O grupo teatral
mineiro Galpão, o ator e diretor Antonio Abujamra, o músico Jards Macalé e o Instituto
de Cultura da Fundação Joaquim Nabuco foram os vencedores do Prêmio Multicultural
Estadão 2002. Eles foram escolhidos por um colégio eleitoral de 6 mil pessoas, composto
por artistas, intelectuais e formadores de opinião, que votaram pela internet entre os
dias 17 de outubro e 15 de novembro para eleger quatro entre 14 indicados - dez na
categoria criadores e quatro fomentadores culturais.
Cada um dos três escolhidos como criadores -
Abujamra, Macalé e Grupo Galpão - vai receber um prêmio de R$ 30 mil e ainda um troféu
criado pela artista plástica Sandra Cinto especialmente para esta sexta edição do
Prêmio Multicultural Estadão. Os outros concorrentes como criadores foram o ator Paulo
César Pereio, a coreógrafa Angel Viana, o DJ Dolores, os artistas plásticos Artur
Barrio e Abraham Palatnik, o videasta Eder Santos e o crítico de cinema Ismail Xavier.
Novidade nesta edição será a entrega de um troféu
criado pela artista Márcia Pastore a todos os concorrentes não selecionados pelo
colégio eleitoral, premiação retroativa, ou seja, esse troféu será entregue também a
cada um dos artistas já indicados nas cinco edições anteriores.
Vencedor na categoria fomentador cultural, para a
qual não há premiação em dinheiro, o Instituto de Cultura Fundação Joaquim Nabuco
(leia abaixo) vai ganhar o mesmo troféu assinado por Sandra Cinto. Nesta sua sexta
edição, o prêmio criado pelo Estado conta com o patrocínio da empresa Serasa S.A.
A festa de premiação ocorrerá na terça-feira, a
partir das 20h30, na Cinemateca Brasileira. Noite que coincidirá com a estréia da
montagem de Romeu e Julieta, do Galpão, no Rio. A exemplo do que ocorreu no mês passado
em São Paulo, a companhia faz uma mostra, a partir de terça-feira, de cinco peças de
seu repertório. Entre elas, o musical Um Trem Chamado Desejo, dirigido por Chico
Pelúcio, que representará o Galpão na festa de premiação, uma vez que não integra o
elenco de Romeu e Julieta.
"Esse prêmio reconforta-nos em nossa luta
diária", afirma Pelúcio. Foram muitas as batalhas em 20 anos de trajetória da
companhia que nasceu atuando nas ruas de Belo Horizonte; conseguiu a proeza de
estruturar-se e projetar-se nacionalmente mesmo atuando fora do eixo Rio-São Paulo;
consolidou uma linguagem muito particular, que mescla fontes populares e clássicas e, por
fim, alcançou projeção internacional a partir da montagem de Romeu e Julieta,
fartamente elogiada pela crítica inglesa em sua temporada na terra de Shakespeare.
Com a particularidade de ser um grupo integrado por
atores - a maioria das companhias brasileiras gira em torno da liderança de um diretor -
o Galpão jamais acomodou-se em fórmulas bem-sucedidas. E já prepara uma nova parceria,
desta vez com o diretor Paulo José, que vai assinar a concepção do próximo espetáculo
da companhia. "Premiação para o Galpão significa o reconhecimento de um trabalho
coletivo e, por isso, esse prêmio nos honra especialmente por traduzir a visão não só
de uma instituição, mas de várias pessoas representativas no cenário cultural
nacional", conclui Pelúcio.
Luta não é exclusividade do Galpão. Com a palavra,
Jards Macalé: "É difícil falar de um prêmio com o qual se é contemplado sem
parecer cabotino - mas, pensando abstratamente, uma homenagem assim dá uma
fotalecidazinha no ego, ao prestar tributo a um trabalhado realizado ao longo de anos: dá
ânimo à anima." Sabidamente um dos músicos mais inventivos, irrequietos e
irreverentes da música brasileira, ele não está, por isso mesmo, acostumado a ganhar
prêmios.
Pois os prêmios ditos culturais (a maior parte do
qual desmerece o qualificativo) presta honrarias a quem pertence a certos movimentos,
certos vetores do establishment da indústria cultural, e Jards Anet da Silva nunca foi
disso. Premiado, antes, foi, sim: pelas trilhas sonoras dos filmes O Amuleto de Ogum e
Tenda dos Milagres, ambos de Nelson Pereira dos Santos, em que também atua.
Morando hoje em Penedo, na região serrana do Estado
do Rio, Jards Macalé diz que anda revendo a própria obra: "Revendo com o gosto de
quem ouve; revendo como estou relendo Monteiro Lobato e revisitando poetas." Pretende
montar, em breve, um espetáculo que já tem nome - Dos 60 aos 60 - e cenários - peças
de Hélio Oiticica, uma bandeira de Roberto Magalhães. Dos 60 aos 60 porque Macalé
começou carreira em 1960 e faz 60 anos no dia 3 de março. Cenário de Oiticica porque
César Oiticica, irmão do artista plástico, encontrou três peças - três cenários -
intituladas Macaléas, criadas em homenagem ao amigo compositor, até há pouco perdidas
(Hélio Oiticica chegou a fazer capa para disco de Macalé). A bandeira de Roberto
Magalhães já foi usada antes por Macalé - uma visão angulosa de Brasília, que o
artista plástico deu de presente ao músico. O roteiro, claro, terá um espinha dorsal,
mas mudará de apresentação para apresentação - ou não seria um show de Jards
Macalé.
Aos 70 anos de idade, 52 de profissão e 118 peças
dirigidas, Antonio Abujamra costuma fazer mais alarde de seus fracassos - jura que foram
86 só no teatro - do que de seus sucessos. "O que falar sobre uma
premiação?", indaga temendo a banalidade. E logo passa a falar de seu novo
espetáculo, em fase de ensaios, As Bruxas de Salém, que estréia no início do ano no
Teatro Glória, no Rio. "Eu acredito que aquela violência macarthista está de novo
tomando conta dos Estados Unidos e o patriotismo exacerbado é sempre muito
perigoso." Mais um fracasso? Só o tempo dirá. Mas dificilmente será uma montagem
banal. Abu ama o risco. (Colaborou Mauro Dias)