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27/08/2001

Cartografia dos rios de música do Brasil

MARCELO PEREIRA

   O pioneiro e missionário Mário de Andrade ficaria orgulhoso de ter participado do levantamento da coleção Cartografia Musical Brasileira, que deságua em dez CDs o mapeamento realizado pelo Rumos Itaú Cultural Música, em 2000. O lançamento em Pernambuco reuniu, na Fundação Joaquim Nabuco, alguns dos músicos selecionados entre os 1.712 inscritos no projeto e o seu coordenador, Edson Natale. Os discos são resultados de um processo de seleção feito por 30 curadores indicados pelo Itaú Cultural, divididos em dez regiões. A Cartografia Musical Brasileira resulta num mapeamento dos rios da diversidade musical brasileira, no qual correm mais sonoridades urbanas do que rurais, embora esta por sua vez as influencie.

   Isso se explica pelo fato de o Rumos Itaú Cultural Música ter aberto inscrições a interessados, que enviavam seu material para a seleção, ao invés de ir in loco fazer o registro, tal como aconteceu no Música do Brasil, projeto desenvolvido pela Editora Abril, tendo à frente o antropólogo Hermano Vianna e o produtor musical Beto Villares. A dupla percorreu as cinco regiões do País, a exemplo da Missão de Pesquisas Folclóricas (planejada por Mário de Andrade nos anos 30), para registrar principalmente as manifestações culturais autênticas em seu próprio reduto. Ambos projetos, contudo, têm como uma de suas maiores virtudes mostrar um Brasil que aos brasileiros não é dado o prazer e os meios de se conhecer.

   “Não estávamos em busca de novidades ou de revelações (apesar de não deixarmos de comemorar quando elas apareciam). Era mais relevante traçar um panorama da produção fora do eixo Rio-São Paulo e fora da grande mídia, formando um banco de dados que pudesse incentivar a troca de informações musicais entre os Estados brasileiros. (...)”, explica o curador nacional, Hermano Vianna. “Os artistas escolhidos representam tendências importantes em suas regiões. Tentamos encontrar representantes originais e significativos para cada uma dessas tendências e vertentes.”

   Durante o processo de seleção, o Brasil foi dividido em dez regiões. Os representantes de Pernambuco são os índios Fulni-ô do grupo Fetxá, os grupos de forró Chão e Chinelo e de jazz Areia Projeto, a cirandeira Lia de Itamaracá e o samplerman Dj Dolores. O Ceará está presente com o experimentalismo de Cidadão Instigado; Sergipe com o rock vigoroso e regionalista do Lacertae e a Paraíba com o pós-tropicalista Pedro Osmar.

   O grande número de inscritos revela um aspecto crucial: a enorme quantidade de artistas que clamam ser ouvidos. Pela qualidade do material recolhido dos 78 artistas selecionados nos dez discos, perfazendo um total de 148 músicas registradas, chega-se a duas conclusões: 1) as rádios (uma concessão pública) só querem saber de música comercial e estão à marcê das gravadoras, salvo as exceções daquelas ligadas às universidades e as ditas alternativas e comunitárias; 2) a maioria dos comunicadores ou estão surdos ou não gostam da música brasileira ou então são simplesmente ignorantes.

   Comercializados apenas como coleção até meados do mês de setembro pelo Itaú Cultural e em seguida, individualmente, nas lojas especializadas, os dez CDs reúnem a rica diversidade do País. São músicas gostosas de ouvir, que não exige muito apuro do ouvinte, mas que precisam ser tocadas para cair no gosto popular. Algumas são hits em potencial.

   A coleção revela cantoras afinadíssimas: a paulista Míriam Maria (que foi das bandas de Iamar Assumpção e Arrigo Barnabé), a surpreendente baiana Mariella Santiago, a moderna paraense Iva Rothe-Neves e a presença forte da maranhense Rosa Reis. Os mineiros Wander Lee e Sérgio Santos se mostram bons compositores de música sobre o futebol. Bom humor marcam as músicas da paranaense Maxixe Machine, da baiana Barra Manteiga (que pesquisa música popular para crianças), da paulista A Barca e de Juarildes da Cruz, representante do Centro-Oeste. Do Piauí vem a sensibilidade e a voz agradável de Naeno.

   A música instrumental também está muito bem representada em quase todos os discos. Da Tocata Vieira, de Florianópolis aos cariocas Zé Luiz Rinaldi, Pandemonium, Zé da Velha e Silvério Pontes e A Camarilha; do gaúcho Frank Solari ao grupo baiano Janela Brasileira. A tradição vem com o fandango paranaense de Carrigo, com a ciranda pernambucana de Lia de de Itamaracá, com o ritmo dos descendentes de escravos fluminenses de Mestre Darcy do Jongo e nos mineiros Candombeiros da Serra do Cipó. A vertente moderna e mais experimental tem: Berimbrown, Pexbaa (de Minas), Pio Lobato (Pará), Barbatuques (São Paulo) e Narguile Hidromecânico (do Piauí)

   A distribuição dos discos ficará a cargo das gravadoras independentes parceiras: Violões da Amazônia (PA), Candeeiro Records (PE), Pelourinho (BA), UnB Discos (DF), Rob Digital (RJ), Laborarte (MA), Lapa Discos (MG), Cântaro (PR), Barulhinho (RS) e MCD World Music (SP).

   Como foi feito com títulos anteriores da Coleção Itaú Cultural, a coleção Cartografia Musical Brasileira será distribuída gratuitamente para instituições culturais e educacionais, que podem solicitar o envio pelo correio, em papel timbrado assinado pelo responsável, endereçado ao Instituto Itaú Cultural (Av. Paulista 149 CEP 01311-000 São Paulo SP - A/C Difusão - Coleção Itaú Cultural - Cartografia Musical Brasileira). (Jornal do Commercio)


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