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05/07/2001

Xilogravura: Nossa Senhora da Imburana

Xilogravura

Eleuda de Carvalho
da Redação

Da terra do Padre Cícero direto para Curitiba. Foi na capital paranaense, no final de 1999, que a exposição Senhoras Sertanejas foi vista a primeira vez. Aqui, a coletiva de xilogravadores de Juazeiro do Norte está desde junho na galeria Ramos Cotoco, anexa ao Theatro José de Alencar. Até o fim do mês.

   Juazeiro do Norte tem por defensora espiritual Nossa Senhora das Dores, aquela cuja representação traz um coração de mãe atravessado por sete flechas, representando todo o sofrimento de seu filho Jesus. Cidade que é o centro místico do Nordeste, catalizando a fé popular através da figura do padre Cícero Romão, é também um lugar de artífices, de artistas, de imaginários, que transportam para a tela, o barro, a madeira toda a força da sua fé, transfigurada em arte. Daí que 17 xilogravadores da região se reuniram, sob a segura curadoria de Gilmar de Carvalho, com um objetivo comum: talhar no taco da imburana suas visões singulares daquela que atende por muitos nomes, mas que para todos é Mãe e Compadecida.

   A exposição Senhoras Sertanejas, em cartaz até o final de julho na galeria Ramos Cotoco (anexo do Theatro José de Alencar), apresenta a geração nova, a novíssima e os principais xilógrafos de Juazeiro do Norte. São eles: o mestre José Lourenço, Nilo, Francorli, João Pedro, Zenio, Cícero Vieira, Elosman, Airton, Naldo, Celestino, Hamurabi, Justino Paulo Bandeira, Luciano Bezerra da Silva, Gil Pereira, Iraci Brito e Erivana D'Arc.

   Para comentar a série de Madonas talhadas na imburana, o Vida & Arte convidou o artista gráfico Rafael Limaverde, prata da casa (que vale ouro!). Rafael expôs, recentemente, Xilofagia, exposição na qual fez homenagem aos mitos, artistas e lugares sagrados do Nordeste. Cria da geração internet, Rafael Limaverde não desdenha a criação do povo. Ao contrário, faz uma ponte entre a raiz e as galhas, a tradição e a modernidade, prestando reverência aos artistas populares ao mesmo tempo que se aperfeiçoa nas mais modernas técnicas gráficas. Em uma visita ao Juazeiro do Norte, Rafael foi bater na velha tipografia de José Lourenço, a desmantelada Lira Nordestina de tantas histórias. Esse encontro rendeu um texto delicioso que você lê nesta matéria. De tudo que viu em Senhoras Sertanejas, Rafael destaca em especial os trabalhos de Gilberto Pereira e do mestre José Lourenço. Confira alguns exemplos do que podem juntos imaginação, talento e fé. E de como tudo isso vira carne e alma a partir de um taco de madeira.

Nossa Senhora de Luciano "Na xilogravura, a predominância é do preto. Quando você deixa o branco, tem que ter muito mais cuidado, porque o fio preto do traço fica mais fino, mais delicado, mais fácil de quebrar e não ter o resultado que se quer. Aqui, Luciano teve a habilidade de trabalhar quase totalmente só com o branco, a figura se formando por fios finos com perfeição e beleza rara".

Nossa Senhora de Nilo "O Nilo é muito bom, gosto muito do trabalho dele. Você vê a quantidade de elementos, ele mistura cajus, aves, a roça, o Padre Cícero, toda a xilo é cheia de elementos, não restando quase nenhum espaço em branco. E o rosto, você vê que nenhum rosto das Virgens, quase nenhum, se parece com o convencional. Não só eles trouxeram a Virgem pro meio sertanejo como as feições dela também mudaram, são feições de mulheres do povo''.

Nossa Senhora de Celestino "Ele usa tanto elementos do folclore - você observa brincantes de boi, caretas de Jardim, signos astrológicos, e até figurações de mitos populares, como o próprio Antônio Conselheiro. E a Nossa Senhora está de seios nus, como uma índia. Ele usa vários símbolos numa xilo só, com detalhes muito pequenos. É a imburana que permite esse detalhamento e os traços bem finos".

Nossa Senhora de Zenio "Zenio usou poucos elementos, também poucas texturas, mas não menos bonito, acho que a simplicidade da xilo traz efeitos muito interessantes. Lembra também São Francisco, por seu amor aos animais, ao colocar a imagem da santa em diálogo com um pássaro da caatinga''.

Nossa Senhora de Cícero "É como se Nossa Senhora aparecesse por trás de um juazeiro. Repare no detalhe muito interessante da cabaça ao pé da árvore. Mais uma vez, percebe-se como o artista inseriu a própria natureza, o seu ambiente, nesses trabalhos. É como se não houvesse muita distância entre a vida cotidiana e o outro mundo. Bom, em Juazeiro, realmente, essa distância é bem curta ou nem existe''.

Nossa Senhora de Erivania "A artista já mostra uma Nossa Senhora não só como uma sertaneja, nas faces, mas também de pés descalços, com a roupa rasgada, de enxada na mão. E remete muito a Jesus Cristo, ao modo como ele se inseriu e escolheu viver entre o povo".

Nossa Senhora de Hamurabi "Essa aqui eu acho muito interessante porque remete à caricatura. São traços diferentes dos outros no humor, a Nossa Senhora está lembrando uma vendedora de terços. O detalhe do mandacaru, como numa revista em quadrinhos... E o rosto é bem detalhado, com fios finos, isto é difícil, é para quem sabe. E também é a única Virgem com as faces de uma velha''.

Nossa Senhora de Gilberto "Essa daqui eu já tinho visto, e me chamou muito a atenção. Além da simetria, da beleza que ela tem, a posição dela acho bem legal, batendo pilão, de chinelas, é uma simplicidade... E aquele halo de Nossa Senhora é o único que representa uma coroa, como nas iconografias convencionais. Essa mistura é de um efeito maravilhoso''.

Nossa Senhora de Airton "A alvura dessa Nossa Senhora contrasta com todo o cenário, dá aquela idéia de Virgem Imaculada, pura, segurando flores também brancas. Aliás, outros gravadores também tiraram um efeito muito bom do contraste entre um fundo mais escuro com uma imagem da Virgem mais clara, embora sem os traços da mulher branca, das representações ocidentais de Maria''.

Nossa Senhora de Francorli "No caso desse cacto, você só supõe, é o contorno, só. Em outros elementos, o artista faz só o preenchimento. E a idéia de profundidade, de distância, a xilo é sempre meio chapada, não é?, bidimensional. Pois ele consegue essa ilusão de perspectiva. A estrada acompanha o ponto de fuga, no caso, a aura de Nossa Senhora''.

Nossa Senhora de José Lourenço "Repare a diferença de texturas e tamanhos. Você vê que ele é mais agressivo aqui, quando está mais perto, e é mais sutil, ao fundo. Aqui também a mulher sertaneja está muito bem representada, na lata dágua. E a aura por trás, pode ser até o sol. Na visão dele, essa mulher sertaneja, com lata dágua na cabeça, por trás do sol, é uma metáfora de Nossa Senhora. O sertão, por si só, já é uma xilo, é uma infinidade de texturas. Você vê o mandacaru, as pedras, o rachado da terra... É um cenário muito plástico, em sua aridez''.

Nossa Senhora de Justino "É uma coisa bem simples, a cabaça, a família retirante, elementos que remetem à seca. Muito galho sem folhas, mais uma vez um animal representando toda a relação fraterna do sertanejo com a natureza''.

Nossa Senhora de João Pedro "Aqui a gente vê o imaginário do Juazeiro, o Padre Cícero e suas beatas. A idéia é de uma Nossa Senhora como mediadora do povo até Jesus. É a própria imagem da Compadecida".(O Povo)

SERVIÇO

Senhoras Sertanejas - Coletiva reunindo 17 xilogravadores de Juazeiro do Norte. Curadoria e proposta da exposição: Gilmar de Carvalho. Até 31 de julho, na galeria Ramos Cotoco (no anexo do Theatro José de Alencar, com entrada pela rua 24 de Maio). Horário comercial. Informações: 252.2324.

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