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Cinema: de filho para pai

23/09/2002

Glauber Rocha, em foto feita em Havana, onde o cineasta viveu por um ano durante a década de 70

Filho de Glauber Rocha faz registro da estada do pai em Cuba nos anos 70

JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA

   Houve um tempo -de meados dos anos 60 a meados dos 70- em que os mais importantes cineastas da América Latina acreditavam na união dos povos do continente contra o imperialismo norte-americano. Mais que isso: eles viam o cinema como um instrumento privilegiado dessa união revolucionária.

   O documentário "Rocha que Voa" trata justamente desse momento de convulsão e de seu principal pensador e agitador, Glauber Rocha (1939-81), cineasta baiano e cidadão do Terceiro Mundo.

   "Não é um filme sobre Glauber, mas através de Glauber", define o diretor do documentário, Eryk Rocha, 24, filho mais novo do criador de "Deus e o Diabo na Terra do Sol".

   Eryk tinha três anos quando o pai morreu. Fascinado por Cuba e por cinema desde a infância, acabou indo estudar na célebre escola de cinema de San Antonio de los Baños, entre 1997 e 1999.

   Na ilha de Fidel Castro, Eryk rastreou a temporada passada ali por seu pai, entre novembro de 1971 e dezembro de 1972. O documentário é o resultado dessa busca, em que Eryk recuperou entrevistas do próprio Glauber e ouviu pessoas que conviveram com ele em Havana.

   A partir desses depoimentos, constata-se que a passagem de Glauber Rocha pela ilha foi uma verdadeira revolução dentro da revolução, tendo deixado marcas profundas nos "habaneros".

   No auge de suas inquietações estéticas e políticas, o cineasta baiano filmou, agitou e polemizou como nunca em Cuba.

   "As pessoas aqui no Brasil sabem pouco sobre essa passagem", diz Eryk. "Por meio da pesquisa, cheguei a outros temas que me interessavam: as buscas ideológicas daquela geração, a idéia de Havana como uma cidade parada no tempo etc."

   Junto com seus colegas de curso Bruno Vasconcelos (brasileiro que colaborou na pesquisa e no roteiro) e Miguel Vassilskis (uruguaio que fez a direção de fotografia e câmera), Eryk compôs um painel multifacetado desses assuntos, tendo como fio condutor o áudio de três grandes entrevistas de Glauber, nas quais o cineasta, num delicioso portunhol com sotaque baiano, expõe suas idéias sobre arte e revolução.

   Os depoimentos de Glauber e dos outros combinam-se com imagens documentais de Cuba, cinejornais, trechos de filmes de Glauber e de outros diretores etc.

   "Eu quis criar uma ponte entre o imaginário da época e a atualidade ", diz Eryk Rocha. Vários formatos e texturas (vídeo, 16mm, 35mm, preto-e-branco, cor saturada) se misturam no filme, que Eryk define como "uma sinfonia sensorial e poética".

   Segundo o diretor, "Rocha que Voa" estrutura-se em três grandes dimensões sobrepostas: a política, o sonho e o amor (centrado no depoimento da namorada cubana de Glauber, Teresa Sopeña).

   "As diversas texturas da imagem estão ali para traduzir os diversos níveis de memória: a minha memória afetiva, a memória cinematográfica, a memória coletiva latino-americana etc."

   Segundo o diretor, sua intenção não foi a de filmar o passado, mas sim fertilizar as discussões atuais sobre arte e vida. Em sua última fala no filme, Glauber diz: "Não quero saber do passado. Estou brincando com esta criança e pensando no presente e no futuro". A criança era Eryk Rocha.

(© Folha de S. Paulo)

"ROCHA QUE VOA"

Documentário sobre a passagem de Glauber Rocha por Cuba estréia hoje nos cinemas de São Paulo

Produção recupera inquietação do diretor

DO COLUNISTA DA FOLHA

   De tempos em tempos, surge alguém no Brasil disposto a "enterrar definitivamente Glauber Rocha" -como se pudéssemos nos dar ao luxo de descartar sumariamente um dos grandes artistas que o país deu ao mundo no século 20.

   Fazendo o caminho inverso, Eryk Rocha, filho do dito, mostra que o cinema e as idéias de seu pai ainda são capazes de alimentar nossa sensibilidade e adensar as discussões estéticas e políticas contemporâneas.

   Um dos aspectos mais interessantes do documentário "Rocha que Voa", a par da riqueza de informações que traz a respeito do cinema revolucionário da América Latina, é o fato de buscar um diálogo entre formas atuais de experimentação audiovisual e a inquietação estética de Glauber.

   Com uma gana verdadeiramente juvenil, Eryk Rocha usa e abusa das sobreposições de planos, dos recursos gráficos, do descompasso entre imagem e som, das distorções de cores e de ritmo propiciadas pela tecnologia eletrônica, com um claro intuito de multiplicar possibilidades de leitura e intensificar a expressão.

   A informação fica em segundo plano, preterida por uma organização poética do material. Em alguns momentos, essa opção -que leva a imagem a ultrapassar as fronteiras entre o figurativo e o abstrato- quase resvala para a confusão pura e simples.

   Na maior parte do tempo, porém, prevalece uma compreensão profunda da vocação sintética, impura e ambígua do discurso cinematográfico -algo que, em sua maioria, os documentários atuais parecem ter perdido.

   Nesse concerto vivamente caótico, sobressaem algumas linhas de força, para além do discurso revolucionário terceiro-mundista de Glauber: a ligação profunda e subterrânea entre a cultura afro-cubana e a cultura baiana, a vontade generalizada de reinventar o mundo a partir de uma idéia romântica de revolução.

   De particular interesse é a aproximação entre Glauber Rocha e a documentarista Sara Gomez, pioneira do cinema feito por mulheres em Cuba. Eryk Rocha prepara um documentário sobre ela.

   "Rocha que Voa" muda de tom, tornando-se mais lento e intimista, no bloco final, centrado na bela figura de Teresa Sopeña, a namorada cubana de Glauber. Há nesse trecho uma certa pacificação estética (em contraste com o caos plástico-cromático precedente), com a adoção de um preto-e-branco granulado, impregnado de afeto e nostalgia. Como se passássemos de Godard a Truffaut.

   Cabe destacar também a opção de Eryk Rocha de praticamente não usar imagens de Glauber em movimento. A justificativa do documentarista é a de fidelidade a sua própria memória do pai, construída a partir de fotos e de lembranças vagas e impalpáveis (o que justifica, por sua vez, o recurso às imagens borradas).

   Em outro momento comovente, a montadora cubana Miriam Tavalera, colaboradora na construção de "História do Brasil", relata que Glauber lhe disse: "A história do Brasil não existe. Vamos escrevê-la agora, você e eu". É essa energia delirante e fundadora que Glauber, 20 anos depois de sua morte, ainda consegue nos infundir. (JOSÉ GERALDO COUTO)

(© Folha de S. Paulo)

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