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Brasil amarelado

23/11/2002

 Cláudio Assis, diretor de Amarelo Manga: sinceridade na tela

Dois longas nordestinos concorrem ao prêmio Candango no 35º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Lua Cambará - Nas Escadarias do Palácio, do cearense Rosemberg Cariry e o filme Amarelo Manga, do pernambucano Cláudio Assis. O diretor conversou com o Vida & Arte


Sílvia Bessa
Enviada a Brasília

   O pernambucano Cláudio Assis, 42, foi diretor do premiado curta Texas Hotel (1999). Antes, havia trabalhado como diretor de produção do filme Baile Perfumado (1996). Agora, no 35º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, ele apresenta seu primeiro longa-metragem: Amarelo Manga.

   O filme é uma história de encontros e desencontros amorosos. Além de pequenas violências cotidianas ofuscadas diante do caos urbano. O que será visto na tela é o submundo da grande Recife.

   ''A grande maioria do povo brasileiro está aí e as pessoas não percebem. Tem que escutar esse povo. Ou escuta ou a merda vai cobrir, como já está cobrindo. São pessoas importantes, fundamentais. Têm prazer, têm desejos, tesão, querem viver, querem trabalhar, igualzinho a gente, não tem diferença'', diz o cineasta.


   O título do filme vem do livro Tempo Amarelo, do sociólogo pernambucano Renato Carneiro Campos, que fala do amarelo dos dentes apodrecidos dos meninos, cor da miséria do País que Cláudio Assis quer expor.

O POVO - Você tem fama de soltar o verbo quando alguma coisa te incomoda. O que mais de indigna no cinema nacional?
Cláudio Assis - Não é no cinema brasileiro. O que me indigna é a mediocridade. Toda vez que ela vem, não dá pra levar recado pra casa. Tem que responder a altura. Só isso. Como eu estou no cinema, às vezes acontece, a gente responde e acaba mal visto. Mas enfim... É que a gente tem sangue vermelho e quente. Somos nordestinos.

OP - E isso muda alguma coisa?
CA - Muda. Porque nós lutamos muito para conseguir fazer alguma coisa, tem que batalhar. É uma região que é fodida em todos os sentidos, esquecida, e é uma região que tem uma cultura muito forte. E tem mesmo. Não é uma cultura de colonizador alemão, italiano. Não é desmerecendo os outros mas é que nossa cultura é muito arraigada. E sempre foi de luta.

OP - Você faz crítica à concorrência desleal de projetos em cinema que têm lobby forte de empresas e que acabam conseguindo levar vantagem na aprovação em leis de incentivo, na captação de recursos, distribuição. De qualquer forma, você conseguiu concluir o seu primeiro longa e está sendo bem recebido. Apesar da polêmica, você tem encontrado espaço. Alguma coisa mudou ou você conquistou isso?
CA - Acho que você tem de ser honesto com o seu discurso. Um dia, mais cedo ou mais tarde, essa verdade vai aparecer. E quando isso acontece é legal, é bacana, você está lutando pelo objetivo que tem. Se você é verdadeiro seu trabalho vai aparecer e alguém vai ver, vai gostar. É como o Lula ser presidente. Tem que ter perseverança nos seus objetivos. Tem seis anos que a gente escreveu o roteiro desse longa-metragem Amarelo Manga. E só agora a gente conseguiu colocar na tela. Amigos meus, muito próximos, chegaram a me dizer: ''Por que você não abandona esse projeto e tenta outro?'. ''Porque é ele que eu quero fazer. É com ele que eu quero discutir questões da sociedade, da realidade recifense, desse universo, desse submundo. E eu não vou abrir mão dele''.

OP - E por que foi difícil fazer esse filme?
CA - Porque ainda não existe uma política cinematográfica no Brasil. E é muito mais difícil para quem está fora do eixo. Tem que acabar com isso. Existem outros eixos. Existe um universo maior que passa pelo Rio Grande do Sul, por Recife, Goiás, Fortaleza. Há outras pessoas fazendo cinema. Este é um país continental. Por enquanto ainda é muito centrado e há pessoas que se arvoram como donos do cinema brasileiro. Ou abre, ou não acontece. A vida é dinâmica, dialética.

OP - Teu filme é pernambucano mas não tem uma temática sertaneja, regional. Teu olhar é urbano.
CA - Os problemas que existem em São Paulo, no Rio de Janeiro, existem também em Recife, em Nova Iorque, em Fortaleza. A gente não tem que só fazer filme que fale de maracatu, de boizinho, cangaço, a gente também tem outras temáticas. Sofremos do mesmo caos urbano. Não é que eu seja contra o cangaço, essas coisas, até já filmei isso, mas é que há outras coisas a serem ditas.

OP - Pra falar do lado marginal de Recife você compôs personagens diversos e bem fortes. Onde você foi buscar essas histórias? Como foi esse processo?
CA - A grande maioria do povo brasileiro está aí e as pessoas não percebem. Tem que escutar esse povo. Ou escuta ou a merda vai cobrir, como já está cobrindo. Não estão dando vez a eles, não estão olhando, aí eles estão se revoltando e vão se revoltar cada vez mais. Eles estão dizendo: ''Olha eu aqui!'. Acho que vai chegar uma hora em que vai ter que ouvir a pulso. É o que está acontecendo em São Paulo, no Rio. E vai acontecer daqui a pouco em Recife, em Fortaleza, em todo canto. Claro, ninguém olha para essas pessoas. E elas são importantes, são fundamentais, são iguais a mim e a você. Têm prazer, têm desejos, tesão, querem viver, querem trabalhar, igualzinho a gente, não tem diferença.

OP - Seu filme dá voz a essas pessoas?
CA - Eu tento pelo menos. Não sei se consigo.

OP - Você se baseou em personagens reais?
CA - Não. Eu gosto de observar e já morei em pensão. No sótão de uma pensão no Centrão do Recife. Eu gosto muito de andar, de ver o anonimato. Claro que a gente tem referências.

OP - Li em uma entrevista você dizendo que não agüenta mais a ''realidade maquiada do cinema nacional de hoje''. O que teu filme faz de diferente?
CA - É sincero. Não dá pra ficar vendo na Globo nordestino falar daquele jeito. O cinema representa o povo. Então como é que eu não conheço o nordeste e vou querer pintar ele daquela maneira? Vou ter pena do nordestino? Não tem que ter pena de ninguém. Somos o que somos, dependendo da nossa luta da nossa organização.

OP - Você nasceu em Caruaru. Foi lá que você se encantou com o cinema?
CA - Quando eu era criança tinha o Cine Caruaru, onde eu comprava os fotogramas dos filmes e colocava num monóculo. A gente colecionava. Eu adorava isso. Daí tinha o cabo Rodrigues, com um bigode enorme, que tomava de conta do cinema e dava muito cocorote na gente porque fazia muita algazarra. E como todo policial no Brasil ele era muito mal remunerado e não tinha dinheiro pra comprar o livro de escola dos filhos. Eu era uma série mais adiantado do que um deles e dava os meus livros. Com isso, passei a entrar de graça nos filmes de todas as idades, com cenas de sexo, faroeste, qualquer coisa. Então eu, pirralho, me escondia atrás da cortina e, quando estava tudo no escuro, saía. Mais tarde nós montamos o Cine Clube Lumiere Caruaru. Só passava filmes de arte, só os clássicos, bem cabeça. Eram sessões no cinema grande mesmo, aos domingos, lotado. E o bom era que depois a gente discutia... Depois eu fui pra Recife, pra universidade, aí decidi que queria fazer cinema. Fui ser assistente de produção, carregar mala, na labuta mesmo, pra olhar e aprender a fazer.

OP - Se esse filme demorou seis anos pra ficar pronto é melhor já ir pensando no próximo. Quais são seus projetos?
CA - Já estamos pensando. Vai se chamar Febre do Rato. É um poeta que escreve as poesias num folheto e só quer falar de sexo, da terceira idade... Eu quero discutir isso. Já temos o argumento. Estamos agora escrevendo o roteiro, eu e o Xico Sá (jornalista).

OP - Ele é cearense.
CA - É. Lá do Crato. Mas ele diz por aí que é pernambucano. (risos)

(© NoOlhar.com)

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