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23/09/2002
Ariano
Suassuna, Lourival Holanda e Luzilá Gonçalves estão entre os ensaístas de O Clarim e a
Oração
por SCHNEIDER CARPEGGIANI
Reza a lenda que em dezembro deste ano Ariano
Suassuna coloca o ponto final no sucessor de A Pedra do Reino (1971).
Supersticioso, ele não nega nem confirma a história, apenas afirma que gostaria de
acabar seu novo romance no mesmo mês que é comemorado o centenário de Os Sertões, de
Euclides da Cunha, um dos clássicos da literatura brasileira, que retratou o Brasil
tentando negar as perspectivas mestiça, fanática e miserável do seu reflexo no espelho,
como um Narciso às avessas.
Ariano colabora com artigo inédito para O Clarim e a
Oração (Geração Editorial, R$ 58), coletânea de textos organizada por Rinaldo
Fernandes, professor de Teoria da Literatura da Universidade Federal da Paraíba, que
analisa e, melhor, atualiza o livro de Euclides.
Na sua colaboração para a coletânea, Ariano
esclarece sua ligação com o trabalho do escritor fluminense: Euclydes (Ariano
prefere a grafia com y) da Cunha (...) procurou assinalar aqueles dois países
diferentes por meio de dois emblemas: via o Brasil oficial da Rua do Ouvidor, centro da
nossa cultura urbana, falsificada, de segunda mão e com pretensões a cosmopolita, e o
Brasil real, no emblema bruto e poderoso do Sertão. Eu, influenciado por Euclydes da
Cunha, passei muito tempo dominado por visão semelhante. Até que, depois de alguns duros
exames de consciência, descobri que, para ser fiel ao mestre, eu não deveria
repeti-lo.
O melhor de O Clarim e a Oração foi a
opção do seu organizador em misturar análise social, literária e literatura
propriamente dita. Isso alarga as dimensões de se pensar a atualidade e o fôlego de Os
Sertões 100 anos depois. O próprio livro de Euclides da Cunha traz uma leitura
caleidoscópica por si só: pode ser lido como um romance, uma grande reportagem ou um
tratado sociológico. Ou como os três, ao mesmo tempo.
PLURAL O Clarim e a Oração traz
um time especial de nomes do jornalismo, da literatura, da poesia, da história, da
sociologia, da crítica literária e da semiótica. Apesar da idéia inicial do
organizador, nem todas as colaborações do livro são inéditas. O texto O legado do
Conselheiro: cem anos depois, Canudos é uma ferida e um emblema do Brasil, de Roberto
Pombeu de Toledo, por exemplo, já foi publicado na Revista Veja, e traz uma das melhores
descrições da figura de Antônio Conselheiro:
Vestia um camisolão azul, sem cintura. Tinha
cabelos longos como Jesus, e barbas longas. Nos pés calçava sandálias (...) Nas mãos
levava um cajado, como os profetas, os santos, os guiadores de gente, os escolhidos, os
que sabem o caminho do céu.
Os professores do Departamento de Letras da UFPE,
Lourival Holanda e Luzilá Gonçalves Ferreira, trazem textos que, respectivamente,
atualizam e desvendam aspectos curiosos de Os Sertões. Lourival afirma que a
atualização do texto de Euclides coloca à prova o imaginário político para
buscar novos modelos de convivência e de responsabilidade social a partir das letras.
Luzilá tenta enxergar a quase nula presença
feminina no livro para encontrar personagens femininas no texto euclidiano,
urge uma leitura paciente e atenta, nas linhas e entrelinhas, que se debruce, aqui e ali,
sobre os pequenos detalhes, escreveu a professora, sugerindo que o leitor se
entregue à tarefa de desvendar o texto euclidiano.
(© Jornal do Commercio)
BIENAL DO
LIVRO
As penúltimas do Ariano
O patrono
da V Bienal do Livro não se aquieta. Enquanto escreve outra obra-prima, o romance que
recriará A Pedra do Reino, seus textos de teatro vêm ganhando reedição
primorosa da José Olympio Editora, pesquisadores abordam sua arte e ele ganha um perfil
irretocável na revista Continente, do Recife
No dia 16 de junho, o solar armorial da rua do Chacon era quase todo um burburinho de
filhos, netos, irmãos, cunhados e alguns amigos reunidos para comemorar os 75 anos de
Ariano Suassuna. Quase caçula dos nove rebentos de dona Ritinha e de João Suassuna,
Ariano nasceu no Palácio do Governo da Paraíba, ao tempo em que seu pai era o presidente
da província. Dos primeiros três anos de vida, ele guarda na memória uma tarde à beira
do rio Piranhas, na antiquíssima fazenda Acauã, cidade de Sousa, em companhia do pai.
Em 9 de outubro de 1930, o então deputado federal João Suassuna era
assassinado covardemente, à traição, no Rio de Janeiro, capital federal, fechando o
conturbado ano que trouxe outras mortes e muitas perseguições políticas. Dona Ritinha
preferiu se desfazer dos bens e criar os seus meninos ''como gente'', a vê-los na
tentativa perigosa de vingar o sangue paterno.
Da Paraíba ao Rio Grande do Norte, até fixar morada em Recife, a brava dona
Ritinha comandou suas crias com mão de ferro e coração amoroso. Foi em Recife onde o
jovem Ariano deu asas à imaginação, inspirando-se nos cantadores de viola, nos
palhaços dos circos de periferia, nas artes mambembes do povo, aliando tudo e sem
contradições a uma longa carreira acadêmica, desde os tempos do curso de Direito e
Filosofia aos tantos anos como professor na Universidade Federal de Pernambuco.
O teatro o seduziu logo, tendo ele criado e apresentado com amigos de
Taperoá (PB) o espetáculo para teatro de bonecos Torturas de Um Coração,
para alegrar a mãe dona Ritinha e a amada Zélia, esposa e musa. Outros textos vieram,
antes ainda a poesia, linha mestra de todo o seu trabalho. Artes gráficas, gravura,
dança, teatro, música, literatura, tudo Ariano Suassuna somou para compor o Movimento
Armorial - a criação de uma arte erudita embasada na arte e cultura do povo do Nordeste
do Brasil e das planícies ásperas de Espanha e Portugal.
Um marco na obra de Ariano Suassuna foi a publicação do primeiro romance
armorial brasileiro, O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do
Vai-e-Volta, publicado em 1971, onde aparece, pela primeira vez, seu
personagem-símbolo, Pedro Diniz Ferreira-Quaderna. Ao longo dos últimos anos, as bases
do Armorial expandiram-se, vieram bater no Ceará, através da poesia de Virgílio Maia,
das artes de Côca e Audifax, e seduzem as novíssimas gerações. Ê, danisco!
(Eleuda de Carvalho)
ARIANO SUASSUNA, O CABREIRO TRESMALHADO
Maria Aparecida Lopes Nogueira bem
dizer mora quase vizinho a Ariano Suassuna. Mas não foi somente a proximidade física que
a fez se decidir por um tema colado ao mestre, ao pensar assunto para sua tese de
doutorado. Foi, principalmente, por reconhecer naquele senhor hierático, tão sério e
também tão jocoso, um dos maiores artistas brasileiros em todos os tempos. Vamos logo
tratar do título, este cabreiro que tanto significa desconfiado como também aquele que
toma conta das cabras. Pois Ariano cria cabras, sim senhor. Ao ganhar o Prêmio Nacional
de Ficção de 1972 pelo Romance d'A Pedra do Reino, aplicou o dinheiro na
compra de matrizes sertanejas, junto com o primo Manoelito Dantas. E toca a procurar
cabras nativas, pés-duras, adaptadas ao semi-árido, boas de leite. Quando a fazendinha
começou a dar os primeiros lucros, Ariano deixou o negócio nas mãos do primo. ''Minha
história só será entendida por uma pessoa para quem a palavra 'pedra' representasse
tudo o que significa para mim'', diz o mestre à autora, que captou o sentido profundo:
''Na aspereza do sertão pedregoso, irrompe o encanto, o mistério, o divino, a sagração
e a transcendência dos homens e das coisas''.
A FARSA DA BOA PREGUIÇA
A editora José Olympio vem
relançando, este ano, as peças de teatro de Ariano Suassuna. Já saíram O Santo e
A Porca e O Casamento Suspeitoso. Agora é a vez de A Farsa da
Boa Preguiça, toda em versos livres, com trechos musicais cantados, citações de
Camões, da Bíblia e de orações rezadas pelo povo sertanejo, oriundas da Idade Média.
Nesta peça, a erudição do mestre combina-se à perfeição com o saber belo e arcaico
de inúmeras gerações, unindo elementos estéticos do barroco, do simbolismo e do
cordel, transformando o sertão nordestino no palco das questões humanas de qualquer
lugar do mundo.
CONTINENTE MULTICULTURAL
Olha, é pra gente aqui se roer de
inveja. Eu, pelo menos. A revista Continente Multicultural, de Recife, é de alta
qualidade gráfica e editorial. Já vai pelo segundo ano, sempre com matérias instigantes
sobre literatura e artes em geral, tendo à frente Mário Hélio, Homero Fonseca e Marco
Polo, aliados a uma equipe de colaboradores que não se restringem ao Pernambuco. O
número 20, de agosto, traz na capa Ariano Suassuna, em texto exato de Marco Polo,
apresentando o artista fundador do Movimento Armorial, em entrevista pra lá de saborosa.
O escritor e estudioso do Armorial, Carlos Newton Júnior, aborda o personagem Quaderna em
contraponto a Hans Castorp, protagonista de A Montanha Mágica, e a Félix
Krull, de As Confissões do Impostor Félix Krull, ambos do escritor alemão
Thomas Mann. Tatiana Resende escreve sobre as várias faces do Movimento Armorial e
ex-participantes do movimento falam sobre Ariano, e mesmo quando discordam não conseguem
negar a influência fundamental do autor do Auto da Compadecida e Uma
Mulher Vestida de Sol. Ainda neste número, uma resenha de Ariano Suassuna,
O Cabreiro Tresmalhado, e a escolha de Ariano como ganhador do I Prêmio Jorge
Amado.
(© NoOlhar.com.br) |
Com relação a este tema, saiba mais
(arquivo NordesteWeb)
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