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03/11/2002
O "blueseiro" de carteirinha que ouvir o CD novo de Flávio Guimarães ('Navegaita', gravado este ano na Rádio Eldorado) vai levar o maior susto. Depois de cinco faixas com solos do intérprete, considerado com justiça o maior gaitista de boca do Brasil, intromete-se a voz agressiva de um violeiro nordestino. Trata-se, para começo de conversa, de um poeta popular fora-de-série: Sebastião da Silva, de Campina Grande, Paraíba, finalista com méritos de um festival no Memorial da América Latina do qual o pernambucano Oliveira de Panelas saiu com o título de "maior repentista do Universo". Pois bem, do jeito como as coisas vão neste texto quem começa a se assustar é o leitor. E com razão: que diabos faz um repentista nordestino num CD assumida e descaradamente de "blues", estilo americano por excelência e quase absolutamente desconhecido no sertão? Trata-se, é claro, de uma estripulia. E de quem podia ser? De Bráulio Tavares, também natural de Campina Grande. E nem chega a ser uma estripulia original. Bráulio mesmo já cometera outra antes, ao escrever numa melodia de Lenine o 'Marco Marciano' (com a autoridade de quem redige os shows de Elba Ramalho e já ganhou o prêmio de ficção científica da Editorial Caminho portuguesa por seu livro de contos 'A Espinha Dorsal da Memória'), em que dá um tratamento cósmico-espacial a um tradicional modo de viola nordestina - o da construção de um "marco" em versos. E mais: fez a letra de uma das canções de 'Lunário Perpétuo', de seu parceiro Antonio Carlos Nóbrega, na qual troca o navio dos cantadores tradicionais por um foguete espacial e o "galope na beira do mar" vira "galope voando no ar". Mas desta feita a estripulia é maior. Por sugestão de seu amigo americano Michael Grossman, o letrista escreveu a 'Balada para Robert Johnson' num território neutro entre a "balada" tradicional anglo-americana e a "canção" dos improvisadores da feira-livre de sua cidade, que rivaliza com a de Caruaru, em Pernambuco, em porte e colorido. Ao tema - a vida, paixão e morte do guitarrista negro do Delta do Mississippi -, o gaitista Flávio Guimarães acrescentou solos rascantes de gaita que dão à faixa o mais característico clima desse gênero de canção e poesia popularizado pelos catadores de algodão do Sul dos Estados Unidos. Definido pelos autores da "balada" - o violeiro matuto Sebastião da Silva, que a canta e acompanha ao violão no CD, e o poeta culto Bráulio Tavares - como "cantador de outro sertão", Robert Johnson (1911-1938) tinha mesmo tudo para ser um repentista se vivesse no Nordeste - alguém como o bardo surrealista e rabequeiro Zé Limeira, que também era negro, andarilho, mulherengo e original. Conte-se ainda que nos anos 80, para premiar Zé Ramalho pelo sucesso de seus primeiros LPs, a gravadora CBS deu ao poeta do Brejo do Cruz até o Leblon carta branca para produzir discos de artistas populares. Ele escolheu o violeiro Oliveira de Panelas, repentista inspirado e dono de uma potente voz de tenor, à Vicente Celestino. Ao ouvir a gravação, levada pelo produtor, mostrei-lhe a enorme coincidência daquele som com o do disco, que havia saído fazia pouco no Brasil, do "Rei do Blues no Delta do Mississippi". Troca de olhares com uma moça Aquela descoberta - mais tarde Zé Ramalho contaria a Zuza Homem de Mello, que escreveu o texto de seu álbum comemorativo dos 20 anos de carreira - inspirou uma obra-prima da MPB, 'Chão de Giz', sucesso na voz da prima Elba. O tal disco de Robert Johnson é único. Andarilho, carona habitual em trens e ônibus (como narra a "balada"), ele percorreu os Estados Unidos inteiros cantando seus raros "blues" e muitas mulheres, de preferência morenas e feias. Só gravou 29 canções - e de forma precária: ele no quarto de um pulgueiro de beira de estrada e o técnico no aposento do lado. Mas o registro histórico foi venerado por guitarristas do porte de Jimi Hendrix e Keith Richards - uma de suas composições, 'Love in Vain', é um dos maiores sucessos dos Rolling Stones. O charme de menestrel sedutor lhe seria fatal: aos 27 anos de idade, quando tocava e cantava num baile de caipiras, trocou olhares com uma moça e alguém lhe estendeu um copo. Bebeu sem saber o que era nem quem era a boa alma que apareceu para lhe matar a sede. Era veneno. E a mão que o diabo (com quem, segundo reza a lenda, reproduzida no filme 'Crossroad'/ 'Encruzilhada', aprendeu a tocar guitarra) estendia era a do marido da pretendida."Brilhou durante alguns anos, apagou-se num segundo. Não deixou seu nome escrito no mármore, no granito, nas armas ou nos brasões. O que deixou para nós foram os versos e a voz e vinte e nove canções", conta a 'Balada'. JOSÉ NÊUMANNEl (© Jornal da Tarde)
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