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23/09/2002
Marco Antonio Barbosa
A pauta de exportações do Maranhão não se limita
a ex-candidatas à presidência da República; desde o surgimento de Zeca Baleiro, em
1995, o estado nordestino tem sido observado mais atentamente por quem busca renovação
no panorama da MPB. Essa atenção se viu redobrada há pouco, com o lançamento quase
simultâneo de dois discos que levantam a suspeita de que o Maranhão ainda tem lenha
(musical) para queimar. Mais evidente foi o ressurgimento do já citado Baleiro, com seu
quarto trabalho, Pet Shop Mundo Cão. Menos óbvio, igualmente porém digno de
nota, é o despontar de Mano Borges, que com seu Passagem Franca Pra Caro Custou
arrisca-se na seara da nova MPB com a benção do próprio Zeca. Ambos os discos têm
lançamento do selo MZA (distribuído pela Abril Music), administrado por Marco Mazzola -,
por sinal, responsável também por lançar a conterrânea (de Zeca e de Mano) Rita
Ribeiro.
Visto por boa parte da crítica (e do público "antenadinho") como
ponta-de-lança da nova MPB, Zeca Baleiro já começa a conversa rejeitando o título.
"Sempre vi com desconfiança essa coisa de estar entre os 'queridinhos', de ficar
entre os melhores, os maiores. Nem sequer me considero parte da MPB. A música que tem se
feito aqui no Brasil nos últimos anos é muito mais diversa do que aquilo que se
convencionou como MPB", fala o maranhense. Sua contundência no discurso espelha-se
no clima de Pet Shop Mundo Cão, sem dúvida seu disco mais ácido e sardônico.
"Tem a ver com a canseira que venho sentindo em relação ao mundo. Isso me dá um
certo ar de mau-humor. Mas nada foi pensado, premeditado, por mais que as pessoas acabem
achando isso. O disco sempre ganha vida própria e também aconteceu com Pet Shop",
reflete o cantor.
As letras, afiadas, falam desse cansaço que Zeca vem sentindo. Que pode se
refletir no isolamento de Minha Tribo Sou Eu, no clamor "socialista" de Eu
Despedi o Meu Patrão e no desencanto de Meu Nome É Nelson Rodrigues
("Sou do tempo em que até os canalhas choravam", diz Zeca na faixa, que encerra
o disco). "Estou mais cético, inconformado com o mundo", fala o cantor.
"Fico preocupado com o futuro, com o mundo que meus filhos terão. Mas, como digo no
encarte do CD, não passa pela minha cabeça morrer tão cedo. Então, no fim, o disco
não é tão negativo assim."
Musicalmente, Zeca Baleiro aprofunda a estratégia de atirar em múltiplos
alvos. "Não queria que o disco ficasse assim. Pensei em fazer um trabalho mais
coeso, homogêneo. Ainda vejo isso nas canções, uma mesma alma que as liga", fala o
compositor. Entretanto, a produção a oito mãos (Ramiro Musotto, Érico Theobaldo,
Jongui e o próprio autor) acabou guiando Pet Shop a paragens inesperadas. Tem
samba, nordestinidade, pop-rock, reggae, rap, música eletrônica e até brega no
caldeirão. "Tudo foi feito a muitas mãos, cheio de interferências, e mesmo o
trabalho final dos produtores acabou divergindo para lados quase opostos", conta
Zeca, que além disso ainda trouxe para o estúdio nomes como Elba Ramalho, Totonho,
Carlos Dafé, o grupo Karnak e o mítico mutante Arnaldo Baptista. "Usar a
eletrônica sempre foi uma idéia que me norteou. Entretanto, não queria perder a
característica de ser um compositor de verdade, baseado em letras e melodias, sem me
perder em afetações experimentais", resume Zeca.
O Mano desgarrado faz coro
Mano Borges, que conta com Zeca Baleiro participando
da música Os Nós em seu CD Passagem Franca pra Caro Custou, tem uma
trajetória que poderia, sem muito esforço, ser comparada à do conterrâneo. Assim como
Zeca, Mano construiu uma sólida carreira fora do eixo RJ-SP e apenas agora - depois de
lançar quatro CDs independentes - surge na mídia como "nova revelação". Ele
afirma que tudo se deu no devido tempo. "O mais importante era chegar ao mercado com
uma personalidade formada. Hoje, sei que encontrei minha identidade, que pode até não
ser diferente, mas tem uma assinatura própria", afirma o maranhense.
Em 2000, ao ser escolhido pela imprensa musical de São Luís como
"melhor compositor do ano" e vender quatro mil CDs de Lera, seu disco
anterior, Mano despertou a atenção do produtor Marco Mazzola. O lançamento de Passagem
Franca... coroou uma carreira que começou em 1983 (como músico de apoio no grupo Asa
do Maranhão) e virou solo em 1990. "É muito gratificante ver que um produtor como
Mazzola aposta em pessoas que poderiam passar a vida toda despercebidas nos grandes
centros. Foi assim com Chico César, Rita Ribeiro... Até pouco tempo, eu sequer imaginava
tocar fora do Maranhão. Ele me fez acreditar que o Brasil pode receber bem meu
trabalho", diz Mano. Antes de Mazzola, Rita Ribeiro e Leci Brandão já haviam
prestigiado as composições de Mano, gravando respectivamente Essa Dona e Lua
Diamantes.
Compositor compulsivo, Mano conta que trabalhou duro para chegar ao
repertório de seu novo álbum. "Quando houve o convite para gravar, resolvi utilizar
o material mais recente e inédito. Chamei meu parceiro mais constante, Alê Borges, nos
trancamos num casarão em São Luís e começamos a compor. Todo dia trabalhávamos e o
resultado foi que, em três meses, tínhamos feito 80 canções!", relata Mano. Do
disco anterior foram regravadas quatro músicas (Bangladesh, com participação da
carioca Renata Holly, Os Nós, com Zeca Baleiro, Dia Sete e Você É Tudo,
a música de trabalho). "Essas músicas soam como inéditas, pois só foram
consumidas mesmo no Maranhão", justifica. O disco traz também Medo de Avião
(Belchior) e Maranhão, Meu Tesouro, Meu Torrão (Humberto Maracanã). "Maranhão
é uma toada de bumba-meu-boi. Coloquei recursos eletrônicos, mas de forma a não ferir a
coisa folclórica. Com isso, quero mostrar que tudo pode ser pop, universal",
detalha. Colaborou Mônica Loureiro
(© CliqueMusic.com.br)
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(arquivo NordesteWeb)
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