02/07/2001
Museu do Maracatu sem brilho
Vanessa
Alcantara
da Redação
O Museu do Maracatu, ao lado do Teatro
São José, enfrenta crise financeira. A história da cultura afro-brasileira no Ceará,
preservada por Lyrysse Porto, silencia os tambores e pede ajuda para manter o acervo de 17
anos
Além da falta de ajuda financeira, o Museu do Maracatu ainda enfrenta o
racionamento de energia. ``Vou colocar aquelas telhas transparentes. Assim a luz do sol
entra e eu economizo, não é?', diz Lyrysse Porto, presidente do museu. Esse é o menor
dos problemas enfrentados pela instituição. As paredes encontram-se cheias de
infiltrações, as telhas estão velhas, faltam lâmpadas e até manequins para vestir com
o colorido dos paetês cintilantes da cultura do maracatu. ``O jeito é eu fazer com as
próprias mãos'', diz Lyrysse, mostrando os bonecos feitos de papel-jornal.
O museu foi fundado em 1984 e funciona num anexo do Teatro São José, na
praça Cristo Redentor. É lá também que 300 velhinhos são acolhidos, durante o dia,
pelo Centro de Convivência do Idoso. Funciona tudo junto - museu, teatro e centro de
convivência - sob o comando de Lyrysse. ``O meu sonho é construir um piso a mais, assim
o museu pode funcionar no segundo andar e os velhinhos utilizarão a parte de baixo'', diz
a presidente. Ela já procurou a Prefeitura de Fortaleza para pedir ajuda. ``O prefeito
Juraci disse que ia me dar uma resposta. Isso foi há dois anos, ainda estou esperando'',
lamenta ela.
A ajuda que recebe sai apenas dos associados do Teatro São
José. ``Já é alguma coisa, mas ainda é pouco para manter essa cultura popular, que é
uma das bases do nosso folclore'', diz. Ela fala ainda, com muito orgulho, que há 17 anos
cuida sozinha do museu. ``Aqui nunca entrou dinheiro de Prefeitura nem do Estado, apesar
de necessitarmos de todo tipo de ajuda'', acrescenta.
A falta de investimento na preservação se reflete no baixo movimento do
museu. No ano passado, foram quase 30 mil visitas. Este ano, ainda não se chegou nem na
metade desse número. ``Ainda vêm muitos estudantes, principalmente universitários, e
eles ficam encantados com a riqueza desse lugar'', declara Lyrysse.
Para ela, as lembranças dos negros africanos e seus descendentes, que
viveram no Brasil, está nessa simbologia folclórica. Parece necessário coroar um rei e
uma rainha para manter esse vínculo com os poderes imperiais de um continente distante.
Parece fundamental entoar os tambores e cantar versos afro-brasileiros para reverenciar os
orixás. Mas parece ser mais que louvável colocar a coroa em quem luta solitariamente
pela sobrevivência da dança-cortejo, pela autenticidade negra e o som dos tambores,
zabumbas, chocalhos e triângulos do maracatu cearense.
O caçador de escravos chegou
O cortejo grita agô! É
o pedido de licença para dançar. Entra em cena o afoxê (dança) numa simbiose com o
mabundá (canto). A originalidade do ritmo e da cadência abre alas para o maracatu do
Nordeste brasileiro. Uma volta ao passado dos reinados dos congos. Apesar de ter nascido
no Recife, Pernambuco, o maracatu criou raízes no Ceará. Também temos história pra
contar, ou talvez cantar.
``Maracatu/ maracatu/ maracatu''. Dizem que a origem da palavra nasceu de uma
senha combinada e cantada para anunciar a chegada do capitão-do-mato, caçador de
escravos. Na linguagem popular, maracatu significava debandar ou desordem. Os escravos se
escondiam para realizar ritos religiosos e quando percebiam a presença do
capitão-do-mato, gritavam ``maracatu'' e todos debandavam.
``Anastácia... no Museu do Maracatu serás a escrava venerada''. Esse trecho
de uma canção de Lyrysse Porto fala um pouco da vida da escrava, que foi libertada
depois de morta. A imagem de Anastácia abençoa o Museu do Maracatu, onde ela é a
patrona. Segundo Lyrysse, é o único museu no País sobre o assunto. A primeira sede do
museu, por exemplo, funcionou na Casa de Chico Xavier, na rua Nogueira Acióli.
Mas a organização do maracatu em Fortaleza só aconteceu, oficialmente, em
meados da década de 30, quando surgiu o grupo Maracatu Ás de Ouro. Em 1960, nasceu o
Maracatu Rei de Paus. Até hoje os dois representam a força e resistência do culto
afro-brasileiro. (VA) (O Povo)
Serviço:
O Museu do Maracatu funciona na rua Rufino de Alencar, 362 (ao lado do Teatro São José).
Fone: 231-5447.
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