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07/07/2001

Laboratório de forró

No rastro do Falamansa (foto), vieram bandas de forró universitário

Sucesso do Falamansa leva gravadoras a criar nova linha de montagem: é a vez dos grupos universitários

SILVIO ESSINGER

   Atenção: acabam de sair cavaquinho e surdo, guitarras baianas e timbaus, violas e vozes em terça, baterias eletrônicas e gritos de torcida. No lugar, entraram triângulo, zabumba e sanfona. Ou seja: depois das enxurradas de pagode, axé, sertanejo e funk, o novo darling da indústria é o forró universitário - ao menos, a se julgar pela quantidade de lançamentos que começam a abarrotar as lojas de discos. Hoje em dia, cada gravadora brasileira tem (ou tenta ter) pelo menos um grupo de jovens dedicados ao gênero que Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro imortalizaram. Os discos de estréia estão aí: a Universal Music vem com o do Guentaê, EMI com o do Forró Chama Chuva, a Paradoxx com os do Baião D4 e do Bicho de Pé, a Abril Music com o do Peixelétrico, a Sony com o do Paratodos, a Virgin com o do Circuladô e a Indie Records com o dos Filhos da Mãe. Até a tradicionalmente bossanovista Albatroz acaba de lançar um CD do Raiz do Sana.

   Todos estão de olho no sucesso do Falamansa, grupo paulista que já vendeu 1,5 milhão de cópias do disco Deixa entrar..., e do Rastapé, que vai no vácuo com 210 mil de seu Fale comigo. Em comum entre essas bandas e as que chegam agora há o fato de terem integrantes jovens e em sua maioria do Sudeste, tocando um forró que conserva a tradição pé-de-serra, mas não tem medo de fazer, em composições próprias, experiências com reggae e outros estilos pop. ''O Falamansa virou modelo para as contratações'', resume Mônica Ramos, da DeckDisc, que detém o passe das duas grandes sensações do forró universitário.

   O termo que batiza o movimento vem do fato de os universitários de classe média, nos últimos anos, terem se tornado público constante e numerosa em festas animadas pelos trios tradicionais de forró Virgulino, Nordestino e Forrozão, em lugares como KVA, Equilíbrio e Remelexo (em São Paulo), ou Lagoinha, Ballroom e Malagueta (no Rio). Alguns desses espectadores mudaram de lado e começaram a montar suas próprias bandas, muitas formadas depois de os jovens conhecerem Itaúnas, cidade mineira que se transformou em ponto de encontro de forrozeiros de todo o país.

   Mais autoral - Atenta ao fenômeno, Mônica chamou um desses animados conjuntos, o Falamansa, para participar do disco O som do forró, de releituras de forrós. Mas quem acabou gravando foram Rastapé e o Baião D4 - o Falamansa preferiu embarcar num projeto autoral que, para surpresa de todos, acabou revertendo em vários discos de platina para a banda.

   Mônica diz que muitos grupos chegaram até ela depois do sucesso do Falamansa. Uma delas foi a Paradoxx, que arrebanhou o Baião D4, grupo que reúne dois paulistanos (o baterista Pixú e o vocalista Tiago Sena) e dois maranhenses (os percussionistas Cezar Peixinho e Nana de Nazaré).

   Com sangue italiano e espanhol a correr nas veias (mais paulistano, impossível), Pixú (Paulo da Silva Martins na carteira de identidade), 35, tem dois anos de banda e seis de forró, estilo no qual diz ter detectado a possibilidade ''de se fazer música brasileira para jovens''. Com a explosão do Falamansa, o Baião se preparou para o ataque a outros estados, com a inclusão de baixo e guitarra elétricos. As músicas O boby, Flor de mulher e Boi de walkman, do seu CD Aonde a onça bebe água já começam a tocar nas rádios.

   O mais difícil para as bandas do forró universitário tem sido passar do público pequeno mas fiel das festas para as multidões das AMs, FMs e TVs.''O Falamansa só tocou no rádio depois que tinha vendido 500 mil cópias'', conta Mônica Ramos. ''Na verdade, exceto por Falamansa e Rastapé, esse segmento ainda não chegou às rádios'', acrescenta Alexandre Martins, 40, diretor de promoção e marketing da Indie Records. Sua estratégia de sucesso para o gênero tem sido reunir bandas de várias partes do país - que participaram do Projeto Equilíbrio - na coletânea Cooperativa do forró.

   Barreira da mídia - A idéia é cultivar um marketing mais barato, de filipetagem nas casas de show, para que assim a música chegue ao rádio. ''O importante é conseguir passar essa barreira da mídia'', diz Alexandre. Já Silvio Arnaldo Caligaris, 45, diretor artístico e sócio da Paradoxx, está partindo para a luta com projetos de rádio para que o forró vire música pop. ''Há uma recusa das emissoras em tocar o forró universitário, elas têm medo que ele caia naquela coisa popularesca, tipo Frank Aguiar'', diz.

   Na passagem para a grande mídia, a imagem dos grupos tem sido cada vez mais importante. ''No Trio Forrozão todo mundo é feio, o que prevalece é o talento. Mas é assim mesmo que acontece no segmento musical...'', lamenta o vocalista do grupo, Bastos, 42, que acaba de voltar ao disco com No forrobodó, o quarto do trio. Essa tradicional banda só conseguiu gravar seu primeiro CD em 1998, depois de 15 anos de atividade na Feira de São Cristóvão. ''Era muito difícil sobreviver cantando forró pé-de-serra, ainda mais para público jovem'', conta este paraibano de Pombal.

   Mas depois da febre universitária em Itaúnas, tudo mudou. ''Os grupos que hoje são os reis do pé-de-serra conheceram forró há pouco tempo. Eles sempre vinham ver a gente tocar na feira'', diz Bastos, deixando escapar uma preocupação/crítica: ''Hoje em dia qualquer banda está gravando. Espero que isso não vire modismo.'' (Jornal do Brasil)

Tocar sanfona é o problema

   ''Tem um lado do preconceito com as pessoas que são mais pobres. Talvez por isso a mídia não absorva os trios tradicionais com a generosidade que deveria'', reconhece o novato Pixú, do Baião D4. ''Mas eu acho que vai ser como na explosão do pagode, em que os grupos acabaram chamando a atenção para artistas como Nelson Sargento'', espera. A busca dos novos grupos de forró pela qualidade musical faz com que, não raro, os sanfoneiros sejam importados do Nordeste. ''Tocar triângulo, zabumba e violão eles aprendem. Sanfona é que é fogo!'', observa Silvio Arnaldo, da Paradoxx, que diz estar preocupado em não deixar as bandas de forró universitário da gravadora se vestirem como o Falamansa, ''de camisa florida e sandália''.

   Efeito colateral da explosão dos universitários, um fenômeno que o DJ carioca Xeleléo, 23, tem reparado nas festas do Rio é o surgimento do forró de playboy. ''É a festa do pessoal que não é forrozeiro, que vai para azarar e puxar os cabelos das meninas. Isso é o que queima o movimento'', conta este que é um dos DJs de forró mais ativos da cidade, tocando em Ballroom, Malagueta e Quebra-Mar. Há três anos e meio no circuito, ele diz que, nos tais bailes, são as músicas das bandas novas que têm tido mais aceitação. ''Toco no máximo uma música de cada grupo por noite'', diz ele, que cata discos tradicionais nos sebos. ''Hoje em dia, todo mundo quer produzir forró, há muitos aproveitadores. Fico preocupado com isso porque, antes de tudo, sou forrozeiro'', denuncia.

   Mônica Ramos, da DeckDisc, acredita que haja espaço para todos, mesmo depois dos milhões do Falamansa. ''Mas, como tudo na indústria, vão ficar os melhores. O que podemos fazer é trabalhar para que o Falamansa e o Rastapé produzam discos cada vez melhores''. Xeleléo assina em baixo: ''Há muitas bandas com potencial, como o Forróçacana e o Dom Quixote, que são melhores ou tão bons quanto o Falamansa. Falta é o pessoal investir. O marketing é tudo''. Mas há quem tema pela superexposição, como Pixú: ''Espero que o forró não seja banalizado. Já ouvi falarem aí em forrozinho.''

   Mas mesmo que a onda passe, Xeleléo não desanima: ''O forró tem um público fiel que não vai deixar de ir às festas - é para ele que eu toco.'' Bastos, do Trio Forrozão, concorda: ''Luiz Gonzaga passou a vida inteira tocando forró.'' E Silvio Arnaldo, da Paradoxx, olha adiante: ''O forró universitário é uma retomada da MPB. A última vez em que vi uma coisa dessas foi no Clube da Esquina. O forró pode alavancar uma nova linguagem de música cantada em português. Existe uma carência muito grande de música e letra.''


Estilos vão do brega ao hippie

   No balanço do forró universitário, quem entrar numa loja de discos é até capaz de ficar baratinado. Mas, entre os novos grupos, pode-se tentar separar os lançamentos. Entre os sons mais misturados, temos o do CD homônimo dos cariocas do Paratodos, produzido por Robertinho do Recife (cuja filha, Robertinha, também ataca no gênero). Com guitarras e eletrônicas, Paratodos é um produto pop com climão de Santa Teresa. A faixa Alucinado é um forró dance. Graziela, Flor e Pra te buscar vão pelos lados do reggae. E o Xote coladinho vai mais na tradição do forró, mas com som pop de hoje. As composições, em sua maioria, são do baixista de jazz Eduardo Krieger, filho do maestro Edino Krieger.

   Também no entroncamento do xote com o reggae atacam os paulistanos do Peixelétrico em disco homônimo produzido pelo veterano Mazzola. A maioria das composições é do vocalista, violonista, surfista e capoeirista Ricardo Trip. As faixas mais incomuns do disco são o forró-capoeira Caminhador, o forró-blues Maré de lua e o forró-oriental Lôco. Mas loucos de verdade são os baianos Filhos da Mãe, que fazem uma versão forrorock de A cera, sucesso da banda cearense de rock O Surto. Mais para o forró brega de Frank Aguiar (de quem são apadrinhados) que para o Falamansa (de quem abriram shows), a banda é uma das poucas que fogem ao padrão autoral. Em seu disco homônimo, gravaram, entre outras, a manjada Eu só quero um xodó (Dominguinhos/Anastácia) e Sabiá (Luiz Gonzaga e Zé Dantas).

   Misturas - Na área do pé-de-serra de verdade, o destaque vai para o Baião D4, que mostra sofisticação MPBística no disco Aonde a onça bebe água, com boas letras, como a de O boby (espécie de continuação do Bob do pernambucano Otto), e misturas interessantes, como as de Boi de walkman e Eh boi. Com muitas composições do violonista convidado Evaldo Cavalcanti, ele ainda traz uma versão de Chupando gelo, de Edésio Deda, com participação de Chico César, o padrinho da banda. O também paulistano Bicho de Pé surpreende em Com o pé nas nuvens com a voz suave de Janaína Pereira (ex-corista da banda de Miltinho Edilberto, um do precursores do forró universitário), autora de músicas como Será? e Nas nuvens, que resvalam no reggae. O disco do Bicho ainda traz músicas de Tato, do Falamansa (Asas), e Miltinho Edilberto (Anjo tentador e Anjo de guarda noturno), e não escapa das versões: tem Ando meio desligado (Mutantes) e Ovelha negra (Rita Lee, ambas num pot-pourri) e de ABC do sertão (Luiz Gonzaga).

   De raiz - Os cariocas do Raiz do Sana, a mais hippie das bandas de forró universitário, incrementam o pé-de-serra com samba em seu bom disco homônimo, que vendeu três mil cópias em prensagem independente. Mais um grupo com voz feminina (Tati Veras), ele tem a maioria das músicas composta pelo baixista Elysio.

   De Campinas, por sua vez, vêm o Guentaê, a aposta da Universal no segmento, com o disco Sapatilha 37. A faixa-título, uma das várias do vocalista e violonista Klefour Nunes, conta uma história de Cinderela no forró. Mas há também as releituras em baião, como a de Mais uma de amor. Já da meca Itaúnas vem o Forró Chama Chuva, a banda de novo forró da EMI. Há muitas músicas do vocalista e violonista Giovani Calmon e as versões de A novidade, de Paralamas e Gil, e do clássico Toque do fole.

   No mesmo pacote das novidades, há lançamentos mais voltados para a tradição: estão chegando às lojas os discos dos trios Nordestino (Balanço bom, DeckDisc/Abril Music), Virgulino (Coração feliz, Deck/Abril) e Forrozão (No forrobodó), além do segundo álbum de Miltinho Edilberto (Feito brasileiro, Deck/Abril), do disco de forró do ator Jackson Antunes (Veredas do grande sertão, Kuarup) e das coletâneas de forró universitário Forró 2001 (Abril) e Só forró II (Kuarup). Haja sandália para arrastar! (S.E.) (Jornal do Brasil)

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