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O clown de tradição nordestina

19/11/2002

Aramis Trindade (D) no curta ‘Conceição’: humor inocente

O pernambucano Aramis Trindade fala de seu personagem Boca Pura

   Quem assistiu a Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas (1996), se lembra de Aramis Trindade. Ele vivia o sanguinário Tenente Flores, que caçava Lampião caatinga adentro. Duas seqüências do filme, em especial, renderam-lhe o Troféu Candango de melhor coadjuvante no Festival de Brasília: numa, ele dissecava a anatomia de um fuzil para seus comandados.

   Em outra, sangrava sem piedade um cabra.

   Seis anos depois de Baile, Aramis volta às telas. Seu personagem é Boca Pura, a quem Felício Barreto procura para "ver se há química entre eles", de forma que possam compor dupla nos moldes de "Paulo Gracindo e Brandão Filho". "O personagem Boca Pura caiu do céu para mim", confessa Aramis.

   "Boca é um comediante famoso no Nordeste, mas que ainda se mantém alheio ao mercado no Sudeste e não sente necessidade de 'fazer sucesso' na TV. Sua fama acaba atraindo Felício."

   O ator pernambucano conta que Felício pertence a uma turma de clowns bem anterior à geração dele. O fato de o personagem ser citado e procurado durante todo o filme cria expectativa muito boa. Para melhorar mais ainda, "Boca Pura é caçado por Felício, mas não enjaulado". E isto acontece porque ele não é um deslumbrado pelos mercados do eixo Rio-São Paulo."

   Aramis destaca um dos principais momentos de sua participação em Os Piadistas: "É aquele que mostra Felício finalmente chegando à minha casa.

   Meu personagem acaba se retraindo e, para 'fugir' do estilo cinema e TV, se disfarça de velho, como se tentasse espantar Felício. Sem querer, acaba fazendo mais um ótimo número. Para o ator, a identificação com Boca Pura se deu "pelo lado de palhaço humilde" que ele traz. "Assim como eu, que fui clown de circo dos 12 aos 17 anos, ele é um palhaço também. Minha escola foi o Circo da Raposa Malhada, em Pernambuco. Lá, aprendi muita coisa, entre elas, a criar o clown pobre, que tem o humor inocente dos palhaços mambembes."

   Em 2003, além de Os Piadistas, Aramis Trindade será visto em São Francisco - Um Rio Cheio de História, de Marcos Vínicius César, no qual interpreta o artesão Zé das Carrancas, e numa pequena participação em Lisbela e o Prisioneiro, de Guel Arraes. Amigo do também pernambucano Arraes, Aramis faz questão de lembrar que na versão teatral de Lisbela e o Prisioneiro fazia o matador. "No filme, esse papel ficou a cargo de Marco Nanini e eu acabo sendo assassinado por ele. Coisas da vida".

   No ano que vem, o ator voltará a trabalhar sob o comando de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, mas, desta vez, cada um fará seu próprio filme. "Com Lírio, em janeiro, farei Árido Movie. Dois meses depois trabalharei no novo longa de Paulo Caldas." Agora, o ator prepara-se para a estréia, no Rio, da peça Homem-Objeto, sob direção do pernambucano João Falcão. (MARIA DO ROSÁRIO CAETANO)

(© O Estado de São Paulo)

Sérgio Rezende prepara sua 'comédia poética'
 

É assim que o diretor define o novo longa, 'Os Piadistas', sobre a trajetória de um cômico

MARIA DO ROSÁRIO CAETANO
Especial para o Estado

   Há mais de uma década, o ator e dramaturgo Juca de Oliveira leva milhares de brasileiros ao teatro. Espetáculos como Meno Male, Motel Paradiso e Caixa 2 chegaram perto (ou ultrapassaram) a casa de um milhão de espectadores. Cada um. Isto, num momento em que produtores brasileiros suavam para que seus filmes vendessem 50 mil ingressos. Conseguirá Juca de Oliveira transferir o êxito do teatro para o cinema? O teste será feito em março de 2003, quando estrear Os Piadistas, décimo longa de Sérgio Rezende, no qual o ator interpreta o protagonista Felício Barreto. As seqüências finais do filme foram rodadas no centro de São Paulo, em torno do emblemático prédio da Faculdade de Direito, no Largo de São Francisco, na madrugada de sexta-feira.

   Depois de ambientar seus projetos em Brasília (O Sonho não Acabou), Nordeste (Doida Demais, Lamarca, Guerra de Canudos), Moçambique (A Child From the South), Baixada Fluminense (O Homem da Capa Preta), e Rio Grande do Sul, Rio e Liverpool (Mauá), Rezende sentiu vontade de filmar em São Paulo. "Sou carioca, mas o Nordeste tem sido o cenário da maioria dos meus filmes.

   Agora, ao Nordeste somei São Paulo, cidade onde nunca havia filmado." A capital paulista ambienta as seqüências que mostram o reinício da história interrompida de um humorista (Felício/Juca de Oliveira). Depois de 20 anos, ele resolve retomar a carreira e buscar, no Nordeste, um novo parceiro.

   Aproveita também para realizar acerto de conta com dores do passado.

   Juca de Oliveira é ator dramático. Mas nunca descuidou de sua formidável veia de comediante. Graças a ela, já arrancou risos de milhões de brasileiros. Em Os Piadistas, ele se cerca de outros cômicos famosos. Entre eles, os veteranos José Vasconcelos e Castrinho, e o jovem pernambucano Aramis Trindade, verdadeira força da natureza. Mas Rezende avisa que seu décimo longa está longe de ser "uma comédia rasgada, chanchadesca". Prefere defini-lo como "comédia poética".

   "Longe de mim fazer comparações, mas quis impregnar o filme com clima semelhante ao de trabalhos de Fellini (em especial Mulheres e Luzes, que ele fez com Alberto Lattuada, o documentário Os Clowns e Amarcord)." E - "por que não?" A Viagem do Capitão Tornado, de Ettore Scola, e O Incrível Exército de Brancaleone, de Mario Monicelli". Como se vê, Rezende está contaminado pelos bons fluidos da grande comédia italiana, aquela que não dispensa um travo amargo.

   Além de São Paulo (cenário de 30% da narrativa), Os Piadistas conta com seqüências rodadas no Piauí e Ceará - maior celeiro cômico do País (que o digam Chico Anysio, Renato Aragão, Tom Cavalcanti, Falcão e Meirinha).

   Teresina, Fortaleza, Lajedo, Beberibe e diversos povoados nordestinos ambientarão 70% do filme. "O Nordeste que escolhemos como cenário é contemporâneo e visto mais no litoral que no sertão", conta Rezende.

   Aos 67 anos, Juca de Oliveira, paulista da interiorana São Roque e figura rara no cinema brasileiro (Os Piadistas é seu nono longa), contracena com os onipresentes Josés (Wilker e Dumont) e o irascível Paulo César Pereio, verdadeiros ícones do celulóide nacional. Todos com mais de 40 filmes no currículo.

   Juca diz que fez pouco cinema porque os deuses do teatro o protegem. E, assim sendo, permitiram que escrevesse, dirigisse e atuasse em espetáculos de enorme sucesso. Alguns deles ficaram cinco anos em cartaz. Caravanas costumam vir de ônibus, do interior, para lotar os enormes teatros nos quais atua. "Como os deuses do teatro me protegem, dedico a eles fidelidade canina", assegura o ator. "Se monto uma peça, me entrego por inteiro a ela.

   Não saio para fazer novela, nem filme."

   O ator não mente. Rezende foi obrigado a ter paciência de Jó para vê-lo na pele de Felício Barreto. "Primeiro, terminei meus compromissos teatrais", conta Juca. "Depois, trabalhei em O Clone. Só então pude ir ao Nordeste fazer Os Piadistas." O cinema entrou na vida de Juca pela porta da frente.

   Ele protagonizou, ao lado de Raul Cortez, o drama judicial O Caso dos Irmãos Naves (Luiz Sérgio Person/1967). Quatro anos depois fez Jogo da Vida e da Morte, de Mário Kuperman, que não teve repercussão. Em 76, protagonizou À Flor da Pele, de Francisco Ramalho, vencedor do Festival de Gramado. Nos anos 80, divertiu-se em três comédias eróticas (Deu Veado na Cabeça, Perdida em Sodoma e A Mulher, a Serpente e a Flor). Aí veio o hiato dos anos Collor.

   Na Retomada, atuou em Outras Estórias, de Pedro Bial, e Bufo & Spallanzani, de Flávio Tambellini. Este trabalho lhe rendeu o prêmio de melhor coadjuvante em Gramado.

   Felício Barreto é um presente para qualquer ator. A narrativa, afinal, gira em torno dele. Quando a história começa, Felício, humorista aposentado por decepção amorosa e profissional, resolve retomar a carreira interrompida há duas décadas. Consulta o amigo Mirandinha (Castrinho), autor dos textos que representava, e resolve sair em busca de um novo partner. Um dos nomes que lhe são indicados é o de Boca Pura (Aramis Trindade), cômico jovem, talentosíssimo e capaz de dar as costas à TV.

   "No recheio da trama, humor, drama, romance e um pouco de nossa maravilhosa MPB vão somar-se", adianta Rezende. A trilha, de David Tygell, alimenta-se de variações em torno da Dança Húngara, de Brahms. E dois clássicos dor-de-cotovelo têm espaço garantido na história: Por Causa de Você (Dolores Duran e Tom Jobim), na voz de Drica Morais, e Ronda, de Paulo Vanzolini, pano do fundo sonoro para o passeio que Felício Barreto e Mirandinha fazem pelo centro de São Paulo, num reluzente Pontiac vermelho.

   O Caderno 2 assistiu às filmagens dessa seqüência e viu Castrinho fingir que dirigia o automóvel, ao qual fora acoplada câmara 35 milímetros. Na verdade, as rodas que garantiam o movimento eram de estrutura-suporte colocada sob o imóvel Pontiac vermelho. São os velhos truques do cinema, aqueles que nos fazem acreditar piamente na "verdade" das histórias de celulóide.

   O filme, que deve estar pronto em março ou abril, foi escrito por Rezende e Leopoldo Serran, parceiro de Arnaldo Jabor no delicioso Tudo Bem (1978).

   Sérgio não tem nenhum festival em vista. "Eliminei os festivais da minha vida. O que quero mesmo é manter bom diálogo com o público."

   O orçamento de Os Piadistas é de R$ 2,8 milhões e, se tudo der certo, será lançado com cem cópias. "Se temos uma magnífica MPB (Música Popular Brasileira), por que não podemos ter um bom CPB (Cinema Popular Brasileiro)?", pergunta Rezende. É em busca desse CPB que ele trabalha.

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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