pontuação de baixo. Destaque para o diálogo de ''scats'' de Amado de papel, um ''siroco jazz'' na definição da intérprete/autora de todas as faixas, numa estréia pulsante que ultrapassa a mera promessa. (Jornal do Brasil)


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