27/08/2001
Militância sobre o palco
Montagem de
Morte e vida severina remete a sem-terra e a obra de Portinari
MARCELLA
FRANCO
Severino
estanca diante da platéia, explica quem é e a que vai. Pés descalços sujos de terra,
camisa rota e rosto cansado, o retirante entoa sua sina: ''O meu nome é Severino/ não
tenho outro de pia'', inicia a ladainha, que abre o poema escrito por João Cabral de Melo
Neto em 1954, um ''auto de Natal pernambucano''. Musicado 11 anos depois por Chico
Buarque, Morte e vida severina foi levado para o teatro pela primeira vez em 1965
e, desde então, são incontáveis as vezes em que Severino e os versos do poeta
pernambucano subiram aos palcos. Recentemente, por exemplo, Gabriel Villela e o grupo Tapa
apresentaram suas versões.
''O número de Severinos no mundo é
muito maior que há 50 anos. Ao invés de se resolverem, os problemas que João Cabral
apontava se tornaram mais graves e, por isso, Morte e vida nunca foi tão atual'',
justifica o diretor Luiz Fernando Lobo. Ele e sua companhia, a Ensaio Aberto, fazem a
estréia de sua interpretação do auto de Natal dia 1° de setembro, no Teatro João
Caetano, apostando em ''novas possibilidades cênicas'' para provar que - na opinião do
grupo - é necessário que haja cada vez mais montagens do poema.
Inovações - ''Dirigir Morte e vida com a mesma linguagem
enfraquece o texto. Aí, sim, não há sentido em fazer de novo'', acredita Luiz Fernando,
que se ateve a detalhes para propor uma inovação ao espetáculo. Os instrumentos
carregados pelos personagens, por exemplo (enxadas, pás), vêm de acampamentos de
sem-terra e comunidades do interior do Nordeste. ''Pegamos os objetos usados e demos novos
em troca. Nada aqui é cenográfico'', avisa o diretor.
Cada uma das figuras que atravessa a história do lavrador retirante veste
figurinos desenvolvidos por Beth Filipeck a partir do trabalho do fotógrafo Sebastião
Salgado (em seus livros Êxodo e Terra), pinturas de Portinari, Goya e
Bruegel. No cenário, alguns poucos objetos espalhados pelo palco e uma parede forrada por
ex-votos contam a história da viagem de Severino até Recife.
Militância - No entanto, o que impulsiona o visual do espetáculo é a
iluminação, que ajuda a preencher o imenso palco do teatro João Caetano. Aurélio de
Simoni trabalha com jogo de sombras, luzes laterais e o ciclorama no fundo das cenas para
realçar o contraste entre as formas e multiplicá-las nas paredes da platéia.
As músicas originais de Chico Buarque, entre elas Funeral de um lavrador
e Irmão das almas, receberam novos arranjos, além de agora dividirem espaço com
mais duas composições criadas por Carlinhos Antunes, diretor musical da montagem. ''Os
arranjos do Chico têm muito tempo, são da época em que a música popular estava
começando a se desenvolver. Não mudamos a base, só acrescentamos novas sonoridades'',
explica Luiz Fernando, que em Morte e vida severina se junta ao elenco da
companhia, no papel do Mestre Carpina. O diretor classifica o trabalho de sua companhia
como um ''teatro de militância''. ''É militante mesmo. Estamos sempre em contato com o
MST, fazendo parcerias.'' (Jornal do Brasil)
Morte e vida severina. Teatro João
Caetano. Estréia dia 1° de setembro. De 5ª a domingo, 19h. R$ 15.
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