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Ivete Sangalo na Playboy: entrevista

16/09/2002

Ivete Sangalo

Ivete Sangalo. Cantora consagrada, atriz iniciante, empresária de sucesso e, segundo boatos, futura apresentadora de TV, a musa da seleção do penta ainda sabe jogar bola

   Ivete Sangalo está na boca do povo. A música Festa, carro-chefe de seu terceiro álbum, tornou-se o hino do pentacampeonato da Seleção Brasileira. Utilizada pelo técnico Luiz Felipe Scolari em vídeos para motivar os jogadores, a música foi cantada nas ruas desde a vitória na final até a recepção ao time, que passeou no trio elétrico da cantora pelas ruas de Brasília. Por trás da folia futebolística, esquentam os rumores de que Ivete terá um programa de TV dirigido por Marlene Mattos, agora afastada de Xuxa e em busca de uma nova estrela para guiar.

   A cantora joga futebol, na linha ou no gol. Entende de bola e dá seus palpites. PLAYBOY a entrevistou em várias sessões, antes e depois da Copa. Na última conversa, pediu que suas certeiras previsões fossem registradas na revista. Quando pouca gente acreditava no time, semanas antes do Mundial, Ivete achava que Ronaldinho Gaúcho seria uma das estrelas da competição e apostava na recuperação total de Ronaldinho. "Acho que Ronaldo é mesmo um fenômeno. Vê-lo jogando, depois de tudo pelo que passou, é bacana. E ele joga calmo, consegue lidar com a pressão. As pessoas falavam que Ronaldo não voltaria, nunca seria o mesmo, mas elas se esquecem da paixão que ele tem por jogar futebol, desde criança. Antes da grana e de tudo vem essa paixão. Ele não poderia parar de jogar. Eu não poderia parar de cantar, por que as pessoas achavam que ele iria desistir?", disse.

   Todo mundo sabe que Ivete não pára quieta, tem uma energia de fazer inveja. Com recém-completados 30 anos, essa baiana de Juazeiro é capaz de ficar seis horas em cima de um trio elétrico sem parar de dançar e pular. Ela pode cumprir uma concorrida agenda de shows e ainda ter tempo para malhar no hotel. O que pouca gente sabe é que, além do corpo de Ivete não ficar parado, a cabeça empreendedora da ex-aluna de administração também funciona a mil o tempo todo. Depois de estourar no Brasil inteiro como vocalista da Banda Eva, um dos grupos muito bem-sucedidos da leva de axé music que foi febre nos anos 90, Ivete comanda hoje uma das carreiras solo mais estáveis no cenário da MPB. Seus discos com a Banda Eva e os quatro álbuns da carreira solo ultrapassam 3 milhões de CDs vendidos.

   Em sua fileira de sucessos há espaço para a agitada música baiana e baladas, incluindo regravações de Cassiano e dois tremendos hits assinados pelo amigo Herbert Vianna, Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim e A Lua que Eu Te Dei. Mas as atividades profissionais dela não ficam restritas ao palco ou aos estúdios. Dona da produtora Caco de Telha, Ivete administra seus shows nesse escritório, no qual trabalham seus irmãos. Cuida da carreira de outros artistas e, com o conhecimento conquistado em anos de estrada ao som do axé, administra a agenda de shows no Norte e Nordeste de uma admirável carteira de clientes, desde astros ascendentes como Kelly Key aos consagrados Sandy e Junior. De tanto cantar sobre trio elétrico, abriu uma fábrica desses enormes palcos móveis. O sonho infantil de ser fazendeira já começa a se realizar ("Tenho uma roça, mas coisa pouca, para investimento", diz). Um grande salto para a adolescente que foi vender quentinhas com os cinco irmãos quando o pai morreu e o dinheiro da família acabou.

   Caçula da casa, Ivete perdeu a mãe há poucos meses. Pensa em voltar a fazer análise, porque agora está sentindo mais o impacto da perda. Antes, ficou anestesiada com a habitual maratona de shows no início do ano ("Meu ano fiscal termina no Carnaval"). Quem não a conhece e só vislumbra a Ivete que é um furacão nos palcos e sempre simpática na TV pode ter a reação simplista de duvidar de que alguém como ela precise de análise. Ainda porque o coração também parece ir muito bem, obrigado. Depois de alguns namoros que, a distância, parecem longe de muita turbulência, como seus relacionamentos com o apresentador Luciano Huck e o empresário Marcelo Rangel, ela namora o bonitão da hora da MPB, o guitarrista Davi Moraes, filho de Moraes Moreira e ex de outra diva canora, Marisa Monte. Ivete não fala dele ou de seus ex-namorados em entrevistas. Quando fala de amigos, é para descarregar elogios, como faz sempre com o apresentador Fausto Silva, a escritora de novelas Glória Perez, Xuxa e Marlene Mattos.

   Para entrevistar Ivete Sangalo, o editor sênior Thales de Menezes foi encontrar a diva baiana no Rio. Foram duas longas sessões de conversa, uma delas no estúdio no qual Davi Moraes estava gravando. Depois o trabalho foi completado em Salvador. "Ivete Sangalo agrada as pessoas a sua volta e faz isso de maneira natural, sem afetação. No primeiro dia de entrevista, quando foi feita a sessão de fotos, ela chegou já maquiada, o que deixou o profissional contratado pela revista sem ter o que fazer. Quando ela o viu, pediu desculpas e começou a conversar com ele de uma maneira tão animada e carinhosa que matou qualquer constrangimento.

   Ela andava pelas dependências da gravadora Universal cumprimentando a todos, assessores, copeira, faxineira. Durante as fotos, topou todas as caras e bocas e brincou muito. Na hora de ligar o gravador, no entanto, a voz firme e o discurso articulado, seguro, o olho no olho, tudo isso fez transparecer logo o lado empreendedor da moça. Ela tem total controle de sua carreira, faz o que quer e sabe que o faz bem. Dura na queda, permanece o tempo todo atenta às manobras do entrevistador para descontrair o papo. A brincadeira na foto ao lado pode simbolizar as tentativas de uma declaração bombástica. Ivete disse que, ainda garota, sabia ter uma atitude firme, mais masculina do que feminina, e que isso assustava os pretendentes a namoradinho na escola. Isso até pode acontecer com alguns, mas é muito difícil um homem não se render a um mulherão de 1,75 metro, um rosto lindo e uma voz firme, sim, mas belíssima."

Fazer parte da conquista do pentacampeonato da seleção

   "Apesar da bagunça, todos foram muito gentis comigo. Eu estava lá de tiete deles, mas eles também diziam que eram meus fãs. Eu paguei o mico de levar o Kaká até uma câmera para que ele mandasse um beijo para a minha sobrinha."

PLAYBOY
– Qual é a sensação de se tornar a musa do penta?
IVETE
– Ah, não exagera. Mas é uma loucura, sabe? Imagine, eu ter alguma participação nesse acontecimento histórico para o país, estar no meio dessa paixão total do povo. Quando vi as pessoas cantando Festa na chegada dos jogadores, senti que não tenho mais autoridade sobre a música, ela não me pertence mais. Agora é do povo.

PLAYBOY
– Como você reagiu quando soube que Felipão estava usando a música para motivar os jogadores?
IVETE
– Foi uma surpresa. Estava em Portugal, lá eu assisti a dois jogos do time. Pensei, puxa, eles estão bem, eles vão ganhar. Quando cheguei ao Brasil, meu irmão veio me pegar no aeroporto e disse: "Felipão agradeceu a você na TV ontem, por causa da música". Eu enlouqueci. Eu, torcedora, me senti fazendo parte daquilo. Veio o título, o penta, bicho! Eu me senti fazendo parte da história. E a música do Zeca, lógico, foi de uma importância fenomenal [junto com Festa, os jogadores da Seleção cantavam sempre Deixe a Vida Me Levar, de Zeca Pagodinho]. Eu também cantei muito a música dele na chegada dos jogadores.

PLAYBOY
– E a idéia de receber a delegação em Brasília?
IVETE
– A CBF me convidou, atendendo a um pedido dos jogadores. A primeira idéia deles era fazer uma festa, mas não poderia ser uma coisa fechada, né? O povo precisava ver os heróis. Aí eu pensei no palco mais brasileiro que existe no mundo, que é o trio elétrico. E foi tudo uma maravilha.

PLAYBOY
– Não houve uma saia-justa com o Corpo de Bombeiros de Brasília? Os jogadores já estavam subindo no caminhão deles quando o Edilson chamou todo mundo para o seu trio elétrico.
IVETE
– Os bombeiros foram de uma gentileza enorme, deixaram os jogadores à vontade. Eles perceberam a euforia dos jogadores com a música, era uma grande festa. Eu mandei beijos para os bombeiros, cantei para eles, tudo muito bacana.

PLAYBOY
– Você já conhecia os jogadores da Seleção?
IVETE
– A maioria. Tenho faz tempo uma camiseta da Inter de Milão autografada pelo Ronaldinho, é linda, eu adoro. Eu conhecia melhor os baianos da turma, Edilson, Vampeta, Dida. Os outros conheci em eventos, uma vez conversei muito com o Ronaldinho numa festa da MTV. Mas todos foram demais. Apesar da bagunça, todos foram muito gentis comigo. Eu estava lá de tiete deles, mas eles também diziam que eram meus fãs. Eu paguei o mico de levar o Kaká até uma câmera para que ele mandasse um beijo para a minha sobrinha. Ela adora o Kaká.

A vida de empresária

   "Quando comecei a trabalhar, tinha de sustentar a casa. O dinheiro que sobrava ficava com Jesus, meu irmão empreendedor. Ele transformava um real em dois reais. Eu não sabia como, o cara pegava aqui, jogava pra lá, aplicava ali."

PLAYBOY – Você ganhou dinheiro com a Banda Eva?
IVETE
– Eu guardei a minha grana, dentro do possível, nos seis anos de trabalho. Quando comecei a trabalhar, tinha de sustentar a casa. Tinha dez condomínios atrasados, eu pegando empréstimo com os caras e pagando com trabalho. Tinha os compromissos com a minha mãe, porque os pais da gente num determinado momento da vida viram filhos, né? O dinheiro que sobrava ficava com Jesus, meu irmão empreendedor. Ele transformava um real em dois reais. Eu não sabia como, o cara pegava aqui, jogava pra lá, aplicava ali.

PLAYBOY – E esse dinheiro você gastou para deslanchar sua carreira?
IVETE
– Sim. Eu pensei: vou começar direito. O que eu quero? Uma banda bala, a minha banda. Chamei os músicos que eu queria e ofereci uma agenda recheada de shows, com o cenário que eu queria, a luz que eu queria, compramos um trio elétrico, fizemos dele um trio elétrico de ponta, tanto que hoje na Bahia eles são uma atração por causa desse, que eu transformei em um objeto de desejo. Ivete Sangalo e seu trio elétrico. A qualidade do trio foi confirmada na prática. Todas as deficiências que eu vi nos trios durante os seis anos de carreira eu tirei desse, eu aperfeiçoei.

PLAYBOY – Você tem uma fábrica de trios elétricos?
IVETE
– Gilberto Gil fez um projeto para tocar, convidou Moraes [Moreira], eles fizeram o trio Chame Gente, que depois virou o Expresso 2222. Sou amiga de Gil, da família dele, Flora, os meninos. Bem, ele viu meu trio elétrico, na inauguração da minha produtora. Gil pirou: "Eu quero um negócio desses também". Então vamos fazer. Nós fizemos uma empresa para fazer o trio e também administrar a saída. Moraes usou no Carnaval e depois a gente alugava para outras festas, os Carnavais fora de hora pelo Brasil. Outros pedidos chegaram e a coisa foi crescendo.

PLAYBOY – Por que seu trio é melhor?
IVETE
– Antes havia uma preocupação com o som do trio, todo artista quer um som bom, mas eu me preocupei com o espaço físico do trio, em fazer um camarim com frigobar, microondas, espelho, chuveiro, tudo o que eu sempre quis. A gente soube aproveitar o espaço. Eu toco com uma big band, e, pra todo mundo ficar lá confortavelmente, a gente soube fazer a coisa. As pessoas nos procuram para fazer os trios. A cada ano avançamos na parte tecnológica.

PLAYBOY – Qual foi a inspiração para desenvolver os trios?
IVETE
– Nenhuma, porque é algo que só existe aqui, não há como comparar com outros. O que a gente fez foi pensar nos problemas e no que poderia ser melhorado.

PLAYBOY – Você interrompeu suas férias para dar entrevista. Suas primeiras férias em muito tempo, não?
IVETE
– Agora, neste momento da minha carreira, eu tenho o controle para fazer isso, ficar um período sem fazer nada. Foi uma coisa que eu conquistei. Uma coisa que eu não tinha na época da Banda Eva e que não pude ter nos dois primeiros anos da minha carreira solo, eu precisava me firmar como cantora, sozinha. Foi exaustivo, uma loucura. Nessa época eu encostava numa parede e dormia, às vezes no chão. Eu aprendi a dormir em qualquer lugar. Agora não há mais aquela busca de fazer o trabalho ser notado. Eu posso planejar a minha agenda com um ano de antecedência, só mudo uma coisa aqui e outra ali. Agora eu pude tirar dois meses de férias.

PLAYBOY – Você já deixou de cantar em algum carnaval?
IVETE
– Não, e isso nunca vai acontecer. Eu digo, me tirem tudo, menos o carnaval de Salvador. Eu nasci em Juazeiro, fui morar em Salvador, sou baianona. Quando você está ali, fazendo sua música pra todas aquelas pessoas, uma coisa inusitada, porque não existe em nenhum outro lugar do mundo uma manifestação popular daquele tamanho, o som ensurdecedor, isso não existe, não posso perder a oportunidade de participar. Você está lá em cima e vê a história do carnaval na cara das pessoas. É uma mistura muito grande.

O início da carreira, na Banda Eva

   "Teve mês em que eu fiz 24 shows, às vezes não almoçava direito, saía direto do ônibus pro palco e dali pro hospital, com estafa. Eu no soro, o médico me empurrando pra deitar na cama, e eu querendo levantar, workaholic total."

PLAYBOY – Você jogava bola com seus irmãos e hoje eles trabalham com você ou estão sempre por perto. Em time que está ganhando não se mexe?
IVETE
– Minha família sempre foi unida pra tudo. Eu tocava violão em casa, sempre toquei, todos os meus irmãos tocam. Tudo o que os cantores costumam aprender na noite eu aprendi em casa, tocando, fazendo seresta. Eu e meu irmão Ricardo, a gente deixava de ver TV para ir ao quarto dele e tocar. A gente abria mão de qualquer programa para ficar tocando. Havia o quarto dos meninos e o quarto das meninas, éramos muitos filhos, três homens e três mulheres. Só a mais velha tinha seu quarto, ela era a estourada na casa, tinha o camarim dela.

PLAYBOY – Qual era o repertório familiar?
IVETE
– Ricardo tocava as músicas de João Bosco, de quem era fã. Jesus, meu outro irmão, gostava de Xangai e Geraldo Azevedo, Alceu, Moraes, eu cantava essas com ele. Monica introduziu Djavan e Stevie Wonder na minha vida. Como eu sou a caçula, ouvia de tudo, foi um aprendizado que não extraí da noite, foi dentro de casa mesmo, nesse convívio.

PLAYBOY – Você estudou música?
IVETE
– Não. Eu fiz vestibular para administração e secretariado executivo. E passei.

PLAYBOY – Chegou a cursar?
IVETE
– Eu freqüentei, mas não deu para segurar essa peteca, não. A gente precisava de grana em casa, logo depois que meu pai morreu. A gente tinha uma vida muito boa, mas era assim: meu pai ganhava dez e gastava dez. Ele era imediatista, e eu achava bacanérrimo. Acho que era a coisa certa. A gente tem que se virar. Enquanto esteve vivo ele protegeu os filhos e a vida foi boa. Ele morreu, a gente passou um tempo sobrevivendo do que ele tinha deixado, mas começou a acabar.

PLAYBOY – Você foi trabalhar com seus irmãos?
IVETE
– Sim. Os mais velhos tinham o hábito de trabalhar com meu pai, eram autônomos. Dei aula de matemática, eu tenho na minha cabeça que foi uma época muito confusa da nossa vida. Me lembro que a gente passou a fazer quentinhas, minha mãe ia fazendo a comida e a gente saía vendendo. Como a quentinha não segurava a onda, eu comecei a tocar e cantar na noite. Mas era tão prazeroso para mim que muitas vezes nem tinha cachê.

PLAYBOY – E você logo chamou a atenção cantando?
IVETE
– Numa dessas loucuras minhas de tocar, tive a oportunidade de me inscrever no Troféu Caymmi. Eu conheci o músico Jonga, que era percussionista e um dos donos do Bloco Eva. Fizemos um show no Troféu Caymmi e eu ganhei como melhor intérprete, revelação do ano de 1992. Aí fiz um roteiro de bares alternativos e todos lotaram, foi um marco na minha carreira. Um êxito de público. Numa dessas, fui convidada para entrar na Banda Eva.

PLAYBOY – A banda já existia?
IVETE
– Tinha o bloco, que era um sucesso, já tinha 13 anos de vida. A banda tinha existido por dois meses, com Ricardo Chaves no vocal e Daniela Mercury fazendo backing vocals.

PLAYBOY – E como você entrou?
IVETE
– Anos depois, reeditaram a banda. Agarrei a oportunidade. Nos dois primeiros anos, os meninos, donos do bloco, solicitavam a inclusão de algumas músicas e eu dava os meus palpites. No início, eles se envolveram nos shows. Depois, eu tomei pra mim.

PLAYBOY – Você passou a dirigir os shows, tão nova assim?
IVETE
– Eu pensei, bicho, já que eu vou assinar debaixo disso, deixa eu tomar pra mim. Cuidava de figurino, repertório, arranjos, eu troquei até músico. Eu lembro que saiu um baterista, entrou outro, tudo sob minha responsabilidade. Antes eu tinha uma obediência, depois fui percebendo que fazia parte daquilo e vi que poderia ser a cabeça. Foi um aprendizado.

PLAYBOY – Mas quem comandava tudo ainda eram os donos do bloco?
IVETE
– Eles só se preocupavam com a agenda de shows. O sucesso veio e existiram uns equívocos de agenda, era uma coisa imediatista, não havia um pensamento a longo prazo. Teve mês em que eu fiz 24 shows, às vezes não almoçava direito, saía direto do ônibus pro palco e dali pro hospital, com estafa. Imagine, dentro do hospital, eu preocupada porque tinha show em Natal, show não sei onde. Eu no soro, o médico me empurrando pra deitar na cama, e eu querendo levantar, workaholic total. Foi uma entrega total, muitas vezes eu me anulei por causa daquele projeto. Mas eu sabia que tinha que construir um lance pra mim. Fui montando minha produtora, coloquei meus irmãos pra trabalhar, ninguém tinha know-how de nada, eu que dava todas as idéias.

PLAYBOY – Montou a produtora antes de sair da banda?
IVETE
– Sim. Eu cumpri os compromissos com a Banda Eva e avisei, esse ano eu vou sair da banda. E fizemos um último carnaval lindo. Claro que houve tristeza, vivi seis anos de história com ela, tive saudade, mas acabei trazendo os músicos que eram meus amigos e que achava que tinham a ver com o meu trabalho.

Ivete fora dos palcos

   "Adoro tocar violão, adoro tocar percussão, bateria, essas coisas. Quando eu tenho tempo faço isso. Sou louca por cinema. [Ela se entusiasma, levanta o tom de voz.] Vejo cinco ou seis filmes num dia, sem sair do quarto. Só desço para pegar pipoca."

PLAYBOY – Você foi uma adolescente muito paquerada? Deve ter sido sempre uma das mais altas da turma...
IVETE
– Tive várias etapas. Hoje as meninas namoram muito cedo, com 12, 13 anos já beijam na boca. Eu não. Com 12 anos, nem pensava. Tinha as minhas paixões, alguém na escola, amigos dos meus irmãos, mas era só na imaginação. Não como as meninas de hoje, que só pensam nisso. Eu brincava, jogava bola. Sabe essa brincadeira de elástico, de pular com o elástico esticado nas pernas? Brinquei disso até os 15 anos. Nessa pré-adolescência eu não me lembro de me sentir feia ou bonita. Eu me lembro da menina mais bonita da sala, que não era eu, mas isso não me afetava, não era uma coisa só minha, todas sabiam que ela era a mais bonita do colégio.

PLAYBOY – E namorar de verdade, quando rolou?
IVETE
– Com 15 anos eu comecei a namorar, já grande. Namorico besta, de porta de casa. Era meu vizinho. Eu andava de skate com ele. Chegava da escola, assobiava, ele descia e a gente ficava na porta do prédio. A gente mal se beijava. Era só aquela coisa de saber que ele era meu namorado e eu a namorada dele. Eu sempre fui assim, minha voz sempre foi grossa, eu sou mais masculina do que feminina na atitude, quando eu queria falar sério eu empostava mais a voz. Aí, com 16 anos, eu era alta, grande, tinha interesses na escola, mas não namorava. Eu nunca namorei na escola. Eu comecei a perceber que estava sendo notada com 17 anos. Eu ouvia, "fulano está a fim de você". Mas geralmente eu é que estava a fim de alguém. Aí, depois dos 18 anos, veio mesmo a paquera.

PLAYBOY – E como você reage quando está apaixonada? É ciumenta?
IVETE
– Acho que a cada idade você se apaixona de um jeito diferente. Hoje a minha paixão está mais ligada à compreensão e à admiração. Quando temos 18 anos, a gente se apaixona pelo belo, pelo que está na moda. Largar tudo por uma paixão? Eu não vou largar nada, quero tudo. Sabe, falando de ciúme, eu tenho irmãos ciumentíssimos. Meu irmão que morreu, esse era demais. Eu chegava a sair com uma mão dada com meu namorado e outra dada com ele, o maior mico que eu já paguei. Eu achava normal, só tinha aqueles irmãos mesmo, achava que era coisa de irmão.

PLAYBOY – Você teve namorados famosos, parece ter um bom relacionamento com seus ex. Por que não está disposta a falar nem deles nem da pessoa que você está namorando agora, Davi Moraes? [Apesar da insistência, Ivete não quis dar declaração sobre os ex-namorados e se mostrou acanhada todas as vezes que o assunto era Davi, que chegou a aparecer na sala durante a entrevista para cumprimentar a todos.]
IVETE
– O respeito com qualquer pessoa tem que existir, principalmente com aquelas que conviveram ou convivem com você. No coração da gente cabem vários amores, vários carinhos. Minha vida é muito vasculhada e muitas atitudes são tomadas em meu nome, sem que eu participe daquilo. Como eu posso condenar essas figuras que dizem "ela casou, descasou, comprou tal carro, comprou casa" e tal, se muita coisa a meu respeito, como namoros e términos de namoro, eu nem sabia que estavam acontecendo? Como posso condenar ou dar importância?

PLAYBOY – Você tem raiva de quem inventa essas coisas?
IVETE
– Acho que essas pessoas que criam uma vida paralela para mim não têm a mínima importância. Minha vida pessoal é minha, compete a mim estar feliz com essa vida. Eu não tenho controle sobre o que as pessoas dizem de mim, e nunca vou ter. Da mesma forma que eu não controlo o rapaz maldoso que diz na TV que eu fiz isso ou aquilo, eu também não controlo aquela família simpática lá em Mossoró, no Rio Grande do Norte, que acha que eu sou uma pessoa maravilhosa. Por isso, há uma opinião já estabelecida sobre você.

PLAYBOY – E você não gostaria de falar sobre você para mudar essa opinião?
IVETE
– Eu não me importo. Eu sou uma pessoa totalmente dentro dos padrões, mas não tenho preocupação em demonstrar isso. Minha vida está longe de ser uma confusão pessoal, está muito bem resolvida. Sou família demais, sou baiana, nasci em Juazeiro, tive pai e mãe casados até ele morrer, muitos irmãos, sou amiga deles, todos têm família. Como eu nunca quis construir uma imagem, o interesse do público deve ser pela minha música, eu nunca tentei reverter o que as pessoas acham de mim e corro sempre o risco de elas tirarem suas próprias conclusões. Nunca vou discutir isso, não me importo.

PLAYBOY – Onde você fica quando está no Rio?
IVETE
– [Ela demora a responder.] Fico na casa de Davi. [Mais uma vez, ela expressa uma timidez quase juvenil, desviando o olhar do entrevistador.] A tendência é eu comprar um apartamento no Rio. Estou cheia de hotel, estou cheia de set up de hotel, sabe? Os quartos sempre do mesmo jeito.

PLAYBOY – Você quer casar na igreja? Quer ter filhos?
IVETE
– Filhos, certamente. Eu acho bacana. É preciso ter um ambiente saudável para você ter um filho, daí a importância do seu marido, da pessoa que está com você. Tenho vontade de casar, sim. Eu sou muito religiosa.

PLAYBOY – É católica?
IVETE
– Não sou assídua, de ir todos os dias à igreja. Eu rezo todos os dias, tenho consciência de que meus pais, meus irmãos continuam a ter importância diariamente na minha vida. Pode ser uma tendência espírita. Sou católica de batismo, mas eu acredito muito nas energias positivas. O meu Deus é o que me dá força. Acho lindo o sincretismo baiano, essa boa relação entre as religiões, tão bonita e tão explícita. Muito respeito mútuo, sabe? Eu sempre penso que tive sorte de nascer na Bahia.

PLAYBOY – O que você gosta de fazer quando não está trabalhando?
IVETE
– Faxina. [A resposta vem rápida, espontânea, e ela cai na risada.] É, a faxina da casa. Eu descobri isso há pouco tempo, sabia? Na verdade, sou capaz de gostar de qualquer coisa. Saio, vou à casa do meu irmão e ele está pintando a parede, eu entro nessa, acho divertido. Se você se diverte, não tem uma fórmula. Vamos comer um peixe? Vamos. Vamos para a praia? Eu adoro, bem no verãozão, quando está aquele sol que acaba com o juízo da pessoa. Eu sou pau pra toda obra.

PLAYBOY – Consegue pensar em algo que goste de fazer, mas menos trabalhoso do que limpar a casa ou pintar paredes?
IVETE
– Tenho meus cachorros, que eu adoro. São quatro labradores, comecei com um, já são quatro. Eu boto um short e um chinelo e vou para a rua com eles. Quer dizer, no condomínio onde eu moro. E lá vou eu com aquela renca de cachorros. Adoro tocar violão, adoro tocar percussão, bateria, essas coisas. Quando eu tenho tempo faço isso. Sou louca por cinema. [Ela se entusiasma, levanta o tom de voz.] Vejo cinco ou seis filmes num dia, sem sair do quarto. Só desço para pegar pipoca.

PLAYBOY – Que tipo de filme gosta de ver?
IVETE
– Vou falar do que não gosto. Van Damme, Steven Segal, esse povo, isso eu não curto muito. Às vezes vejo no ônibus, quando estou em turnê. Sabe como é, você está com a banda, eles gostam, são muitas cabeças. Então a gente vê um romance, depois um filme de luta, outro de guerra. Gosto de tudo, o que menos gosto são esses de luta. Eu adoro Woody Allen, vi agora Poucas e Boas, com o Sean Penn, quase morri de rir. Eu tenho uma queda por romance, mas quando vale a pena. Acabei de ver Pearl Harbor, acho que o que destruiu o filme foi a melança daquele romance, que não tem nada a ver. O final é horroroso. Não entendo como uma superprodução daquelas se perde com algo tão pequeno. Eu choro, me emociono, mas eu sou muito crítica. Eu vejo um filme e sei se o ator é bom, se o roteiro é bom.

PLAYBOY – E como foi se ver na tela em 1998, no filme Simão, o Fantasma Trapalhão, de Renato Aragão?
IVETE
– Um desastre. Eu fui com minha mãe, minha irmã e minhas sobrinhas. Fomos lá no cine Iguatemi, em Salvador. Minha mãe disse: "Vixe! Você tá grandona!" É impactante demais. Eu tomei um gosto por cinema depois daquilo. Eu já tinha paixão. Meu sonho é atuar em cinema. Mas queria trabalhar com bons temas. Eu acho que a realidade brasileira é sempre muito regionalizada nos filmes. Bicho de Sete Cabeças eu achei bacanérrimo, e é um tema que o mundo inteiro vê, a influência da droga na vida do adolescente. Vi Central do Brasil e Eu, Tu, Eles, adorei, fiquei presa ao filme. Mas eu não faria algo assim, um tema tão regional. Queria um tema mundial. A minha atuação com Renato foi algo para as crianças, usando minha figura de cantora. Renato é uma figura boníssima, um cara feliz e realizado que transborda isso para as outras pessoas. Eu gostei mais da minha atuação em Brava Gente, na TV, mas o que eu gostaria mesmo é de passar quatro meses fazendo um filme.

PLAYBOY – Você consegue ir ao cinema numa boa?
IVETE
– Sim, eu faço de tudo. Não deixo de fazer nada. Eu continuo indo nos mesmos lugares que freqüentava antes da fama. Sou muito assediada e me dou bem. Quer autógrafo, quer foto? Tudo bem, pode vir. Quando a coisa fica excessiva, eu digo, "Peraí, rapaziada. [Faz um gesto impositivo com os braços longos, um movimento que deve mesmo impôr respeito.] Deixe eu comer primeiro, depois eu tiro foto". Eu sou acessível e acho que isso faz parte da minha personalidade. Vou, sim, ao cinema, numa boa.

(© Playboy)

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