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31/08/2001
Música: Lua, sol e poeira
Estradas e músicas. A
arte de Luiz Gonzaga mistura-se às imagens e sons da infância de Fabiano dos Santos, que
escreve sobre CD que traz registros ao vivo do Rei do Baião
Fabiano dos Santos
Articulista do Vida & Arte
Os anos 70 se passaram na poeira das estradas paraibanas. Meu pai tinha uma
Veraneio da Chevrolet e um monte de irmãos espalhados na geografia da Paraíba. Então,
saíamos do sertão potiguar rumo as veredas do estado vizinho. Meus avós, meus pais,
meus tios são paraibanos, assim como é paraibano trem. Pois foi lá, que o vi pela
primeira vez atravessando as linhas de minha vista. Pai parou a Veraneio na beira da
estrada e nós ficamos quase meia hora esperando o que parecia não vir. Ele queria por
queria. Quando o som ainda vinha longe, meu coração disparou num misto de medo e
encanto. O trem passou com toda sua mecânica e peso. Nunca mais esqueci. Hoje é leve,
leve. Virou só sentimento, como diria Adélia Prado.
Nessas viagens de poeira - nem todas as rodovias eram asfaltadas - eu lia o
mundo sem saber. Por mais que tentasse, pai não conseguia fazer uma viagem linear. Se
íamos para um determinado lugar, ele sempre pegava um desvio, um atalho, entrava numa
vereda, só para nos mostrar um açude, passar na casa de um velho amigo ou de uma antiga
namorada - teve mil - para tomar um café e lembrar coisas imaginárias e reais. E assim,
a gente enchia o bucho de café.
Eu, menino entre 7 e 12 anos (1975 - 1980), me divertia com seu jeito de
viajar. Sem pressa, enveredando-se em estradas carroçais. Era quase como se viajássemos
a pé. Tenho em minha cabeça rios, árvores, curvas, pedras, sangrias de açudes e
carneiros, o gosto de galinha caipira com arroz de terra no almoço ou do cuscuz com leite
e carne de sol no café da manhã. Fosse eu um Descartes Gadelha, pintaria essas coisas.
''Coisas que pra mode ver, o cristão tem que andar a pé.'' Pronto! Cheguei na trilha
sonora das viagens. Pai não viajava calado. Quando não era contando suas peripécias,
era cantando as músicas de Luiz Gonzaga. Então, cresci ouvindo Luiz Gonzaga na voz de
Chico Piuba - meu pai.
Não vou ficar falando quem foi o Rei do Baião nem fazer uma
cronologia de sua carreira artística. Talvez, fale um pouco de sua poesia sonora e do
sabor de suas falas. Pois Luiz Gonzaga cantava como se contasse histórias. Histórias de
sua vida e de seu povo. As expressões e as palavras que saem de sua boca têm um gosto
primordial de Nordeste.
Mas passaram-se mais de mil luas e mil sóis e nunca mais tinha parado para
ouvir o Velho Lua. Isso até aquele dia em que estava atravessando as Lojas Americanas. De
repente, colocaram um CD. Uma voz tomou conta do som: ''Quando eu me encontro com as
garotas do Leblon, ô ô (...) É Maricota, Mariquite e Marion / Chega ser aquilo bom,
aquilo bom...'' Pronto! Saí da loja sem nenhum chocolate derretendo-se no céu da boca.
Em compensação, o Velho Lua veio comigo para casa. Quero dizer, Luiz Gonzaga - Ao
Vivo - Volta pra curtir.
Corria o ano de 1972 no Rio de Janeiro. Durante o mês de março, o Teatro
Tereza Raquel foi palco do show ''Volta pra curtir" de Luiz Gonzaga, dirigido por
Jorge Salomão e roteiro de Capinam. A ditadura troava. Gil e Caetano voltavam do exílio
em Londres. Caetano escreve no Jornal Última Hora: ''Vi três vezes o show de Luiz
Gonzaga no Terezão. É o espetáculo mais bonito que se possa imaginar. Quanta luz! Nota:
10''. O show é também recomendado por Carlos Drummond de Andrade e Sérgio Cabral, só
para citar algumas figuras. Resultado: o ''Terezão'' ficou pequeno para os jovens
universitários de esquerda que lotavam o teatro.
No centro do palco, um Luiz Gonzaga íntegro, sem as máscaras
nem roupagens que davam o tom daquela época. É um show limpo de pura integridade, como
bem escreve Sérgio Cabral na apresentação do CD: ''Um Luiz Gonzaga íntegro, sem
qualquer mudança no sentido de 'modernizá-lo' ou 'atualizá-lo'''. Sendo assim, o show
não tem a cara daquele março de 1972. Tem é a cara de Luiz Gonzaga. Acompanhado por um
jovem Dominguinhos e por um conjunto de zabumba, triângulo, gonguê, cabaça e uma
guitarra na base, quase imperceptível.
Um espetáculo que meu pai jamais esqueceria. Ele, que me parece, nunca foi a
um show do Rei do baião. No entanto, conhecia seu repertório o suficiente para nos
animar nas estradas paraibanas, quando viajávamos para passar o São João no sítio de
Tio Didi. Era como se estivéssemos arrastando as alpercatas na poeira do tempo. Ao redor
da fogueira até ela ser cinza. Cinza que renasce como o canto de Luiz Gonzaga. Que não
é moderno. É eterno. (O POVO)
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