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16/09/2002
Eduardo Souza Lima
Claudio Assis é um cineasta sem papas na língua ou
na câmera. Suas credenciais foram apresentadas no Festival de Brasília de 1999. A
primeira foi o curta Texas Hotel, um dos filmes mais malcomportados da recente
safra só para se ter uma idéia, há uma cena de um sujeito se masturbando e um
close ginecológico no sexo da atriz veterana Conceição Camarotti. A segunda, a sua
reação ao não ganhar nenhum prêmio: o diretor, pernambucano de Caruaru, ameaçou
agredir jornalistas e jurados e chegou às vias de fato com um deles.
Não dá para ver canalhice sem fazer nada diz Claudio.
O cara disse que eu queria ser cineasta filmando uma vagina! Não dá para levar recadinho
para casa.
Isto já dá uma noção do que esperar de Amarelo manga
aliás, é bom se preparar para levar uma baita cacetada logo na cena de abertura o
primeiro longa-metragem do cineasta, que terá a sua pré-estréia no dia 4 de outubro, na
Première Brasil do Festival do Rio BR. O filme foi um dos premiados do último concurso
para produções de baixo orçamento do MinC ao lado de Seja o que Deus
quiser!, de Murillo Sales, Dois perdidos numa noite suja, de José
Joffily, e Houve uma vez dois verões, de Jorge Furtado, que também estão na
mostra; e O invasor, de Beto Brant, e Avassaladoras, de Mara
Mourão, que já chegaram ao circuito.
O submundo do Recife
Amarelo manga foi o único projeto de estreante e o único do
Nordeste a ganhar o prêmio. Isto, é claro, deixou Claudio fulo da vida:
Teve filme que tinha grandes produtoras e empresas por trás fazendo
lobby. E ainda diziam que era de baixo orçamento!
O cineasta foi diretor de produção de Baile perfumado, vencedor
do Festival de Brasília de 1996, que apresentou ao país a nova geração do cinema
pernambucano. É o primeiro longa-metragem de ficção produzido no estado desde então.
Mas, diferentemente do seu antecessor, passa longe do sertão.
O cinema pernambucano não é só cangaço, bumba-meu-boi e ciranda
diz. O Recife é uma metrópole, seus problemas são iguais aos do Rio e de
Nova York.
Claudio conta que o filme é sobre amores e desamores, sobre o egoísmo
que as pessoas têm quando amam. E sobre pequenas violências, que parecem mudas
diante do escarcéu provocado pela grande violência que nos cerca.
Quando a pessoa ama, esquece de tudo e atropela todo mundo. É desta
violência, humana, que quero falar. O filme trata do universo dos menos favorecidos. Quis
mostrar que o povo de dentro do filme é igual ao de fora. Eu conheço o submundo da
cidade. Como as pessoas se embrutecem para sobreviver.
Por isso, a câmera de Amarelo manga, guiada por Walter Carvalho,
é quase documental:
Os atores contracenaram com o povo. Filmei em cenários reais. Tem
cena num matadouro e mostro um boi sendo morto. Os ambientalistas nem vão poder reclamar,
porque ele morreria mesmo.
O filme é formado por várias pequenas histórias que se cruzam: Chico Diaz
interpreta um açougueiro, casado com uma evangélica (Dira Paes); Jonas Bloch faz um
necrófilo apaixonado por uma dona de bar (Leona Cavalli); e Matheus Natchergaele vive um
travesti.
Fiz um filme com só R$ 500 mil porque as pessoas acreditaram no
projeto, tornaram-se minhas parceiras. Teve ator que já fez vários filmes, mas me disse
que só no meu se sentiu fazendo cinema de verdade.
O título foi tirado de Tempo amarelo, livro do sociólogo
pernambucano Renato Carneiro Campos.
Ele fala do amarelo dos dentes apodrecidos dos meninos, a cor da
miséria do país.
Claudio fez movimento estudantil e ajudou a tocar um cineclube em Caruaru,
onde entrou em contato com o trabalho dos grandes mestres e descobriu que o cinema era a
sua forma de expressão:
Não queria ser político e este foi o meio que encontrei para
manifestar minha inquietação. Para fazer cinema, tem que ter tesão. Não quero fazer
filminho para agradar. Não agüento esta realidade maquiada do cinema nacional de hoje.
Enquanto estiver vivo e a língua falar, os caras vão ouvir.
(©
O Globo)
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(arquivo NordesteWeb)
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