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Uma partida com o piadista

23/09/2002

Foto: NoOlhar.com.br

O Vida & Arte acompanhou, na semana passada, um fim de tarde de filmagens de O Piadista, novo filme do diretor Sérgio Resende. Em cena, Juca de Oliveira, Zé Vasconcelos, Paulo César Pereio, Castrinho, e Rafael Ponzi. Sentados ao redor de uma mesa, eles disputavam uma animada partida de pôquer

Christiane Viana
Especial para O POVO

   Um prédio abandonado, no centro de Fortaleza, ganhou vida nova nas últimas semanas. O edifício São Luiz - que abriga o cinema de mesmo nome - foi transformado em set de filmagens de O Piadista, novo longa-metragem do diretor Sérgio Resende (Lamarca, A Guerra de Canudos). Agora, o que era monotonia, virou um corre-corre incessante. Seu único elevador ainda em funcionamento não pára um segundo sequer, transportando gente e material para as cenas.

   Como QG da equipe foram escolhidos os quinto e sexto andares do prédio. É ali que acontece a maior parte das tomadas internas do filme. No quinto andar, fica um camarim improvisado para o elenco e dois dos cenários: um quarto de hotel e uma enfermaria. Já o sexto andar faz as vezes de apartamento do protagonista do longa-metragem, Felício Barreto, comediante aposentado que vive em São Paulo, mas decide retomar a carreira, buscando um novo parceiro no Nordeste.

   Foi nesse ambiente - a sala de estar do apartamento -, que o Vida & Arte acompanhou um fim de tarde de filmagens de O Piadista. Em cena, Juca de Oliveira, que interpreta o personagem principal; o humorista Zé Vasconcelos, no papel dele mesmo; Paulo César Pereio, médico de Felício; Castrinho, melhor amigo e roteirista dos antigos textos do comediante; e Rafael Ponzi, outro dos amigos de Felício. Sentados ao redor de uma mesa, eles disputavam uma animada partida de pôquer.

   O calor era intenso, piorado ainda pelos holofotes de iluminação. Mas o elenco parecia nem sentir. Atentos, todos escutavam as marcações do diretor. Resende, por sua vez, percebendo a fina sintonia entre os atores, chegou a deixá-los totalmente à vontade em alguns momentos: ''É a hora da cacolândia'', disse em certa cena, deixando-os livres para improvisar (caco, para quem não sabe, é o texto que não consta do roteiro, inventado na hora pelo ator).

   Mesmo assim, foi necessário bastante ensaio até que ele desse o aval para que as câmeras entrassem em ação de verdade. Afinal, em cinema qualquer erro significa centímetros de celulóide estragados e, conseqüentemente, mais dinheiro investido. Essa é uma arte feita de detalhes. E foi esse cuidado todo que provocou algumas interrupções no trabalho.

   Ora era um objeto fora de foco, ora um barulho inesperado. Como o tumulto causado em frente ao prédio por um pregador religioso mais empolgado, que tentava arrebanhar fiéis para sua seita. Mesmo acontecendo no térreo, a gritaria que ele fazia chegava a ser captada pelos sensíveis microfones da produção, atrapalhando as filmagens no sexto andar. Somente com muito jeito da equipe, é que o rapaz topou colaborar e finalmente ficou quieto.

   A direção de arte de O Piadista leva a assinatura de Clóvis Bueno, que também acabou de fazer a cenografia do já badalado Carandiru, longa de Hector Babenco, baseado no livro homônimo do médico Dráuzio Varella. No edifício São Luiz, Bueno remodelou alguns ambientes, criando cômodos do apartamento do protagonista - cozinha, sala de estar, corredor e banheiro - e ainda um quarto de hotel e uma enfermaria hospitalar. ''Trabalhei com muita gente daqui mesmo de Fortaleza. Tivemos um mês para preparar tudo. Mas, como são espaços fechados, não foi tão difícil'', revelou.

   Fechados, porém amplos. Esse é outro requisito básico do cinema. Além de espaço suficiente para comportar o elenco, os cenários devem ter lugar para que a equipe - leia-se: do diretor ao assistente que providencia o cafezinho - possa se movimentar sem interferir na cena. E espaço é o que não falta no São Luiz, atualmente desocupado, em compasso de licitação para venda.

   A escolha do prédio aconteceu sobretudo por se tratar de uma construção antiga. A equipe do filme precisava de um ambiente que representasse um edifício decadente, porém ainda com resquícios de luxo, em São Paulo. ''O Governo do Ceará está dando apoio logístico para a gente. Esse prédio, por exemplo, é administrado pela Secretaria de Desenvolvimento'', contou a produtora-executiva Marisa Leão.

   Ela revelou também que o longa-metragem tem orçamento de R$ 3 milhões e conta com financiamento das leis Rouanet e do Audiovisual. Os patrocinadores são a BR Distribuidora, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Fábrica Fortaleza, a Furnas, a Eletrobrás e a Rio Filme Distribuidora. Além do edifício São Luiz, serão realizadas cenas ainda na Ponte dos Ingleses, em barzinhos da orla marítima da capital fortalezense, na Barra do Ceará e nas praias do Morro Branco, Cumbuco e Balbino (Beberibe). São Paulo e Piauí também vão servir como locações do filme.

(© NoOlhar.com.br)

O filme

   O Piadista conta a história de Felício Barreto, comediante que se aposentou após o suicídio do companheiro de cena. Ele vive uma rotina pacata, até que toma conhecimento de um grande humorista nordestino, com quem resolve montar nova dupla. Seus amigos, em São Paulo, acham uma verdadeira loucura ele querer sair Nordeste adentro em busca de outro parceiro, até porque sua saúde não anda lá muito bem. Mas não há quem o demova da idéia.

   Em sua jornada, Felício traz consigo um jovem videomaker, cuja função é registrar as cenas e pessoas interessantes pelo caminho. Assim, novos personagens também vão se agregando à trupe. ''O filme é muito poético. Na verdade, nessa viagem ele acaba encontrando a si mesmo'', diz Juca de Oliveira, protagonista da história. Trabalhando pela primeira vez com Sérgio Resende, ele conta que há um ano e meio recebeu o roteiro de O Piadista e aceitou imediatamente fazer o papel.

   Estão também no elenco - além dos já mencionados Zé Vasconcelos, Castrinho, Paulo César Pereiro e Rafael Ponzi - José Wilker, Tiago Fragoso, Regiane Alves e vários humoristas e atores locais. Aqui, muito antes da equipe começar a filmar, foram realizados testes para seleção de novos nomes. ''Temos um grupo de apoio composto por oito ou dez atores cearenses e mais 25 comediantes, que participam de uma cena em que o Felício escolhe novos piadistas'', informa o assistente de produção Armando Praça.

   Entre os selecionados estão nomes como o de Karla Karenina (a Meirinha), as duplas Falido & Mal Pago e Carimã & Caritó, Motoca, Elvis Preto, Super Edson, Ron Filo, Rodrigo do Boneco e Jorge Furtado - este, da Casa do Cantador. A equipe também se deparou com revelações do humor, como o cabeleireiro Pepê Joel, que passou nos testes para piadista.

   As filmagens permanecem em Fortaleza até o dia 10 de outubro. Depois, seguem para Beberibe.

(© NoOlhar.com.br)

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