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05/07/2001

Ritmo e poesia para fazer a cabeça

SCHNEIDER CARPEGGIANI

   O hip hop é, atualmente, o braço mais poderoso da indústria fonográfica nos Estados Unidos – seu nascedouro de fato. Sua força é tamanha que transcende em muito o circuito black e serve como inspiração para artistas brancos, que não estão enraizados nele de maneira direta. Aqui pelo Brasil, esse movimento musical/cultural/social começou a tomar corpo em São Paulo, na década de 80. E vem se solidificando de uns anos para cá, não só por conta de artistas que alcançam o sucesso e ultrapassam a barreira dos 100 mil discos, sem maior apoio de FMs e TV, mas também pela intensificação da produção de uma poesia negra e por inovadoras obras, que trazem para o universo literário o sotaque rapper. Um bom exemplo é Capão Redondo – romance com teor documental, escrito por um favelado, que mal passou pela escola, retratando o doloroso cotidiano das favelas paulistanas. A máxima 100% negro não é só mais um bom slogan de camisa. Em Recife, o maior expoente do gênero, a banda Faces do Subúrbio, comemora sexta, com show, os seus 10 anos de carreira. Durante uma década de existência, o grupo ajudou a mudar a cara do Alto José do Pinho com suas letras e posturas contundentes, ao mesmo tempo que trouxe para a escola do hip hop um acento genuinamente nordestino, em ritmo e, claro, poesia.

   Zé Brown, um dos vocalistas do Faces do Subúrbio, faz questão de dizer que não se sente necessariamente um rapper, mas um ‘rapentista’. Expressão que faz clara alusão às caleidoscópicas influências musicais do grupo, que não ficam restritas à tradicional escola americana nem mesmo ao ‘nóis na fita, mano’ dos rappers paulistanos.

   O Faces, como é chamado pelos fãs, prefere trazer também para seu som a ginga e a levada do povo nordestino, com direito a pandeiro misturado, de forma democrática, com as batidas que soam pelas pickups e por um fraseado mais para o ‘embolado’. “No começo, muita gente estranhava a nossa proposta de levar pandeiro para o palco. Agora isso mudou”, completou o músico.

   Sem qualquer ranço de bairrismo, pelas inovações que trouxe ao hip hop brasileiro, o Faces bem que merecia estar em um patamar mais elevado no atual cenário nacional do gênero. Tente comparar, por exemplo, o som de muitos grupos de rap do Brasil com os dos Estados Unidos ou Europa. Se não fosse pelo português, a base musical não traria qualquer traço que distinguisse claramente a nacionalidade. Com o Faces isso não ocorre: é uma música que busca mapear bem sua origem.

   Apesar disso, os dois CDs do grupo, Faces do Subúrbio e Como é Triste de Olhar – que receberam elogios da mídia –, acabaram esbarrando em uma distribuição fraca nas lojas e no olhar de soslaio das rádios – mesmo com seus intensos potenciais radiofônicos. “Tem gente que procura o Como é Triste, mas não encontra para vender. Está esgotado em quase todo lugar. Esse é um disco que a gente acha que ainda pode render muito”, soltou o baterista Garnizé.

   Atualmente, o Faces prepara material para seu terceiro CD e emperra na indecisão de continua ou não na gravadora MZA, que é distribuída pela major Universal. “Temos algumas propostas, mas ainda não sabemos por onde seguir”, dispara Garnizé.

   NEM SÓ DE MÚSICA – Fiéis à proposta do hip hop de buscar uma mudança social aliada à música, alguns dos integrantes do Faces são envolvidos com projetos comunitários.

   Garnizé mantém uma oficina de percussão em Camaragibe, há quase uma década, e ajuda a organizar a cena musical local. O cotidiano do baterista do Faces na cidade, inclusive, foi documentado no filme O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas, de Paulo Caldas e Marcelo Luna.

   Já Zé Brown, há alguns anos, conseguiu realizou o sonho de comandar uma oficina de hip hop, em Água Fria, ligada à ONG Vida. “Para nós, é importante ter essa ligação com a comunidade. Não interessa apenas fazer música de protesto e ficar mantendo uma postura de pop star”, ressaltou Zé Brown.

   No show de comemoração de 10 anos de amanhã, a banda conta com a presença de artistas que, de alguma forma, estiveram presentes na carreira do Faces: a cantora Mônica Feijó (que já foi backing do grupo), o embolador Castanha (confessa influência musical do Faces), Abdias Campos, R.D.R, S.O.S, Réu Primário, Rock Boys, Recife City Break e A.J.P. Break (da oficina de hip hop comandada por Zé Brown).

   No repertório da apresentação, os destaques dos dois discos e algumas composições inéditas. Tudo bem distante daquele pré-Faces do Subúrbio da virada 80/90, que começou como um grupo de break, formado por Tyger e Zé Brown, com o pomposo e – hoje – engraçado nome ‘The Boys of The Rap’. “Era muito ridículo esse nome, muito”, lembra Zé Brown, entre as serenas gargalhadas de quem soube aproveitar bem a última década. (Jornal do Commercio)

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