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07/07/2001

Reedições tiram Josué de Castro do limbo literário

Geografia da Fome (1946), de Josué de Castro

Livros: Geografia da Fome (1946) e Homens e Caranguejos (1966), de Josué de Castro

   Rossellini queria filmar um livro seu. Sartre e Simone são nomes de sua agenda pessoal de telefones. Einstein era um dos signatários das cartas que recebia, assim como presidentes do mundo todo. Este era o alcance da personalidade de Josué de Castro (1908-1973). Neto de retirantes paraibanos da última grande seca do século 19, Josué nasceu e cresceu num ambiente humilde. Virou médico, geógrafo, deputado federal, embaixador do Brasil na ONU, intelectual reconhecido — e lido — no mundo inteiro. Morreu no exílio. Apenas por esses fatos sua vida já renderia uma interessante biografia. Mas ela ainda não foi escrita. Josué de Castro permanece nome desconhecido por muita gente. Seus livros correram o mundo, mas passaram os últimos anos distantes das livrarias e bibliotecas brasileiras. Seu nome não aparece nas salas de aula.

   O silêncio e o afastamento impostos a Josué de Castro em 1964 perduraram muito mais que a ditadura. Salvo pequenas homenagens e reedições com distribuição tímida, seus 22 livros, produzidos entre os anos 40 e 60, ficaram esquecidos. Com a recente republicação de Geografia da Fome (1946) e Homens e Caranguejos (1966), pela Civilização Brasileira, Josué de Castro sai do âmbito dos sebos e volta às livrarias. "O assunto deste livro é bastante delicado e perigoso. Se constitui num dos tabus de nossa civilização", avisou Josué na primeira frase de Geografia da Fome. O autor dividiu o país em cinco e demonstrou, por meio de análises específicas, que todo o Brasil carecia de nutrientes.

   Mais do que isso, denunciou a fome como "um flagelo fabricado pelos homens, contra outros homens". Disse: "A fome é, regra geral, o produto das estruturas econômicas defeituosas e não de condições naturais insuperáveis." À obra Geografia da Fome seguiu- se Geopolítica da Fome, em que Josué parte do mesmo tipo de análise para outras regiões do mundo. Homens e Caranguejos, posterior, é o único romance de Josué, escrito no primeiro ano do exílio. Era esse o livro que o diretor italiano Roberto Rossellini tentou filmar. A intenção está revelada em uma das cartas recebidas por Josué. Mas o projeto fracassou. O combinado era o de que Rossellini entraria em contato com o geógrafo quando chegasse ao Brasil. Tentou. Mas a empregada que o atendeu, por não entender o italiano, não passou o recado a Josué.

Edições em 36 países

   Ele nunca a perdoou por isso. Os livros de Josué de Castro foram editados em 36 países. O autor constantemente atualizava seus textos, com novos dados. Esta nova edição de Geografia da Fome é fruto da última versão, feita já em Paris. Tanto que o original, com as mudanças, está em francês e foi feito para uma editora de lá. Depois que o escritor morreu, sua mulher e sua filha traduziram o texto de volta para o português. "A grande atualidade do ‘Geografia da Fome’ não é a denúncia da fome, mas a contatação de que o desenvolvimento econômico não seria capaz de erradicar a pobreza", avalia Cristovam Buarque, ex-governador do Distrito Federal, doutor em Economia (cujo título foi avaliado em banca integrada por Josué de Castro) e exassistente de Josué, em Paris.

   "Festejar mais de 50 anos de um livro como o Geografia para dizer que o que ele traz é verdadeiro e continua valendo é muito triste", analisa a socióloga Anna Maria de Castro, filha de Josué. "Na obra, ele desmistificou a fome, assim como Freud fez com o sexo, com a diferença de que a psicologia evoluiu muito com Freud. E o problema da fome continuou oculto."

   Geografia da Fome e Homens e Caranguejos são complementares. Enquanto o primeiro trata cientificamente da realidade da fome no Brasil, o segundo, uma ficção, expõe sentimentos profundos que o tema despertava no autor. Traduzido para mais de 25 idiomas, Geografia da Fome, de 1946, foi estruturado a partir do método geográfico-interpretativo preconizado por Vidal de La Blanche, que em 1922, em seu Princípios da Geografia Humana, apontava o estudo dos recursos alimentares regionais como uma forma de compreender as relações do homem com seu meio. Josué de Castro aborda sofrimentos e mortandades causados pela fome como resultado da ausência de projeto nacional e da monocultura predatória que transformou em desertos regiões inteiras do país.

Cortes

   Pena que a presente reedição da Civilização Brasileira, embalada em competente projeto gráfico, venha sem material adicional constante em edições anteriores, como a da editora Gryphus, de 1992. Suprimiu-se o prefácio escrito por Alceu Amoroso Lima em 1980, o qual mensura Geografia em sua importância política e social, além de compará-lo, como retrato da realidade nacional, a Os Sertões, de Euclides da Cunha. Também ficou de fora o apêndice à oitava edição A contribuição da crítica brasileira, no qual estabelece diálogo sem arrogância com os críticos Nelson Werneck Sodré, Sérgio Milliet, Luiz da Câmara Cascudo e José Honório Rodrigues. Suas sugestões e ressalvas ao Geografia da Fome são enumeradas e incluídas no livro.

   Outro corte inexplicável foi o do material iconográfico de Geografia da Fome. Era uma dúzia de imagens escolhidas pelo próprio Josué, como a de um sertanejo fotografado por Pierre Verger; a de um desenho de Percy Lau mostrando a via crúcis de retirantes e um detalhe de quadro de Portinari retratando um faminto. Em substituição, acrescentou-se um lacônico e correto texto de página e meia do geógrafo Milton Santos. O único romance de Josué de Castro, Homens e Caranguejos, também chega carecendo de um estudo introdutório. Escrito em 1966, e com apenas uma edição em 1967 pela Brasiliense, este drama ficcional trata das lutas estomacais diárias da família do menino João Paulo, tendo como pano de fundo a estrutura agrária e feudal do sertão nordestino.

   Em linguagem coloquial, com capítulos titulados à moda dos romances picarescos (De como o corpo e a alma de João se foram impregnando do suco dos caranguejos, por exemplo), o livro pode ser incluído na tradição literária dos romancistas da fome, à qual pertencem outros escritores brasileiros como Rodolfo Teófilo e Rachel de Queiroz, e estrangeiros como Knut Hamsun e George Fink. (terra.com.br)

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