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09/07/2001

Ao vivo, Zé Ramalho canta Raul Seixas bem melhor

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Show em clima de rock salva disco-homenagem

SILVIO ESSINGER

   É impossível negar a afinidade entre Raul Seixas e Zé Ramalho, dois nordestinos que acabaram por se envolver com o rock e o esoterismo e que tiveram carreiras irregulares, de grandes sucessos e músicas geniais, muitos revezes e faixas dispensáveis. O que não quer dizer que um disco de Zé relendo as músicas do falecido Raul fosse lá uma boa idéia. Lançado há alguns meses, o CD só fez evidenciar a diferença de estilo entre os dois, com o paraibano muitas vezes cantando com a gravidade de um profeta, o que era um sensacional chiste do baiano, entre outros probleminhas. Toda a prevenção se fazia necessária diante da estréia do show Zé Ramalho canta Raul Seixas, que ocupou o palco do Canecão este último fim de semana. Mas Zé deu a volta por cima, com uma presença e um punch que ajudou a desfazer a impressão deixada pelo disco que, por sinal, ocupou apenas uma parte do show.

   O cenário, que reproduzia a bela capa do CD, assustava: a figura do ser formado por metade do rosto de Zé, metade do de Raul, tinha os olhos iluminados por uma luz vermelha - imagem que parecia evocar as inclinações ocultistas do baiano. Mas não foi nenhuma das músicas dele que abriu o show, mas sim Jardim das acácias e Beira-mar, ambas composições do titular do show. O pique era roqueiro, apesar da ausência de guitarras - era baixo, bateria, teclados, percussão, sopros (Toti Cavalcanti se revezava no sax, clarineta e flauta, ora sublinhando as melodias das músicas) e o violão folk de Zé.

   Recado no palco - A homenagem ao ''amigo e colega de profecias'' começou com As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor, um cordel elétrico, que coube melhor que as outras no estilo de cantador do intérprete. Seguiram-se, de enfiada, S.O.S., O trem das sete, Metamorfose ambulante e Ouro de tolo, todas bem melhores ao vivo (livres da padronização dos arranjos do disco), com um recado de Zé aos ''parceiros infelizes'' de Raul que brecaram a gravação de algumas de suas músicas - o recado era para Paulo Coelho. No pacote veio também Para Raul, música em formato brega (típica dos artistas que Raul produziu na CBS antes de lançar-se em carreira solo) que o paraibano fez em sua homenagem. ''Não se esqueça de mim que sou seu fã'', pedia ele na letra.

   Daí em diante, foi a festa de hits de Zé Ramalho: Avôhai, Vila do sossego, Chão de giz, Admirável gado novo (''É a canção do povo do nosso país'') e Frevo mulher (com delicioso sabor ska), que tiveram todo o apoio e aplauso do público. De quebra, ele ainda cantou Para não dizer que não falei de flores (hino de Geraldo Vandré) e Amar quem eu já amei (de João do Vale e Libório), ambas gravadas em seu disco anterior, Nação nordestina.

   A festa acabou em clima de show da prima Elba, com uma carnavalesca Não quero mais andar na contramão, que Raul Seixas lançou em seu disco de 1988, A pedra do Gênesis, e Zé não havia gravado em seu disco. ''Essa é uma mensagem do maluco-beleza para quem quer parar com as drogas'', anunciou, antes de sua boa releitura. Entre mortos e feridos, acabaram se salvando todos em Zé Ramalho canta Raul Seixas. (Jornal do Brasil)

CD reúne as favoritas do profeta

   Do baú do Raul, sai mais um disco. Desta vez, não para alimentar o mito do maluco-beleza, do profeta ou o que quer que ele tenha sido chamado. Os 24 maiores sucessos da era do rock (MZA/Universal Music) traz Raul no que ele mais gostava de fazer, que era tocar rockn roll. É a quarta vez que esse disco é lançado. Gravado em 1973, ele chegou às lojas com uma capa picareta, creditado a uma tal de banda Rock Generation, para não atrapalhar o trabalho de divulgação de Krig-há bandolo!, com que o produtor Raul começava a se destacar como artista solo.

   Em 75, quando ele já era uma sensação, o LP foi relançado com outra capa, palmas entre as músicas e o título 20 anos de rock. Dez anos depois, foi editado mais uma vez, com o devido reparo no título, 30 anos de rock. Agora, o disco volta remasterizado pelo velho amigo de Raul, o produtor Marco Mazzola, sem as adulterações sonoras (as palmas), duas opções de capa, ficha técnica, notas e tudo mais.

   Rock pesado - O entusiasmo de Raul ao cantar suas favoritas do rock (numa época em que o gênero ainda era jovem o suficiente para projetos revisionistas como esse parecessem estranhos), com uma ótima banda a acompanhá-lo mais do que justifica o relançamento. Quando é rock mesmo, como no pout-pourri de Rock around the clock/Blue suede shoes/Tutti frutti/Long tall Sally e das nacionais Rua Augusta/O bom, o som é pesado, hard rock, apimentado por sopros.

   Há marcas da época em que o disco foi gravado, como as intervenções de teclado eletrônico de Zé Roberto Bertrami (do Azymuth) e a citação de Proud Mary, do Creedence Clearwater Revival (uma das bandas de rock mais em voga em 73) entre Marcianita e É proibido fumar. Mas nada que atrapalhe. Mesmo nas baladas, como em The great pretender e Only you, o pique não cai. Raul vive nesses 24 maiores sucessos da era do rock. (S.E.) (Jornal do Brasil)

Os 24 maiores sucessos da era do rock - CD da MZA/Universal Music, com regravações de rocks de Raul Seixas.

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