22/08/2001
Legado de Glauber Rocha cai no limbo
Livros e filmes revisitam o
cineasta, morto há 20 anos, mas sua obra ainda é pouco vista
RODRIGO MOURA
"Estética da Fome", manifesto lançado por
Glauber Rocha em 1965, diz que "a fome latina (...) não é somente um sintoma
alarmante: é o nervo de sua própria sociedade", residindo aí a "trágica
originalidade do cinema novo diante do cinema mundial".
Nos 20 anos de morte do seu criador, hoje, é fome de
Glauber Rocha que terá aquele que quiser se saciar do biscoito fino original do cineasta,
o mais importante que o país já produziu.
Enquanto surgem livros e filmes dedicados à figura e
à obra do baiano (1939-1981), sua produção multifacetada, dividida entre cinema,
literatura, teoria e desenhos, agoniza para ser organizada pelo Tempo Glauber,
instituição no Rio de Janeiro tocada por sua mãe, Lucia Rocha, e que passa por
dificuldades financeiras.
Além disso, nenhuma mostra vai se dedicar à
totalidade de sua cinematografia, que será exibida apenas parcialmente pelo Canal Brasil,
ao lado de um documentário com depoimentos de atores que trabalharam em seus filmes.
No Tempo Glauber, uma exposição foi inaugurada na
semana passada, com documentação em torno da Trilogia da Terra ("Deus e o Diabo na
Terra do Sol", "Terra em Transe" e "A Idade da Terra"). Havia
sido vista, segundo Lucia Rocha, por cerca de 300 pessoas até anteontem.
Entre aproximadamente 50 mil documentos depositados
no acervo da instituição, encontram-se centenas de poemas inéditos e pelo menos dois
roteiros nunca filmados -"American West" e "O Destino da Humanidade"-
com seus respectivos storyboards.
Lucia Rocha se ressente da falta de financiamento,
que não permite a organização mais sistemática do acervo e a consequente publicação
de textos inéditos.
"Nosso maior sonho é fazer um livro com os
poemas de Glauber. Chegamos a fazer um no final da década de 80, mas a editora faliu e os
livros nunca chegaram ao mercado", conta. "Outra prioridade são os DVDs com
seus filmes, muitos deles hoje são de difícil acesso. Glauber é mais importante no
exterior do que no seu país."
No campo da produção sobre Glauber Rocha, a
situação é mais animadora. Dois ensaios chegam este mês às livrarias dispostos a
desvendar facetas pouco evidentes do intelectual.
"Gláuber Pátria Rocha Livre", do
cientista social Gilberto Felisberto Vasconcellos, disseca a convergência do cineasta
para o pensamento nacionalista. "A obra de Glauber propõe um projeto nacional, de
poder, inclusive. Talvez ele, se vivo, tivesse sido candidato à Presidência",
especula o autor (leia texto abaixo).
A pesquisadora Regina Mota lança "Épica
Eletrônica" (editora UFMG), resultado de sua tese de doutoramento em que analisa a
atuação do cineasta frente ao programa televisivo "Abertura" -do qual
participou de fevereiro a outubro de 1979, exibido pela TV Tupi. "Foi um momento
único da televisão brasileira, em que a TV gerava o fato político", conta.
Nas telas, o cineasta Silvio Tendler finaliza o
documentário "Glauber o Filme, Labirinto do Brasil", em que propõe a revisão
da fase em que Glauber se mostrou simpático ao regime militar -elogiando o general
Golbery do Couto e Silva- e revela imagens do enterro do cineasta baiano, por anos
embargadas por Lucia Rocha. O mesmo expediente foi usado por Glauber sobre Di Cavalcanti
em "Di-Glauber", que a família do pintor proibiu.
Outro documentário, dirigido por Eryk Rocha, filho
de Glauber, será dedicado ao seu legado. "Rocha Que Voa - Algum Dia de
Novembro" analisa a temporada em que viveu em Cuba, de novembro de 71 a dezembro de
72, com depoimentos de cineastas que conviveram com o brasileiro na ilha.
Entre os muitos frutos de Glauber não colhidos,
está ainda o roteiro "Testamento da Rainha Louca", entregue por ele ao cineasta
Neville d'Almeida em 1979. "É um roteiro muito atual, uma espécie de "Davi e
Golias" que tem muito a ver com o MST", conta Neville, que ainda pretende filmar
o inédito glauberiano. (Folha de S. Paulo)
| Sociólogo analisa vocação nacionalista DA REDAÇÃO
Depois do integralismo modernista e de Gilberto Freyre, objetos de alguns de
seus livros anteriores, o cientista social Gilberto Felisberto Vasconcellos, 52, faz de
Glauber Rocha a nova parada de seus estudos sobre o nacionalismo brasileiro, ou melhor,
sobre a vocação nacionalista brasileira.
"Glauber Pátria Rocha Livre" é um
"ensaião", como define seu autor, monolítico e sem formato acadêmico, que
discute a convergência do cineasta para os ideais soberanos -o que faz de sua obra uma
espécie de "metaparadoxo" da condição colonizada do país.
"Glauber é o fantasma da contemporaneidade
brasileira", diz o sociólogo, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Leia abaixo trechos da entrevista que concedeu à Folha.
(RM)
Folha - Como esse livro nasce na sua trajetória
intelectual?
Gilberto Felisberto Vasconcellos - Ele tem mais ou menos 20 anos de confecção e
aparece como um momento de reflexão sobre a cuca colonizada. É um ponto de explosão do
meu contato com a obra do Glauber, que coroou um processo de reflexão estética sobre o
colonialismo. É por isso que botei essa espécie de ideograma como título. Para mostrar
que a essência do pensamento de Glauber é o nacionalismo. Todos os parágrafos convergem
para essa idéia.
Folha - Qual lhe parece ser a visão que o Brasil tem de
Glauber hoje?
Vasconcellos - O Brasil precisa mais de Glauber do que Glauber do Brasil.
Precisamos fazer a descolonização audiovisual. Um cinema brasileiro a favor do povo e da
nação é a exigência que o povo deve ter. O povo não é culpado, os intelectuais é
que deveriam levar adiante o projeto do Glauber. Aliás, sem um Estado nacionalista, não
há cinema brasileiro. Glauber é o fantasma da contemporaneidade brasileira.
Folha - Como se dá, a seu ver, a ligação de Glauber com a
tradição nacionalista brasileira?
Vasconcellos - A moldura nacionalista dele é Antônio Conselheiro, é o elemento
fundamental, embora não tenha teoria política. É um nacionalismo estético,
pluridimensional, que envolve a totalidade. Busca ainda em Humberto Mauro, que tem como
decisivo na sua formação. Getúlio Vargas também é uma figura presente nos seus
filmes. E outros nomes: Aleijadinho, José Lins do Rego, Villa-Lobos. Ele dialoga com
vários artistas, dizendo que o melhor da estética brasileira é a expressão do
inconsciente nacionalista. O nosso desígnio é fazer uma expressão particular que
expresse nosso bode e nosso êxtase. (Folha de S. Paulo)
O drama barroco de
Glauber Rocha
ISMAIL XAVIER
ESPECIAL PARA A FOLHA
Quando ouvimos a frase de Sara, em "Terra em
Transe", "a política e a poesia são demais para um só homem", uma
primeira reação é ver aí um gesto de consolo para aliviar as dores de Paulo Martins.
Afinal, o próprio filme seria um exemplo eloquente de negação da sentença ao promover
uma notável junção desses dois empenhos, junção que, de resto, pautou toda a vida e a
obra de Glauber Rocha.
Na ocasião de sua morte precoce, alguns encontraram,
na voz de Sara, a ressonância que procuravam. Ela teria razão, e a experiência do
cineasta-escritor-político, incansável, invasivo e vulnerável, confirmaria a dimensão
de sacrifício sugerida na fala protetora a que não deu ouvidos.
Sempre em tensão com a conjuntura, provocativo, Glauber foi impaciente no seu senso de
responsabilidade salvacionista e, por isso mesmo, nada isento em sua vontade de poder. Ao
contrário de um certo clichê do artista que embeleza a derrota, ele jogava sem
concessões, mas para ganhar, e não raro exibiu seus lances de "Realpolitik"
sem hipocrisia.
Imperativos do tempo. Tudo no seu percurso embaralha
vida, obra e sociedade, o que não significa que seja nossa tarefa, para compreendê-lo,
duplicar essa tônica de sua empreitada, renunciando à observação mais profunda do seu
cinema.
A mim, entre outras coisas, admira a densidade com
que aí se configurou, em meio ao turbilhão, uma permanência de estilo que não postulo,
mas que se constata, pois cristaliza uma dialética de fragmentação e de totalização
que marca, em diferentes arranjos, todo o seu cinema. Seu desejo de captura do tempo tinha
como pressuposto a percepção totalizante. Havia, portanto, a dimensão dos esquemas, do
recurso ao mito como moldura de observação da experiência. No entanto, porque moderno,
Glauber não podia congelar o tempo em chaves já conhecidas, e seu corpo-a-corpo com um
mundo em processo exigiu movimentos exploratórios, incertos, onde o presente é assumido
em sua abertura.
Expressando essa ambivalência, a marca do estilo de
Glauber está já presente num pequeno cristal: "O Pátio" (1959). A encenação
é em campo aberto, junto à natureza, mas as personagens se movem dentro de um tabuleiro
de xadrez.
Se a cena é figurada e a ação dos humanos
desemboca no transe, por outro lado, está lá presente no olhar uma relação com o mundo
pautada pela instabilidade, pela procura que faz o espectador sentir a câmera. Esta se
expõe e assinala que o drama também se inscreve na forma, como era próprio ao cinema
moderno.
Cinema de poesia, câmera em movimento, ora em
conjunção ora em disjunção com a "mise-en-scène". Eis o que já está em
"O Pátio" e que veremos se desdobrar e se complicar ao longo da obra, na
tensão entre espaço aberto e demarcação, entre empostação teatral e agilidade de
câmera.
O olhar de Glauber é táctil, sensual; a moldura de
sua representação é alegórica, tendente a abstrações. A convivência de contrários
é aí tipicamente barroca, o que sanciona a repetida invocação do termo na referência
a seu cinema.
Assim seja. Mas com a ressalva de que tudo se deu
numa conjuntura histórica específica, com que tem muito a ver, não devendo ser tomado
como manifestação de um "caráter nacional" que o cineasta encarnaria. As
contradições produtivas de Glauber se tornaram cinema porque ele entrou em cena num
quadro específico, irrepetível, marcado pela afirmação do cinema moderno do
pós-guerra, com sua nova forma do olhar e da escuta.
Dentro dele, sua obra se fez do esforço em articular o olhar dirigido ao presente à
reflexão herdada da tradição, fazendo convergir religião popular e modernismo.
Deste modo, inventou um raro cinema capaz de
projetá-lo na constelação dos intérpretes da experiência continental. O seu lugar aí
ainda está para ser definido, mas o curioso em suas junções inesperadas é que tudo se
passa como se ele tivesse se inspirado ao mesmo tempo num Eduardo Galeano e num Octávio
Paz, empenhado em fazer a crônica da espoliação de um continente, mas também em pensar
o seu destino a partir de um teatro das mentalidades de longo prazo, onde o simbólico
parece se movimentar em direção à autonomia, terreno do mito que, no entanto, ele
submeteu ao teste da luta de classes, da política e da história. (Folha de S.
Paulo)
Ismail Xavier é crítico de
cinema e professor da ECA-USP, autor de, entre outros, "O Cinema no Século"
(Imago) |
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