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Antonio Torres, andanças escritas

14/11/2002

Torres: "Até hoje, depois de 30 anos, tremo diante da palavra escrita. Tremo a cada novo livro"

Aos 30 anos de carreira, Antônio Torres revê sua trajetória e faz balanço da geração literária de 70

Rodrigo Fonseca
Repórter do JB

   Há três décadas, uma resenha no Jornal do Brasil saudava um jovem jornalista e publicitário baiano chamado Antônio Torres que estreava na ficção com um romance saboroso, Um cão uivando para a lua (1972). A crítica então creditava ao rapaz que havia saído da pequena cidade de Junco (atualmente Sátiro Dias), região rural do sertão da Bahia, o mérito de ter escrito ''o romance da fossa generalizada''. Com o lançamento, que repercutiu em toda a imprensa brasileira, Torres, hoje com 62 anos, iniciava uma jornada literária de 12 livros publicados em 30 anos.

   O fato é comemorado com uma homenagem na 48ª Feira do Livro de Porto Alegre, inaugurada no dia 1º, no Rio Grande do Sul, e que segue até o dia 17. Torres esteve lá na semana passada para lançar a nova edição de Um cão uivando para a lua (Record), recheada com a fortuna crítica da época de sua publicação e também com algumas histórias que marcaram seu ofício. Parte delas é tema desta entrevista, em que o escritor relembra os projetos de sua geração, fala do corsário René Duguay-Trouin, personagem de um livro que lança no ano que vem, e comenta uma fracassada experiência como autor de uma minissérie para a TV Globo que acabou sendo cancelada.

- O que significa completar 30 anos de carreira no mercado editorial brasileiro?

- Significa que é difícil manter o pique. Sempre há um baixo aqui, um ali. Mas acho que consegui manter autonomia de vôo. Mas há um lado desagradável. Completar 30 anos significa que eu eu estou ficando velho. Isso me dá certa nostalgia do tempo em que eu era um jovem autor.

- O senhor se envolveu recentemente com a TV, escrevendo a minissérie Terra do sol para a Globo. O que deu errado?

- Esse projeto nasceu de um convite de Doc Comparato, que queria um escritor para trabalhar com ele. A direção seria de Daniel Filho. Desenvolvemos a sinopse dos 16 capítulos da história, que se passava no início do século e falava de uma expedição que saía do Rio de Janeiro em direção ao Nordeste para matar o coronel Delmiro Gouveia. No fim, a minissérie não foi aprovada. Foi considerada violenta demais. E cara. Pronto! Mas me pagaram direitinho e a experiência com Doc foi muito rica.

- O senhor está escrevendo um livro sobre o corsário René Duguay-Trouin (1673-1736). Vai ser um romance histórico?

- René Duguay-Trouin foi um corsário de Luis XIV que transformou o Rio de Janeiro, em 1711, em refém, durante 50 dias, enquanto aguardava o pagamento de um resgate. E eu, como romancista, estou sempre atrás de um bom personagem. Fui lá na História buscar elementos para a ficção. O livro se chama, provisoriamente, René, o corsário.

- Quais as situações mais difíceis nesses 30 anos de carreira?

- Um deles foi durante um encontro no Teatro Casa Grande, em 1975, organizado pelo escritor João Antônio, com Antônio Houaiss como mediador, para discutir a literatura brasileira da época. Era para ser um divisor de águas da geração da década de 70. O evento reunia Wander Piroli, José Louzeiro, eu e outros. Pois o que imaginávamos que fosse se tornar um debate bem-recebido, foi malvisto pela platéia de estudantes, a turma da ''geração mimeógrafo'', que caiu de pau na gente. Eles nos chamavam de autores do sistema, porque estávamos sendo editados por grandes editoras. Quando o evento acabou, disse ao Houaiss que nunca mais falaria em público.

- Mas voltou atrás.

- Voltei porque quando disse isso ele retrucou afirmando que, de fato, o encontro fora um sucesso. E não deu outra. Na semana seguinte, começaram a chamar a gente para palestras pelo Brasil todo. Mesmo quando fomos proibidos de entrar nas universidades, já que todas possuíam agentes da polícia política, os estudantes arrumavam lugares para abrigar os encontros. Aquela foi uma geração literária forte.

- Sua geração, que inclui nomes como Roberto Drummond e Moacyr Scliar, consagrados nos anos 70, é filha do AI-5?

- Não. Foi uma geração que começou a se interessar pelos problemas culturais entre 1965 e 1968. Eu, por exemplo, sou filho de uma cultura popular eminentemente oral. Sou filho do imaginário de um povo, o de Junco, que não sabia ler e escrever. Tanto que chegar à palavra escrita foi uma conquista para mim. A maior de todas. E isso, de certa forma, me diferencia dessa geração, pois quase todos são de região urbana.

- Qual foi o projeto de sua geração?

- Não sei se existiu um projeto comum. Havia o fato de que estouramos todos na mesma época, éramos todos jovens e ninguém era excludente. Absorvemos muito dos que vieram antes de nós, como Rubem Fonseca, Autran Dourado, Lygia Fagundes Telles. Se houve uma marca no que produzimos, foi a busca por problematizar na literatura uma certa realidade política e cultural do Brasil. Tentamos levar para a ficção algo que havia desaparecido dela: a experiência concreta da vida brasileira. E fizemos uma busca formal para poder expressar isso. Mas não me dava conta disso na época. Acho que só queria publicar meu primeiro livro.

- Antes de lançar Um cão uivando para a lua, o senhor passou uma temporada na Europa. O que um filho de Junco foi buscar no Velho Continente?

- Fiquei em Portugal de 1965 e 1968. Fui lá para trabalhar em publicidade. Afinal, o jornalismo me ensinou a ver o mundo. A publicidade me ensinou a contar tudo o que vejo nele rapidinho. Mas o que eu queria mesmo era ir a Paris, naqueles cafés, ver se Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald ainda estavam lá. Sonho de provinciano.

- A evasão do campo é uma espécie de fantasma em sua literatura. O senhor aborda o tema fazendo um paralelo com a própria vida, já que deixou o Nordeste para ganhar o mundo. Nesses 30 anos de ''andança literária'', o problema do êxodo rural mudou?

- Em Sátiro Dias, por exemplo, a pequena propriedade acabou. Isso aconteceu quando os filhos dos pequenos proprietários arrumaram suas coisas e foram embora. Com isso, os velhos venderam a terra. Foi quando tudo se transformou em pastagem e acabou a produção. Falar que a reforma agrária mudaria isso, é algo óbvio. Mas há outro fato. O homem que saiu daquela terra não a abandonou só pela seca ou pela dureza do sertão. Saiu de lá pela sedução da cidade grande.

- O que o seduziu?

- O conhecimento. A possibilidade de entrar no mundo das letras. Tanto que até hoje, depois de 30 anos, ainda tremo diante da palavra escrita. Tremo a cada novo livro.

(© JB Online)

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